Introspecção e Volumes Altos: Warpaint e Slowdive no Primavera Sound

Sexta-feria teve apresentações que se destacaram pela riqueza musical construída nos mínimos detalhes

Por Gabriel Rolim, 09/06/2014, às 19:10

Fotos: Hugo Lima - NOS Primavera Sound

Assim como na edição espanhola do Primavera Sound 2014, o segundo dia do festival se mostrou ideal para o evento como um todo: com uma proposta sonora diferente, concentrada sobretudo em artistas preocupados em criar música de formas pouco usuais, a sexta-feira foi idealmente feita para a introspecção sonora, o ato de se escutar música atentamente, prestando atenção nos mínimos detalhes. Foram em concertos como os de Mogwai e Godspeed You! Black Emperor que tivemos os momentos instrumentais mais belos do evento, além de termos a chance de ver ao vivo o som orgânico das meninas do grupo Warpaint, comprovar a volta do Shoegaze nas mãos de Slowdive, escutar a psicodelia latina de Föllakzoid e entender in loco se o nome do produtor de música eletrônica Todd Terje é tão relevante assim.

Se a garoa fina havia dado conta de molhar um pouco o público na quinta-feira, a mesma surgiu como uma ingrata participante no dia seguinte. O tempo nublado, feio e escuro sugeria que teríamos concertos cheios de lama no Parque da Cidade, pois o recinto inteiro não havia concreto, somente natureza ao seu redor. Capas de chuva eram distríbuidas na entrada e pessoas já vinham preparadas para o pior. No entanto, tanta ameaça acabou se convertendo em alívio ao notarmos, ao final da tarde, o Sol surgindo sobre o mar. Logo no começo, vi o concerto dos chilenos Föllakzoid, banda de Rock Psicodélico bastante básica e lisérgica. Com um som longe das maiores invenções e propondo criar somente uma atmosfera de transe semelhante a Trance Music, o grupo não mostrou nada de muito relevante, fazendo uma música viajada, porém banal quando vista ao vivo: músicos usando somente delay, poucos acordes e um sintetizador comum serviram para somente aguçar a apresentação de Warpaint, que viria logo a seguir.

Dono de um dos discos mais interessantes de 2014, Warpaint, na minha opinião, era de longe um dos concertos mais esperados em todo o Primavera Sound. Seu som som orgânico e viajado se tornara extremamente sensual neste ano e, ao mesmo tempo, não tão imediatista como em seu disco anterior, The Fool, mostrando que teríamos uma apresentação que exigiria a nossa concentração e capacidade de abstração, sobretudo de quem desconhecesse sua obra. E foi assim que o concerto seguiu, explorando as nuances de seu recente trabalho, como as batidas Hip Hop em Biggy, o suingue de Disco\Very ou a acessível balada Love is to Die. No entanto, podíamos perceber o virtuosismo de suas integrantes, principalmente da baixista Jenny Linderberg e da baterista Stella Mozgawa: o groove de ambas, extremamente ritmíco, é a base necessária para o ar sexy que as duas vocalistas e guitarristas, Theresa Wayman e Emily Kokal, trazem. Longe de ser um som agitado, era uma proposta para quem não queria ficar pulando, mas sim de quem queria realmente entender a música das meninas. Porém, as vozes femininas do grupo são construídas de uma forma frágil contrastando com o peso e os ritmos lisérgicos que compõe seu som, deixando resultado final hipnotizante. Extremamente simpáticas, um cover de Ashes to Ashes de David Bowie e com o Sol ao seu lado, as meninas se sentiram bastante a vontade e tocaram somente duas faixas de seu disco de estreía: as ótimas Bee e Undertow. Estava iniciada a maratona de shows preocupados com texturas e progressões, ideais à introspecção.

Já havíamos visto o show de Slowdive em Barcelona, ficando perplexos com Shoegaze da banda, tão diferente e ao mesmo tempo semelhante a nomes como My Bloody Valentine e, mais recentemente, Yuck, por exemplo. No entanto, a correria do gigantesco festival nos fez ir atrás de outro concerto, deixando para a cidade do Porto a tarefa de vê-lo integralmente. Enquanto Pond rolava no Palco ATP, o grupo britânico iniciava as suas atividades no Palco Superbock em uma apresentação contemplativa, emocionante e que comprovava a volta do estilo com força total. Era notável perceber o público mais velho que se amontoava para ver o retorno de um dos nomes mais importantes do gênero e, logo nos primeiros acordes, de Slowdive e Avalyn, faixas presentes no primeiro EP da banda (mostrando uma grande preocupação com seus fãs), podíamos ver que se tratava do pesado estilo musical com a sua constumeira distorção, mas diferente ao mesmo tempo. Se nas apresentações de My Bloody Valentine é comum a distribuição de protetores de ouvido devido ao peso do som, podemos notar que tal necessidade não é aplicada à banda de Reading. Seu trabalho é muito mais melódico e ritmíco, combinação que surge a partir da troca de vocais entre Rachel Goswell e Neil Halstead e pelo baixo pulsante de Nick Chaplin, o centro do grupo. Localizado no meio do palco e com uma calma impressionante em faixas como Alison e Catch the Breeze, era o ímã que atraia todos os olhares devido à sua altura. No entanto, a banda inteira é magnética e, ao mesmo tempo em que uma parte da plateia cantava clássicos como Souvlaki Space Station e When the Sun Hits, uma outra estava literalmente paralisada, sem entender muito bem como aquele barulho estridente tinha tanta melodia e beleza por trás. A banda havia anunciado que a turnê que estava realizando era para arrecadar fundos para um novo disco e ao fim, após um cover de Syd Barret (Golden Hair) e mais de uma hora de show, podíamos ter certeza de que o Shoegaze voltou com força total e que ainda estamos muito longe de saber como o estilo pode evoluir daqui pra frente,

Em seguida, veríamos uma dupla de concertos que podem ser considerados cinematográficos: Mogwai e Godspeed You! Black Emperor. Se já havíamos visto ao menos trechos de ambas as apresentações em Barcelona, poder ver ambos em sua totalidade se mostraria uma experiência musical única. A começar pela segunda e misteriosa banda do Canadá, GY!BE pode ser considerado um daqueles grupos que você dificilmente verá ao vivo, mesmo. Recluso e sem muita comunição com público e a mídia, o grupo faz um som instrumental com base no Rock e sem comparações. Constrói suas faixas de forma progressiva e unindo camadas aos poucos, à espera de uma clímax para as suas composições, algo que sempre acontece em seus discos. No entanto, in loco e podendo perceber como aquelas histórias eram contadas, eu pude concluir que poucas bandas conseguem capturar e passar tanto sentimento e honestidade sem ao menos dizer uma palavra sequer (nada mesmo foi dito ao longo da apresentação). Começando com somente distorção sonora em Hope Drone, sem nenhum músico ao palco, o grupo se propõe a mostrar algo diferente ao público. Músicos vão entrando aos poucos, enquanto alguns permanecem agachados e continuam assim até o término da faixa de 15 minutos. Logo depois, se sentam e a luz baixa, quase inexistente se não tivesse um projetor colocando um filme em preto e branco ao fundo, dá um ar de que estamos diante de uma pequena reunião folclórica de música, como uma roda de fogueira e violão. No entanto, estamos falando de uma banda atmosférica, colérica. Em faixas como Mladic e Gathering Storm, os presentes ficaram afoitos quando chegava a explosão sonora de seu clímax e extremamente atentos enquanto as belas melodias de violino e contrabaixo são tocadas. Cada a um, à sua maneira, se conectava com a música: alguns de olhos fechados, viajando em sua própria interpretação de uma canção sem palavras, outros com atenção exigida e prestanto atenção a cada detalhe que era tocado no palco. Não importava como se estava a entender aquele momento, só era necessário que fosse feito de forma pessoal e intransferível. Estávamos diante de um espetáculo sonoro complexo, com poucos atos (cinco) e mais de uma hora de duração. Ao final, os músicos foram ovacionados como em um teatro e todos os presentes tinham a sensação de que haviam passando por uma intensa e pesada terapia, inimaginável, no entanto, se alguma palavra tivesse sido dita naquela noite.

Mogwai segue a mesma estrutura de progressão e camadas, mas, enquanto os canadenses se escondem por trás de identidades misteriosas e fazem quase que um show de Jazz, sem muita preocupação com a imagem e somente com o conteúdo devido ao seu aspecto cru, os escoceses seguem o papel inverso. Já são considerados uma grande banda de Rock e o seu elogiado e recente disco Rave Tapes teve as faixas Remurdered, Heard About You Last Night e Master Card sendo tocadas. Impecável e precioso, o grupo não se deixa muito livre em relação a estrutura de suas músicas: todas são seguidas de forma minuciosa e talvez seja este o elemento que deixe os espectadores mais vidrados em sua apresentação. Como cada acorde e história são construídos, com espaços cinematográficos para a diminuição totalmente do volume do grupo, para uma consequente explosão em Hunted By a Freak, por exemplo, são aspectos de uma banda que deveria ser vista sentada como um bom filme. No entanto, seu som é extremamente alto, a ponto de doer os ouvidos, independente de se estar perto ou não das caixas de som, e toda esta pressão sonora acaba hipnotizando o ouvinte. O jogo de luzes e imagens que o seu aparato de grande banda de Rock traz deixa a experiência ainda mais vibrante e intensa. Certamente, não é um concerto para qualquer pessoa, e o seu horário à 1:30 da manhã poderia não ser muito convidativo, mas a verdade é que a apresentação foi uma das mais cheias de todo o festival, e a nova combinação do grupo, que não só faz os ouvintes ficarem atentos ao som sendo criado, mas também às luzes e o palco como um todo, deixou Mogwai como a “película” com a melhor trilha-sonora de todo o festival, deixando sequelas aos ouvidos mas com a certeza de termos visto um grandioso espetáculo.

Ao final do segundo dia de festival, tivemos a chance de ver ao vivo o produtor norueguês, Todd Terje, mostrando no palco Pitchfork grande parte das músicas que compõe o seu ótimo disco deste ano, It’s Album Time. Se na obra temos o exemplo de uma boa produção concentrada no Eletro e na House Music, sempre com muitas camadas de instrumentos, Terje se resume no palco a somente um computador emulando o seus sons e a sua maior valência: um sintetizador para realçar seu talento como pianista. Alívio sonoro para um dia tão parado, introspectivo e pesado, seu concerto era a escolha ideal para quem queria relaxar e dançar um pouco em um dia tão exigente. Seu show foi contagiante e fez com que as pessoas desejassem ficar mais no festival antes de retornar as suas casas ao som de sua mais divertida ao vivo, Inspector Norse.

Como todo bom festival de três dias, temos, sempre um primeiro dia matador com diversos headliners para que o segundo possa ser um pouco diferente, mais concentrado na música e feito especialmente para que as pessoas possam aguentar toda a maratona. No entanto, longe de termos uma sexta-feira fraca, tivemos provavelmente a noite do festival com mais concertos exigentes e bem construídos musicalmente que, se não conseguiram colocar as pessoas para dançar ou ao menos se mexer diante da paralisia e hipnose que a música causou, ao menos lhes deu a chance de poder que não nos resumimos a somente um estilo sonoro na atualidade. Mais do que isso, o cenário do festival, dentro do Parque da Cidade e com anfiteatros naturais foi ideal para concertos exigentes e cinematográficos. Continuamos a nossa cobertura com olhares e ouvidos atentos a tudo que se passa no Primavera Sound do Porto. Vamos nessa!

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