Riot Grrrl: Mulheres Engajadas

Riot Grrrl: Mulheres Engajadas

Estamos em Março, mês em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher, uma data que todo ano é comemorada para exaltar a força da mulher e lembrar das lutas travadas por elas durantes anos para conquistar a igualdade social, seus direitos e também o respeito. Por isso, a coluna de hoje será sobre um subgênero que envolve muito mais do que música, mas também a continuidade dessa luta em prol da mulher. Não que elas não tenham sido importantes nos demais estilos musicais, entretanto este é feito totalmente por elas e merece destaque por sua complexidade de construção e pela forte ideologia por trás. Hoje falaremos do Riot Grrrl.

Manifestar-se é uma das melhores maneiras de expor sua opinião, indignação e parecer perante à sociedade em que se encontra, seja para mudanças imediatas ou futuras. Os movimentos feministas conseguiram trabalhar nas duas vertentes, conseguindo mudanças de momento ou de futuro próximo, assim como trilharam caminhos que seriam seguidos e reforçados futuramente por novas gerações. Tais movimentos ganharam o nome de “ondas”, sendo a primeira entre os séculos 19 e 20, a qual buscava o direito feminino ao voto.

A segunda onda, entre os anos 1960 e 1970, foi a que mais causou repercussão e é a mais conhecida e comentada. Nela, as mulheres saíram às ruas com uma vertente anti-sexismo e lutavam por igualdade trabalhista e dos direitos civis, assim como os direitos reprodutivos. Assim como se sabe, nessas duas décadas o mundo da música estava a todo vapor: Woodstock, o psicodelismo, as letras politizadas contra a Guerra do Vietnã, e nomes como Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix e Cream, entre outros tantos, figuravam a cena. Toda essa ebulição seria um prelúdio a um movimento forte que surgiria do meio para o fim dos anos 70 e seria responsável por ser o estilo musical mais dotado de ideais político-sociais: o Punk.

Muitas garotas que namoravam músicos do estilo acabavam se inteirando do movimento, sendo algumas delas engajadas na bandeira do feminismo. Tal mistura resultou em bandas compostas exclusivamente por garotas e que entoavam fúria e revolta de sua opressão através da música. Surgia o embrião do que viria a ser chamado futuramente de Riot Grrrl. Bandas como The Runaways, de Joan Jett, L7, e Patti Smith foram umas das mais famosas e que tiveram maior expressão e destaque na época e que viriam ser tomadas de exemplo pelas gerações futuras, inclusive da próxima onda.

Ainda nos anos 70, na cidade de Hart, localizada no estado de Michigan, um festival com o foco no movimento feminista e suas diversas formas de expressão foi criado. O Michigan Womyn’s Music Festival, onde a expressão “womyn”, utilizada no nome do festival, e “wimmin” foram criadas para evitar o uso das palavras “man” e “men” na composição das palavras “woman” e “women”. Neste festival, bandas totalmente formadas por mulheres, principalmente do underground, se apresentavam nos palcos. Entretanto, além do lado musical, o festival era composto por convenções, workshops, e palestras sobre abuso, estupro, racismo, sexismo, auto-defesa e produção de zines - estes utilizados para a propagação dos ideias.

A terceira - e atual - onda inciou nos anos 90 e veio seguindo os passos da anterior. Em 1991, uma banda, mais precisamente sua líder Kathleen Hanna, da capital dos Estados Unidos foi a responsável por dar o nome Riot Grrrl ao movimento e ao subgênero. A banda em questão é Bikini Kill, uma das principais do estilo, junto de Bratmobile, The Donnas e Heavens to Betsy, passava através de suas letras mensagens de protesto e levantava a bandeira em prol de direitos da mulher em uma base apegada ao Punk e ao Hardcore. Seu primeiro material, um EP homônimo, pode ser considerado o primeiro disco do estilo.

Vale agora fazer duas ressalvas. A primeira dela é a fim de se evitar a confusão com o Girl Power, que era vendido pela mídia televisiva e fonográfica através das Spice Girls numa roupagem Pop e sem qualquer tipo de engajamento político e social. O outro ponto é que muitos imaginam o movimento feminista, assim como o Riot Grrrl, como um movimento que ergue a mulher a um nível superior ao homem. Entretanto, essa visão é equivocada. Assim como disse Molly Neuman, baterista do Bratmobile, "We're not anti-boy, we're pro-girl." (“Nós não somos anti-garotos, nós somos pró-garotas.”).

No início dos anos 2000 a força do Riot Grrrl ficou um pouco menos agressiva e politizada, entretanto sem perder representantes. Em 1999 a nova banda de Kathleen, ex-Bikini Kill, lançaria seu primeiro disco. Tratava-se de Le Tigre da banda de mesmo nome, lançado pelo selo Mr. Lady Records, um selo independente dedicado a produções de álbuns de temática feminista. Ainda com temas ligados ao feminismo e movimentos LGBT como em sua ex-banda, Hanna agora traria uma sonoridade mais dançante do Eletroclash tendo a faixa Deceptacon como um grande hit da época e que ainda faz sucesso nas pistas de dança. A nova linhagem trazia grande admiração às originárias do Riot Grrrl, assim como se baseou em seu som mais cru e denso e numa formação feminina, mais do que no engajamento político-social - por exemplo, bandas como Vivian Girls e Dum Dum Girls.

Mais recentemente, em 2011, o nome Riot Grrrl veio à tona com o grupo feminista/”banda” Pussy Riot, que foi acusado de afronta ao governo Putin e assim sentenciado à prisão. A notícia repercutiu o mundo todo e teve o apoio às garotas por parte e artistas como Die Antwoord, Björk, The Black Keys, Johnny Marr e Paul McCartney, entre outros. Tal acontecimento, além de ser um movimento de expressão feminina na Rússia, acabou por resultar quase que em uma nova onda, revivendo o Riot Grrrl. Isso fica facilmente observado ao ouvirmos Girl Talk, último disco de Kate Nash, no qual a cantora apresenta letras e músicas com uma roupagem digna de bandas do estilo.

Fica a dúvida se estaríamos iniciando uma retomada do movimento com uma nova onda, ou até mesmo de um prolongamento da terceira onda. O que sabemos é que não falta engajamento para essas garotas.

Discografia:

The Runaways - The Runaways
Patti Smith - Horses
L7 - L7
Bikini Kill - Bikini Kill
Bratmobile - Girls Get Busy
The Donnas - The Donnas
Le Tigre - Le Tigre
Dum Dum Girls - I Will Be
Pussy Riot - Pussy Riot
Kate Nash - Girl Talk

Artistas: Le Tigre, The Donnas, Bratmobile, L7, The Runaways, Bikini Kill, Kate Nash, Dum Dum Girls, Patti Smith, Pussy Riot

Marcadores: Riot grrrl, Punk, Estilos