O Que Representa A Morte do Vaporwave?

Com menos de quatro anos de vida, estilo nasceu, cresceu e teve seu fim declarado

O Que Representa A Morte do Vaporwave?

Para começar nossa conversa, temos que primeiro deixar claro o que é Vaporwave, além de delimitar com quem e como essa manifestação cultural, que obviamente transcende a música, escalou em popularidade para ser engolida pelo sistema, causando, assim, o que muitos se referem como “sua morte”.

Sem me estender tanto nesta descrição, basta dizer que o estilo brotou na Web no começo dos anos 2010 como um movimento musical que, assim como Seapunk, Witch House e Chillwave, teve sua raiz diretamente ligada à Internet. Sua postura está bastante conectada a comunidades de usuários como 4 Chan e Reddit, e seu ethos se transformou em uma espécie de contracultura ao mercado musical - mais especificamente ao EDM, mega-gênero do qual ele, de certa forma, não fica de fora.

De forma ambígua e bastante irônica, o gênero se formou como uma crítica ao consumismo desenfreado, não só de músicas, mas de imagens, comportamentos, estímulos e tudo mais que é jogado em nossa cara o tempo todo. Para tal, o Vaporwave buscou no Lo-Fi e na nostalgia uma forma de tentar combater isso. Suas músicas são geralmente recortes sobrepostos de faixas vindas dos anos 80 e 90, recheadas de referências e sonoridades que nem sempre se encaixam, causando certo estranhamento e distanciamento por parte do ouvinte. Igualmente, a parte visual do estilo (outro pilar importante em sua disseminação) é construída a partir da “edição tosca” de recortes e sobreposição de imagens, ligadas ao design dos anos 90, fontes orientais e obras renascentistas.

Essa estranheza gera certo distanciamento ao ouvinte, o que pode propiciar a ele um olhar mais crítico em relação ao que está consumindo. De forma geral, podemos dizer que boa parte de quem ouvia Vaporwave nos idos 2011 e 2012 o fazia com certa ironia, como uma gozação ao mercado musical. Conforme o estilo foi se popularizando, seu discurso foi lentamente perdendo a potência, até finalmente ser cooptado por grandes corporações como a MTV e o Tumblr TV, que, em suas mais recentes encarnações, se travestirem de Vaporwave - este texto de Jordan Pearson pelo site Motherboard, explica melhor como isso ocorreu.

Vou aqui chamar o filósofo esloveno Slavoj Zizek para me ajudar a explicar, de forma mais abstrata, como isso acontece - o que ele comumente se refere como “capitalismo cultural”. “Quando um consumidor compra algo hoje, ele não compra apenas um produto, mas uma ideia vinculada". É com essa frase de Zizek que vamos começar a nos aprofundar no tema.

Vaporwave (assim como o Punk nos anos 70, ou Hip Hop, 80) se tornou não mais uma contracultura (neste caso baseada na ironia), mas um produto que trazia estes valores. O discurso, que já foi genuíno um dia, agora é parte de uma Indústria, é mais uma engrenagem de uma máquina mercadológica. O discurso dessa satírico contra o sistema é agora comercializado e faz parte do próprio sistema - o que Adorno e Horkheimer já previam desde 1942, com seu ótimo ensaio Dialética do Esclarecimento.

Nossa sociedade de consumo, o tal capitalismo cultural, gera este tipo de fenômeno, em que produtos são acrescidos de ideias e discursos, ou seja, vão além o próprio produto. Deixo agora Zizek falar um pouco sobre isso:

“Foi Marx que disse há muito tempo que uma mercadoria nunca é simplesmente um objeto que compramos e consumimos. Uma mercadoria é um objeto repleto de qualidades teológicas e mesmo metafísicas. Sua presença sempre reflete na transcendência do invisível (...) A publicidade clássica da Coca-Cola faz referencia de forma aberta a esta tal ‘qualidade invisível’. Isso não é outra característica concreta da Coca ou algo que possa ser descrito através de uma analise química. É um misterioso ‘algo a mais’, um excesso indescritível que é causa objetiva do desejo.

Imbuído dessa tal “qualidade invisível”, do discurso anticonsumismo, o Vaporwave se tornou o que é hoje em dia, mas não sem antes tornar-se um produtor de consumo - transformar-se naquele objeto que criticava em primeiro lugar. Uma contradição no mínimo curiosa, mas nada inovadora para quem acompanha o Mercado Fonográfico e o ciclo dos estilos musicais em suas subidas e descidas das paradas de sucesso. É basicamente assim que se movimenta o mercado e que surgem novas tendências, é assim que a roda gira e os cifrões são feitos.

A Indústria é assim, ela é feita destes altos e baixos, picos e vales de popularidade. A ruína de um gênero significa a acensão de outro, que eventualmente irá cair para que outro tome seu lugar. Mesmo em um mercado poliforme e pulverizado, isso continua sendo verdade, as Leis de Mercado continuam sendo válidas, mesmo quando a audiência cria novos hábitos. E a declaração tão precoce de morte do estilo cai em outra análise, uma em que também podemos recorrer a Zizek e seu pensamento sobre o consumismo:

“Não pode haver em um retorno a uma era prévia do consumo natural, em que se desfaça esse excesso e que consumiremos somente para nossas necessidades reais, como, quando se está com sede, bebe-se água e pronto. Não podemos voltar a isso. O excesso está com a gente para sempre (...) Quando bebemos uma Coca, se ela está quente, ela não é mais uma Coca autêntica. E é esse o problema: a passagem tão rápida de uma dimensão sublime para uma coisa horrível; como, quando está gelada e bem servida é coisa divina e, de repente, quando esquenta, pode ir para o lixo.”

E talvez isso possibilite pensar em como nosso consumo desenfreado de música, nesse caso, nos tornou propensos a sermos movidos por dois fatores: a obsolescência contínua de novos estilos, e sua constante “perda de sublimação”. Se por um lado eles são “criados para morrer daqui a um tempo”, por outro sua popularização e influência (para outros artistas) é também, em última instância, o motivo pelo qual irá “morrer”. E isso vem acontecendo com cada vez mais frequência e mais rápido. Notem, foram apenas quatro ou cinco anos (desde o lançamento das obras fundamentais do Vaporwave) até que seu obituário fosse assinado pela imprensa que ajudou a erguê-lo.

Esse tipo de consumismo nos gera uma necessidade violenta de novidades, antes mesmo que o corpo do estilo anterior esfrie já temos um novo preferido. Esse desejo tornou-se vil ao ponto de gerar a si mesmo, e, em certa medida, estamos consumindo e descartando novidades tão freneticamente que nem sabemos o porquê de estarmos fazendo isso. Esse estímulo tornou-se tão potente que o celebramos dando adjetivos e nomes como trendsetters ou early adopters a quem o pratica. Mas algumas perguntas surgem a partir disso: será que estamos realmente aproveitando toda o potencial da música feita hoje em dia? Será que a vida tão breve do Vaporwave não é um alerta de que algo está errado com o ritmo que consumismos as coisas?

Antes de terminar, vamos mais uma vez ouvir o que esse filosofo esloveno tem a dizer:

“Um desejo nunca é simplesmente o desejo de uma certa coisa, sempre é também o desejo pelo próprio desejo. Um desejo de continuar desejando. Talvez a batalha definitiva ao desejo seja em estar completamente satisfeito e não mais desejar nada (...) Em nossa sociedade pós-moderna, ou como queira chamá-la, nós somos obrigados a curtir. E a curtição (o prazer) se torna uma espécie de obrigação perversa (...) O paradoxo da Coca-Cola é que quando se está com sede, você bebe uma, mas, como todos sabemos, quanto mais você bebe, mais sede você tem”.

Artistas: Chuck Person, James Ferraro, Macintosh Plus, 情報デスクVIRTUAL

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