O Maravilhoso e Árduo Processo de Lana Del Rey

Novos singles apontam direções interessantes para o rumo da carreira da cantora

O Maravilhoso e Árduo Processo de Lana Del Rey
Neil Krug

Ame-a ou odeie-a, uma coisa é certa: Lana Del Rey levou a fossa ao novo nível quando lançou suas primeiras canções. A cantora e compositora é frequentemente associada à música melancólica, fato que levou a sucessivas piadas na Internet sobre uma suposta frase dita em uma entrevista: “queria estar morta”. Juntando uma série de referências da estética american way of life com cores vibrantes e vintage, Lana consolidou sua carreira cedo com o fantástico disco de estreia Born To Die, uma construção artística que definiu bem a grande mistura de referências da cantora. Cinco anos após seu primeiro disco de estúdio, muitas músicas foram lançadas e ficou evidente que uma maturidade ia acompanhando sua produção, junto com álbuns cada vez mais elaborados e grandiosos. E justamente desta elaboração uma nova Lana parece estar surgindo, uma Lana mais sorridente.

O single Love trouxe mistério e receio, criando uma espécie de cisão entre os entusiastas da artista. Divulgado com uma série de pôsteres cinematográficos espalhados pelos Estados Unidos, a canção trouxe uma sonoridade semelhante ao que já havia sendo feito, mas muitos consideraram as melodias bem mais alegres do que o costume. Após este single, uma nova composição foi lançada mostrando mais frutos da incrível e parceria com The Weeknd, complementando as ótimas composições do último disco do cantor em que Lana também participou. Esta também apresentava refrões mais epifânicos com acordes mais felizes, corroborando as tendências que Love havia iniciado. Mas, será que esta mudança é realmente algo tão preocupante assim que possa botar em risco sua carreira e toda identidade que ela construiu ao longo destes seis anos de carreira?

Por mais que as músicas de Lana abordem temas como o alcoolismo, relações abusivas, abuso de drogas e temas mais densos, é preciso desconstruir este pensamento de que suas composições são melancólicas. Elas podem tratar de temas pesados e tristes, mas todos os arranjos clássicos, misturados a elementos de Trip-Hop e música Eletrônica, dão os seus discos uma grandiosidade inquestionável. Desta forma, suas músicas devem ser encaradas como epifânicas, em um primeiro momento, e depois devidamente direcionados para os sentimentos que se deseja expressar, em sua maioria, a tristeza.

É difícil não reconhecer na música Born To Die o êxtase sentido quando chegamos ao refrão e as cordas reverberam com força. Ou até mesmo em seu segundo trabalho, considerado o mais depressivo e pesado até hoje, em que Lana declama com pesar a emocionante Fucked My Way Up To The Top, com uma base instrumental grandiosa, quase como se a cantora tivesse orgulho de ter passado por todos os episódios intensos de sua vida/da vida de sua personagem.

Mesmo que esta curta análise dos arranjos não justifique totalmente a mudança para abordagens mais alegres, isto não deve ser encarado como algo tão inusitado, afinal estas tendências puderam ser observadas em seu último disco Honeymoon. Talvez não de uma forma tão explícita mas, certamente, algumas das músicas deste disco introduziram certos elementos que deram brecha para interpretações mais alegres da obra de Lana. Don’t Let Me Be Misunderstood, cover de uma faixa de Nina Simone, intercala momentos de tensão com partes mais abertas e eufóricas. Até mesmo o single High By The Beach coloca referências de batidas Hip-Hop mais evidentes, criando um espectro mais distante daquela névoa densa como em Art Deco. A música de Lana se mostra tocante em todos os aspectos, seja nos fazendo voar por paisagens épicas ou nos arrastando para as profundezas da fossa.

Assim, vemos que o novo disco de Lana Del Rey fica cada vez mais relevante. Seja pela mudança mais concreta dos sentimentos expostos em suas obras passadas ou pela produção fantástica que alcança novos níveis a cada lançamento. Temos certeza que a cantora nos impactará de formas novas e fantásticas e, caso não nos dermos por satisfeitos, temos sempre o bom e velho Born To Die para nos afogar em angústias.

Artista: Lana Del Rey

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