A Saudade de Arcade Fire

Banda traz show bem executado, energético e, principalmente, maduro

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Fotos: Fernando Schlaepfer/ I Hate Flash

“Essa música é sobre saudade”, ecoando até agora. Ainda com a cabeça levemente aérea e um misto de sensações desordenadas depois de assistir ao show de Arcade Fire, uma das partes marcantes de domingo me sopra na memória que o vocalista Win Butler, depois de tocar a música The Suburbs, disse que ao ler um tweet de Ezra Koening (vocalista do Vampire Weekend), descobriu o significado da palavra “saudade”, e completou dizendo que não sabia da existência de um termo que sintetizasse o tema central de todas as músicas da banda.

Logo depois que terminou a apresentação do grupo Pixies, os fãs já tomaram o espaço do palco principal do Festival e aguardaram quase duas horas até o início do show da Arcade Fire. Eu era uma dessas pessoas, numa espera que durava menos de dez anos, quando foi a última apresentação da banda pelo Brasil (bem menos do que isso pra mim, já que a conheci tardiamente), mas já suficiente para elevar a ansiedade a um nível inexplicável. Corpos cansados de uma maratona de Lollapalooza e ansiosos por um dos grandes momentos do evento que marcaria ali o encerramento da segunda noite. O espaço ali era montado aos poucos e já era possível perceber a cenografia e atmosfera sendo criada, o que só aumentava a tensão coletiva.

O começo do show foi mágico. A ansiedade foi substituída pela euforia, assim que começaram as projeções nos telões do palco com cenas do filme Orfeu Negro, mostrando imagens de um garoto dançando, misturadas com o som de samba de fundo. Em seguida, um homem com uma fantasia coberta de espelhos, símbolo de Reflektor, surgiu no meio do público em uma passarela que era ligada até o palco e anunciou no microfone que, finalmente, o show tinha começado.

Para a turnê do disco Reflektor, a banda traz uma estética menos introspectiva e mais celebrativa, com figurinos coloridos, excêntricos, além de máscaras e adereços que compõem a nova fase, beirando a teatralidade e o tom carnavalesco. O cenário também vem como complemento, trazendo uma composição bastante incorpada: quatro grandes placas foram posicionadas no palco como grandes refletores de luz. Mesmo apresentando maior leveza em sua apresentação, Arcade Fire parece ter enriquecido a sonoridade, com uma mistura de timbres e ritmos, bem apresentados no álbum que dá nome à turnê da banda.

Eu poderia dizer que o show foi maravilhoso, marcante, emocionante. Mas ele foi mais. Foi dançante, bem executado, energético, maduro. Mesclou canções de todos os trabalhos da banda, compostas em fases distantes e até com sonoridades diferentes, mas que pareciam integrar uma coisa só, vivida ali no palco. Talvez porque todas uniam o tal tema em comum, a saudade.

A banda fez uma apresentação que arrepiou do começo ao fim. Os integrantes despejavam energia e intensidade nas canções, e o público se emocionava a cada faixa tocada. Parecia uma grande espera coletiva de milhares de pessoas que ali chegava ao fim. Win Butler e Régine Chassagne interagiram percorrendo a plataforma para que ficassem mais próximos do público. Durante o show, a banda citou canções brasileiras como O Morro Não Tem Vez, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes (na voz de Régine), Aquarela do Brasil, de Ary Barroso (tocada instrumentalmente por homens usando as grandes cabeças de papel machê que invadiram o palco), e Nine Out of Ten, de Caetano Veloso. Isso só fez com que o público se encantasse ainda mais com tudo o que estava acontecendo.

Win Butler, com sua voz marcante, parece ser o complemento ideal de Régine Chassagne e do restante grupo, em que tudo parece ser perfeitamente encaixado. A banda toda apresenta uma integração perfeita e a mescla de instrumentos e ritmos mostram um alinhamento também perfeito. O ponto que deixou isso claro foi quando a banda, que se mantinha no palco, tocou It’s Never Over (Hey Orpheus), enquanto Régine estava nessa passarela próxima do público e interpretou de uma forma magnífica a canção, tanto musicalmente quanto em sua performance expressiva.

As pessoas cantavam junto, até sozinhas às vezes, incentivadas pelo próprio vocalista. Era uma energia pulsante, os pulmões enchiam para fazer parte daquele coro que ecoava pelo Autódromo de Interlagos. E sobre isso, volto ao início do texto. O show do Arcade Fire é um show que ecoa. Os flashes, as músicas, os momentos, as cores, as luzes, a energia, a conexão com as músicas. É tudo um amontoado de saudade e um misto de orgulho, admiração por uma banda que mostrou plena maturidade no palco, do começo ao fim. Se não existe tradução de “saudade” para o inglês, que todos associem então esse termo desconhecido às letras dessas músicas.

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Autor:

Largadora por vocação. Largou faculdades, o primeiro namorado e o interior. Hoje só quer saber de arte, cinema, música, fotografia e sair correndo pelo mundo.