Unknown Mortal Orchestra - Multi-Love

Unknown Mortal Orchestra - Multi-Love
  • Ano: 2015
  • Selo: Jagjaguwar
  • Produção: Ruban Nielson
  • # Faixas: 9
  • Estilos: Pop Psicodélico, Rock Psicodélico, Indie Rock
  • Duração: 41:00
BBBBa

A tarefa de um crítico se resume em avaliar e comparar três amplos conceitos em determinada obra: Aquele que diz respeito ao autor, ao próprio crítico e ao seu público em geral. Ruban Nielson, nome por trás do projeto Unknown Mortal Orchestra torna a avaliação do primeiro desses conceitos bastante complicada em seu trabalho, o que não é diferente em seu terceiro e aguardado álbum, Multi-Love.

Suas letras são sempre enigmáticas numa primeira audição. Não apenas por serem difíceis de serem entendidas de primeira mesmo por um falante de língua inglesa, mas também por não fazerem sentido sem um contexto prévio que explique o pano de fundo que motivou alguma composição específica. Isto pode ser considerado um ponto negativo, já que a maior parte dos ouvintes não terá o trabalho de ir além da audição do disco, mas tal fator não pode também tirar o mérito da grande sensibilidade que pode ser percebida em suas letras após uma pesquisa um pouco mais aprofundada.

Contextualizando brevemente, Ruban é casado, pai, e conheceu durante uma viagem uma garota de 18 anos, com quem manteve contato e eventualmente decidiu, em consenso com sua mulher, trazê-la para morar com eles e viver uma relação a três. Sabendo disso, o conceito de Multi-Love, tão presente neste trabalho, passa a fazer muito mais sentido e letras antes bobas e indecifráveis, como a de Can’t Keep Checking My Phone, vista superficialmente por alguns como um hino do comportamento da sociedade contemporânea, tornam-se muito mais profundas e belas.

Melodicamente, essa complexidade temática de Nielson também pode ser percebida. Todas as faixas parecem contar com mais elementos, sempre em busca de atingir melodias agradáveis e, nesse disco em específico, também bastante dançantes - tarefa atingida com maestria, já que um de seus principais méritos como músico é sua capacidade de inserir, em praticamente todas as músicas, ganchos e riffs extremamente Pop e marcantes, daqueles que em um saudoso joguinho do iPod conseguiríamos adivinhar a música apenas ouvindo alguns segundos. Tudo isso envolto no seu típico clima Lo-fi, cheio de texturas e filtros (desta vez um pouco mais limpos, mas com a mesma personalidade) que tornam o disco ainda mais quente e convidativo.

Voltando a suas enigmáticas letras, é impressionante o quanto sua beleza está na simplicidade certeira de alguns versos, como “It’s not that this song’s about her/Most songs are about her” ou “She could be the love of your life/Just for one night”. Felizmente, os temas eram um pouco mais otimistas do que no álbum anterior, que já começava com o trecho “Isolation can put a gun in your hand”.

Mesmo com Unknown Mortal Orchestra conquistando cada vez mais fãs pelo clima vintage (mas extremamente contemporâneo, como discutido em entrevista ao Monkeybuzz), Pop e cheio de personalidade, fica a dúvida se em algum momento, por suas escolhas de produção e estilo de composição mais enigmáticos e menos acessíveis em comparação a outros artistas, o projeto chegará a estourar de fato, ou se sempre será aquela banda muito bem elogiada por um certo grupo de apreciadores de música e que, na história, ficará presa em uma única geração e citada por preciosistas como a pérola de uma época.

Para um músico que há alguns anos parecia ter decidido abandonar a produção artística, não acredito que ele esteja muito preocupado com isso. Por enquanto, Nielson e sua história do “poliamor”, ou “Multi-Love”, comprovam o estereótipo romantizado do artista que vive uma vida distante da rotina dos meros mortais. Vive para ter experiências que engrandeçam sua arte e isso é sempre bonito de ver e ouvir.

Bom para quem ouve: Tame Impala , Boogarins , Mac Demarco

Artista: Unknown Mortal Orchestra

Marcadores: Psych Pop, Rock Psicodélico, Pop Psicodélico, Indie Rock