Ventre - Saudade (O Corte 腹切り)

Ventre - Saudade (O Corte 腹切り)
  • Ano: 2018
  • Selo: Balaclava Records
  • # Faixas: 4
  • Estilos: Rock, Rock Alternativo, Pós-MPB
  • Duração: 18 min
BBBBa

Sabe aqueles momentos em que você começa procurar no passado indícios de algo que deu ou está dando errado no presente? Quase como como se buscasse lá trás alguns elementos que pudessem prever um futuro não muito animador - seja nas cartas e mensagens de um(a) ex ou mentalmente naquelas conversas descompromissadas com um amigo que já não está mais do seu lado?

Saudade (O Corte 腹切り), de certa forma, me soou assim. O EP, anunciado pouco depois de Ventre revelar uma pausa por tempo indeterminado em sua carreira, tem aqui e ali esses elementos que já apontavam para uma separação - ou será só a minha cabeça projetando nas letras a incapacidade de aceitar essa realidade?

Aquela Mancha abre o registro quase como uma carta de despedida: “Olha aquela mancha na tua blusa branca / Eu sei que vai sair / Vamos limpar juntos /Para caminhar separados”, diz o trio em um dos versos. A crueza da mensagem é mesma que aparece na mixagem, algo bem menos polido que Ventre, disco de estreia dos cariocas lançado em 2015. As guitarras são mais lacerantes, a bateria mais agressiva e o baixo mais abrasivo, algo que, ainda que seja bastante direto, continua com o refinamento único da banda.

Na sequência, O Corte realmente conta sobre o término de um relacionamento. Através de eu lírico feminino, o grupo diz sobre se reconstruir após o final de um ciclo - talvez um retrato romantizado do que a banda enfrentaria no futuro com seu próprio hiato. “O espelho já não me reconhece mais / E acho que eu, eu não me conhecia tanto quanto eu dizia pra mim mesmo / Quando eu tentava enganar a todo mundo / Que não havia algo de podre em mim / Que eu não podia ser tão ruim assim”, canta Gabriel Ventura.

O misto de spoken world com sessão de improviso traz à vida a faixa Pulmão, que em sua poesia mostra a realidade de alguém bastante confuso e que parece lutar contra a realidade. A derradeira Alfinete é talvez aquela busca no fundo do poço por alguma luz, é o começo do processo de sarar as feridas deixadas (“O gosto ruim na boca é pouco / E não sinto mais pena, nem raiva de mim / Poder sorrir de novo, é Como aprender a caminhar /Sentir que eu posso entregar de novo”) para poder recomeçar.

“Ventre é um kanji (腹) e o corte é kiri (切り). Unir os dois resulta em hara-kiri (腹切り) que é o ritual de suicídio japonês. Daí o conceito de fim induzido”, disse Larissa Conforto na época do anúncio da separação do grupo e, talvez, essa seja mesma aquela carta de adeus aos fãs - bem como é para o próprio trio. As feridas estão sarando dos dois lados (Eu sei que o tempo anda lento/ E que você tem que correr / Rasgar aquele sonho / Para construir algo novo), mas fica na memória os bons momentos vividos e aquela esperança, lá no fundo, de que esse “adeus” possa ser um “até logo”.

(Saudade (O Corte 腹切り) em uma faixa: O Corte)

Bom para quem ouve: Lupe de Lupe , Baleia , Cícero

Artista: Ventre

Marcadores: Pós-MPB, Rock Alternativo, Rock