Duran Duran: Modernidade é Posto

Banda inglesa ainda soa atual e vai provar no palco do festival

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Como se diz na Internet, invejosos dirão tratar-se de uma banda velha ao verem a escalação de Duran Duran para a próxima edição do Lollapalooza Brasil. O vetereno grupo de Birminghan estará mais uma vez entre nós, mostrando para gente de todas as idades como é que se faz essa coisa de subir num palco, soar atual ao longo dos últimos 35 anos, sempre capaz de surpreender seu público habitual e, durante o processo, cativar novos admiradores. Não é exagero, é constatação pura e simples. Duran tem vários elementos necessários para ostentar um sucesso perene, mesmo que tenha pisado na bola em vários momentos de sua vitoriosa carreira.

Para permanecer tanto tempo relevante, enfrentar modismos e sobreviver à desagregação do modelo de negócio da indústria musical, os rapazes possuem alguns elementos importantes. Em primeiro lugar, está a capacidade de Simon Le Bon em encantar uma plateia. Além de bonitão e bom cantor, Le Bon tem carisma e envelheceu bem. A mulherada, que tinha o poster da banda no seu quarto durante os anos 1980/90, o idolatra até hoje. Com o tempo, Simon soube manter-se discreto e valorizar o legado de sua banda. Mais que isso: como bom compositor que é, não deixou de escrever boas canções, mantendo a qualidade dos discos. Além da presença de um bom entertainer, seria preciso o mínimo de bons músicos. O bonitão John Taylor, baixista e galã, sabe palhetar as quatro cordas, está desde o início do grupo. Outro Taylor antigo é o baterista Roger, que também assegura uma capacidade extra de propulsionar canções rápidas e sutileza para conduzir baladas.

Um repertório excelente é outra característica das bandas e artistas que sobrevivem ao tempo. Duran Duran tem, por baixo, umas 20 canções memoráveis. São hits longevos como Save A Prayer, The Reflex, A View To A Kill, Notorious, A Matter Of Feeling, vários deles oriundos de colaborações com figurões do quilate de Nile Rodgers, que produziu o grupo e colaborou com eles em vários momentos e, mais recentemente, Timbaland e Mark Ronson, que assina álbuns ótimos como All You Need Is Now (2011) e Paper Gods (2015), o que mostra a capacidade de renovação e extrema sintonia com a modernidade que a banda possui.

Fechando os requisitos para ultrapassar as barreiras do esquecimento e do tempo, Duran Duran tem outros dois trunfos: a presença de um discreto gênio em suas fileiras, a saber, o tecladista excêntrico Nick Rhodes, responsável por riffs tecladeiros memoráveis, produções subterrâneas essenciais e por fornecer uma aura de urgência aos arranjos da banda, que sempre soaram contemporâneos. Só por assinar a concepção sonora de colossos como Save A Prayer ou Hungry Like The Wolf, Rhodes já merece uma estátua. O estilo musical que o grupo professa, a saber o New Romantic, ganhou, justamente com Duran Duran, a sua variante mais acessível. Incorporando a veia artística de um Roxy Music, o futurismo retrô de Kraftwerk e a teatralidade de David Bowie, o grupo deu partida em sua vitoriosa trajetória, agradando a muitas pessoas de muitas procedências. Logo depois que ganharam corpo, os sujeitos ainda enfiaram gostos pessoais na mistura, especialmente o Funk setentista americano, com Chic à frente, cujo guitarrista e mente pensante era, justamente, Nile Rodgers, que, vejam só, assinou Let’s Dance, álbum de 1983, de, ora ora, Bowie. Não há coincidências, já diria Jung, envergando um cartaz com a cara de Simon Le Bon. Pensando bem, esta última hipótese talvez não seja verdadeira…

O que você precisa saber, seja uma ex-durannie dos anos 1980, seja uma nova criatura musical do milênio, é que o grupo inglês é incapaz de oferecer menos que um show ótimo. Os caras têm repertório, carisma, tudo o que este texto afirma que possuem. Já foram uma das maiores bandas do planeta há alguns anos e isso não se conseguia apenas com rostinho bonito. Como se não bastasse, já quase esquecia de mencionar o absoluto domínio que Duran Duran possui da arte do videoclipe. Várias produções suas expandiram as fronteiras dos filminhos, basta acessar a Internet e confirmar.

Uma enquete rápida entre integrantes de atrações badaladas como The Strokes, The Weeknd, Tegan And Sara ou Tove Lo elegerá os durannies como um respeitável combo de mestres. Aceitem.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.