David Byrne Vem Aí

Há vários motivos para você não perder o artista de vista em sua passagem pelo Brasil

David Byrne Vem Aí

Pouca gente se dá conta: David Byrne é escocês. Nada contra as pessoas nascerem na terra de Connor MacLeod, mas a gente sempre associa a imagem e a música do sujeito a um banho de modernidade musical que o Rock americano levou lá por meados dos anos 1970. De Dumbarton até Nova York, Byrne cravou seu nome na modernidade artística mundial, não só pelo trabalho inestimável à frente dos Talking Heads, um grupo que ainda é imune à passagem do tempo, mas pela abertura que promoveu no próprio conceito de World Music, divulgando vários artistas ao redor do planeta, entre eles, Tom Zé e Os Mutantes e fundando uma gravadora para abrigar e lançar discos dessa gente, a Luaka Bop. Não bastasse tudo isso, Byrne tem uma carreira solo respeitável e cuidadosamente econômica, à qual ele dá sequência de tempos em tempos. Sendo assim, 2018 assistirá a um momento raro, um lançamento de disco inédito de Byrne, o aguardado American Utopia, com participação de uma galera diversificada, que conta com gente como Sampha e Brian Eno, velho parceiro de Byrne dentro e fora dos Talking Heads. A cereja do bolo é a escalação do sujeito para se apresentar no Lollapalooza e em algumas cidades do país. Este ano tem tudo para ser o ano de David Byrne.

É bom que você saiba que Byrne é artista pertencente a um nível totalmente distinto do que estamos acostumados a ver/ouvir. Ele tem uma linha de desenhos de quadros para bicicletas, por exemplo. Também lança livros, pinta, provavelmente borda, chuleia e faz ponto de cruz. Jogar nas onze posições do time nunca foi esforço para ele, é mais uma necessidade natural. Assim como gente como Peter Gabriel e o próprio Brian Eno, Byrne é um inovador da música pop. Suas criações com Talking Heads trouxeram música africana e eletrônica para o Rock, numa espécie de diáspora tardia do estilo. Com isso ele fez as pessoas perceberem que o futuro do ritmo está na África, esperando para ser conectado e entendido. Seus primeiros álbuns com o grupo, que ainda contava com Jerry Harrison, Tina Weymouth e Chris Frantz, tiveram a participação de Eno na produção e abriram fronteiras para o Rock nos anos 1980 e reverberaram nos dias atuais, em trabalhos de gente como Vampire Weekend e Arcade Fire, por exemplo. Também com Eno, Byrne gravou um álbum seminal para o encontro dos ritmos africanos com a eletrônica, My Life In The Bush Of Ghosts, em 1981.

Não adianta ficar num passado tão distante, certo? A gente quer que você conheça o que Byrne deve levar aos palcos brasileiros e entender porque o sujeito é tão importante. Se voltarmos alguns anos no tempo, mais precisamente ao início do século, veremos Byrne fazendo sucesso...no rádio. Sua canção Like Humans Do, cheia de balanço, percussões, violinos (sua marca registrada), teve inesperada execução nas paradas Pop do planeta. Isso levou seu álbum Look Into Eyeball, de 2001, a uma estranha popularidade. Sabemos que a obra do sujeito nunca primou pela popularidade, numa razão inversamente proporcional em termos de importância e influência. Após colaborar em gravações ao vivo com Caetano Veloso e lançar outro disco em 2004, Growing Backwards, David Byrne se dedicou a escrever. Quatro anos depois ele lançaria um novo álbum colaborativo com Brian Eno, Everything That Happens Will Happen Today, sem muito alarde. Enquanto ele sumia da mídia, seus discípulos exercitavam suas influências. Orgulhoso, ele chegou a fazer vocais de apoio na versão ao vivo de Speaking In Tongues, sucesso dos tempos do Talking Heads, na edição de luxo de The Suburbs, de 2010.

Este ano também marca o retorno dele ao disco, de forma pouco convencional. Ao lado de Fatboy Slim e um time de cantoras que incluiu, entre outros, nomes como Florence Welsh, Sia, Natalie Merchant, Cyndi Lauper, Tori Amos, St. Vincent e Sharon Jones, Byrne lançou o impressionante Here Lies Love, um álbum duplo sobre a juventude de Imelda Marcos, viúva do ex-ditador filipino Ferdinando Marcos. Imelda é conhecida por ter uma personalidade extravagante e aspirações megalomaníacas. O álbum chegou como um alien na produção musical daquele ano e pouco se falou dele, uma injustiça das maiores, uma vez que é um trabalho superlativo, cheio de belíssimas canções e participações impressionantes. Confirmando que havia retornado à produção, Byrne gravou um disco ao vivo com Caetano em 2011 e colaborou com St.
Vincent no ano seguinte, lançando outro belo álbum: Love This Giant.

Dia desses, ele comentava com bom humor sobre suas canções serem sampleadas por outros artistas, em especial, Selena Gomez, que pegou a linha de baixo de uma de suas canções mais conhecidas, Psycho Killer, para compor a base rítmica de seu single Bad Liar. "Não vejo problema algum, o que pega é quando deturpam o sentido da canção original e criam algo totalmente ilógico". A entrevista, concedida à edição gringa da Rolling Stone, era sobre o novo, que chega em março, American Utopia.

David Byrne é um dos maiores opositores da presença de Donald Trump no poder. Por conta de terrível declaração dada pelo presidente americano nos últimos dias, na qual chamou países da África e da América Central de "buracos de merda", Byrne criou uma playlist no Spotify com o nome de The Beautiful Shitholes, à qual ele disse se tratar de uma pequena amostra da beleza e riqueza artística da música dos países africanos e caribenhos. Se há alguém com autoridade para falar sobre isso, Byrne certamente está credenciado.

É este sujeito, do alto de seus 65 anos, que estará entre nós em cerca de um mês. Ele sai em turnê pelos Estados Unidos e Europa para divulgar o novo álbum, com direito à maior produção de palco desde os anos 1980, quando sua banda ainda estava em atividade. Não é sempre, ainda mais nestes tempos paradoxais, que alguém desse calibre resolve sair de sua toca e dar as caras pelo mundo, com tanta generosidade e circunstância. Não perca.

Artista: David Byrne

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