Grizzly Bear - Ruína e Identidade

O que esperar do novo álbum da banda?

Grizzly Bear - Ruína e Identidade

2017 abriu uma cápsula do tempo do Indie. Ao longo das últimas década, bandas de sucesso dentro estilo musical que estavam “inativas” - ou seja, sem material inédito, tirando férias para dar espaço para projetos paralelos, em turnê, recessão, ou, seja lá o que for - voltaram à cena. Arcade Fire, Fleet Foxes, Dirty Projectors, Broken Social Scene e LCD Soundsystem são alguns dos nomes que, ao renascer neste ano, estão formando um patamar de gente “experiente da velha guarda consagrada que serve de inspiração para as novas gerações”.

Grizzly Bear viu tudo isso acontecer gradativamente e, para endossar o caldo ao lado de seus semelhantes, esta que é a “banda favorita de Jonny Greenwood” anunciou o quinto álbum, chamado Painted Ruins, o primeiro a ser lançado após um intervalo de cinco anos. O que podemos esperar dele?

Bom, se você tem acompanhado o trabalho do grupo novaiorquino (agora residente em Los Angeles), deve saber muito bem que seus álbuns não são aqueles nos quais o assunto se resolve já de primeira. É uma banda, como diria Gabriel Rolim em sua resenha de Shields, para sentar no sofá com fones de ouvido e digerir com calma. Ou, seguindo a mesma linha de pensamento de André Felipe a respeito de Fleet Foxes, esta é uma banda para se ouvir com o corpo todo.

Muito do aspecto enigmático da banda vem por conta de suas sobrecamadas de instrumentos e do jogo arranjado de vozes: ouvir Grizzly Bear é como decifrar um enigma, descascando sua arte diligentemente e sentir uma enorme recompensa por isso. A música do grupo é obscura, foge - inclusive em suas letras - do óbvio, e escorre nauseante por ondas sonoras que cutucam o cérebro. Tudo é intrigante e vale a pena.

No momento em que escrevo este artigo, quatro faixas das onze que estarão em Painted Ruins já estão disponíveis para a audição. São elas Neighbors, Four Cypresses, Mourning Sound e Three Rings. A impressão que temos em uma primeira ouvida é que o grupo, sem perder a fórmula mágica da intriga, pretende deixar a sua música cada vez mais aberta e convidativa. Ouvir a linha evolutiva que sai de Horn of Plenty, passa por Yellow House, Veckatimest, Shields e que agora chega nestes excertos de Painted Ruins é como acompanhar um grupo que cuida cada vez com mais preciosismo dos equipamentos e dos instrumentos com os quais fazem sua música.

A ideia que Painted Ruins passa é contraditória: a de alguém que cuida das ruínas de alguma coisa, preservando a degradação. É algo como viver no conforto da sua própria bagunça, ideia que parece reforçada no verso “its’s chaos, but it works” da faixa Four Cypresses. O clipe de Neighbors também traduz essa ideia de maneira preciosa: pessoas que se apagam aos poucos e começam a se tornar parte do ambiente que estão vivendo. Assim é com uma mulher que vira esponjas de lavar a louça, ou com um homem que vira o sofá da sala.

Não é apenas ao estado de ansiedade diante da degradação do mundo contemporâneo que estamos falando. É também a música de uma banda que olha com carinho para aquela que já não é mais. Felizmente Grizzly Bear esquiva-se com graciosidade das perspectivas mais óbvias daquilo que faz: para saber do que se trata Painted Ruins, é preciso deixar o seu corpo se tornar música.

Artista: Grizzly Bear