Björk - Utopia

Björk - Utopia
  • Ano: 2017
  • Selo: One Little Indian/Wellhart
  • Produção: Arca
  • # Faixas: 14
  • Estilos: Eletrônica, Eletrônica Experimental
  • Duração: 1h11
BBBBb

Após ouvir Utopia algumas vezes, fazem sentido tanto as críticas que Björk recebeu nos dias que cercaram seu lançamento por ter feito um trabalho tão ruidoso e cheio de inserções quase aleatórias, ao mesmo tempo tão intenso na parceria com Arca (a mesma que gerou o anterior Vulnicura para um alto grau de exposição nas letras, assim como você logo entende todos os louvores que o álbum recebeu justamente pelos mesmos motivos.

Sabemos, Björk, assim como todos os artistas que se distanciam de um espírito mais Pop, possui um alcance bem mais limitado no quesito "agradabilidade" do que aqueles que trabalham de maneira mais alinhada com a maioria da produção fonográfica. Ao longo dos anos, contudo, a cantora islandesa conseguiu reunir um público consideravelmente grande, principalmente quando levamos em conta essa "esquisitice" que vem à frente de todos os seus lançamentos, e isso acontece, presumo, pelo teor de sinceridade que ela consegue exprimir em produções de grande qualidade musical, tecnicamente falando.

Utopia é isso, mais uma vez. É um disco propositalmente desconfortável por tratar de temas dignos de ansiedade - sobretudo a vulnerabilidade de se apaixonar e deixar-se envolver com outra pessoa - em uma ambientação distante do "popular", com sons da natureza inseridos nas batidas atmosféricas e sintéticas criadas por Arca - que aparece aqui não apenas como produtor nos crétidos do álbum, mas como "artista convidado" em praticamente todas as faixas.

E como esse incômodo todo é acompanhado também de um enorme fascínio, um carisma envolvente e um lado humano e sensível sempre evidente em uma produção tão artificializada, sabemos que estamos diante de mais uma grande obra da artista. Agora, veja bem, Vulnicura trazia as mesmas características, mas sabia, em diversos momentos, como comunicar sua mensagem de maneira mais acessível. Não é em Utopia nenhum momento como o disco anterior fez em sua abertura com Stonemilker, o que distancia ainda mais o novo registro de um número maior de ouvidos.

Quem escolhe mergulhar em sua estética, contudo, se percebe diante de um dos momentos mais arrebatadores do ano, com uma narrativa que sabe aproveitar todos os elementos mais característicos da artista (a carga honesta nas letras, sua métrica, a maneira como seu sotaque e pronúncia nos versos em inglês viram um timbre a parte na interpretação) em função de causar no ouvinte uma resposta sentimental bastante orgânica em meio à ambientação sintetizada - a sequência Features Creatures, Courtship e Loss é o melhor exemplo disso, funcionando como clímax da obra.

É Björk em mais um grande momento de sua carreira, ainda que ele venha cercado de reações negativas. Permita-se o envolvimento, ainda que ele venha acompanhado de tanto desconforto.

(Utopia em uma música: Features Creatures)

Artistas: Arca, Björk

Marcadores: Eletrônico Experimental, Eletrônica