Baleia - Quebra Azul

Baleia - Quebra Azul
  • Ano: 2013
  • Selo: Independente
  • Produção: Lucas Ariel, Bruno Giorgi e Baleia
  • # Faixas: 8
  • Estilos: MPB, Post-Rock
  • Duração: 41:15
BBBBb

Se você cresceu no Brasil, há certas músicas que você conhece sem querer, ou mesmo sem saber. Isso se aplica ao hit do verão de alguns anos atrás que você ainda não se deu conta de que sabe cantar grande parte da letra, ou de sonoridades que ouvimos sem perceber aqui e ali ao longo da vida, mas meio que já fazem parte do nosso DNA. É aquele som que você escuta quando está do outro lado do mundo e se sente em casa, mesmo se não souber que música está tocando.

É esse o nível de familiaridade que você estabelece desde a primeira audição de Quebra Azul (título que, se você falar bem rápido, sai quase um “quer Brasil”), álbum que a banda carioca Baleia talhou artesanalmente ao lado dos produtores Lucas Ariel e Bruno Giorgi. Você tem certeza que já ouviu isso antes, ao mesmo tempo que é um som tão contemporâneo que não te resta dúvidas de que ele não teria sido feito antigamente.

O que o sexteto fez foi pegar essas as referências que quem nasceu no país (em qualquer das últimas décadas) cresceu ouvindo - seja dos Tropicalistas, das marchinhas tradicionais, do Mangue Beat ou qualquer outra coisa que alguém consiga chamar de MPB - e lançar em um espírito que lembra o Post-Rock, só que com grande ênfase nos vocais e letras. Lembra aqueles grupos inspirados na Bossa Nova que você nem sabe o nome e aqueles cantores com versos cerebrais que você não entendia bem na infância, mas não fica tão longe assim de um trabalho tupiniquim de um Mogwai ou Explosions in the Sky.

A abertura com Casa, a mais curta das oito faixas, dedica-se a estabelecer de primeira a conectividade do ouvinte brasileiro com a sonoridade da banda e logo ganha nossa simpatia com sua métrica familiar, rimas bem-vindas e melodia doce: “Minha casa é simples,/ mas é forte todavia./ Chove todo dia/ uma calma solidão./ Vento que arranca/ dos varais uma lembrança/ tudo que me alcança/ Era sonho, agora, não.” A atmosfera já fica mais ampla de uma vez na seguinte, Motim, muito mais pesada que a anterior em uma estrutura mais aberta, mais livre - não à toa, foi a escolhida pela banda para anunciar o lançamento do álbum, já que ela resume muito do que ouviremos por toda a obra.

A nostalgia, algo tão comum em nosso tempo, está presente em todos os segundos do disco, seja na mistura de estéticas de outros carnavais ou mesmo nas letras - como em Jiraiya, uma cantiga de roda pra gente grande relembrar sua infância com figurinhas e Comandos em Ação. Mas a obra é focada em uma temática bastante adulta, beirando o existencialismo ao falar de se sentir desconfortável por ser quem é (como em In) ou mesmo se sentir só (“Ninguém nunca vê minha casa/Ninguém nunca entra” em Casa e “Solidão, mãe de todo mundo aqui, dê à luz. Diz sim” em Despertador, por exemplo).

As harmonias vocais e os muitos substantivos em métricas quebradas (como “Fardo/corte cicatrizado/contradição opaca/vítima de uma faca esterilizada/surra de mãos lavadas” no refrão de Sangue do Paraguai (Furo 2)) são mais MPB do que os próprios timbres e ritmos, às vezes. Elas caem muito bem com o surrealismo de faixas como Furo ou a tensão de Breu, e fica difícil descrever um som tão complexo sem apelar também para as muitas palavras e liberdade criativa para escrever.

E chega a ser irônico pensar que Baleia despontou há pouco tempo, com repercussão em veículos internacionais, justamente por fazer versões Jazz de grandes hits Pop. Na hora de se fechar no estúdio e gravar suas próprias composições (em um processo perfeccionista que durou um ano e meio), o sexteto trabalhou com a sensibilidade e o bom senso lado a lado para criar um trabalho que se transforma em um bom exemplo do que pode ser chamado de “Pós-MPB”.

Bom para quem ouve: Novos Baianos , Bixiga 70 , Cícero

Artista: Baleia

Marcadores: Post-Rock, MPB