Jornalismo Online É Coisa Séria

Um dos temas mais fortes no evento deste ano é a discussão sobre o futuro do conteúdo jornalístico na Internet

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Parece óbvio para muitos que como eu consomem quase 100% do conteúdo diário online, seja no computador, tablet, smartphone ou TV, que o Jornalismo Online já esteja consolidado e com tanta credibilidade quanto as mídias mais antigas. Porém, uma série de palestras no SXSW desse ano mostram que mesmo aqui nos EUA, os veículos na Internet ainda enfrentam muitas barreiras, apesar de estarem bastante perto de conseguirem o nível desejado de respeito dos leitores.

A primeira discussão interessante que assisti foi Sources In The Social Media Age, discutindo sobre o que são fontes válidas na era digital e social que vivemos. Mike Isaac, Editor Sênior do All Things Digital, um dos maiores sites de tecnologia dos EUA cita casos de pessoas influentes com uma grande quantidade de seguidores em uma conta do Twitter que ao publicar um rumor, boato ou informação, muitos veículos tomam aquilo como verdade, sem haver necessidade de uma verificação mais profunda das fontes que o levarão a contar aquilo. É interessante refletir o quanto realmente essas fontes tem sido consideradas de credibilidade e por desencargo de consciência, acreditamos que citá-lo como o propagador da informação já o isenta da responsabilidade sobre a veracidade do fato, o que pode ser bastante danoso para o jornalismo a longo prazo, ainda mais hoje, na guerra por visualizações a todo custo.

No nosso meio musical no Brasil, temos vivido bastante esse problema como os boatos sobre shows e festivais no país. Jornalistas ganham fama por algumas informações corretas conseguidas com certa antecedência, acumulam um número considerável de seguidores que checam sua timeline religiosamente a procura de mais alguma confirmação internacional e assim ele atrai a atenção necessária para que os próprios organizadores e produtores dos eventos liberem a informação propositalmente para gerar uma expectativa maior nos fãs, diminuindo bastante a necessidade de gastar dinheiro com comunicação tradicional.

Não é o caso de discutirmos se isso é certo ou errado, esse tipo de coisa sempre existiu, fofocas e boatos são sem dúvida uma das práticas mais antigas de qualquer sociedade. A questão é que a Internet potencializou isso a um nível jamais visto, fazendo com que alguém consiga ter alcance em um país inteiro ou até no mundo, com uma informação sem certeza de credibilidade. Isso cria um hábito difícil de ser revertido no leitor, que considera os veículos que não levam em conta esses boatos, como desinformados.

Edmund Lee, repórter da Bloomberg, ressalta também, outra vantagem da Internet que acabou se tornando negativa no jornalismo online que é a facilidade com que artistas e empresas conseguem se comunicar com a imprensa através de blogs, páginas no Facebook ou contas no Twitter. O que deveria ser algo positivo para que pudéssemos acompanhar mais de perto uma carreira, passar a ser um escudo de muitos para conversar com os veículos e esclarecer questões importantes para os seus fãs ou consumidores. Hoje, ao lançar um disco, o cantor pode escrever um release bem preparado, um vídeo de apresentação, publicá-lo em seu site e então desaparecer e evitar qualquer tipo de contato com a imprensa.

Obviamente que neste caso, a culpa também cai em grande parte no jornalismo mal feito, indelicado e desrespeitoso, feito principalmente com artistas de grande circulação. Contudo, a facilidade de criar esse escudo sem parecer arrogante com seu público ficou muito mais fácil e acabou tirando um pouco do fator humano, muitas vezes revelados apenas em boas entrevistas com grandes jornalistas.

Outra discussão bastante interessante que presenciei foi Too Long Didn’t Read: The Future of Indie Longform, que tentava traçar como serão os próximos anos para os produtores de textos longos para a web, cada vez mais valorizados e quebrando o mito de que a Internet é feita apenas para infográficos listas e informações pontuais.

Obviamente que sites como o Buzzfeed e suas intermináveis e incríveis listas, tem se tornado muito populares e no nosso assunto favorito, a música, blogs como o Gorilla Vs. Bear, que publicam apenas faixas e vídeos para apresentar uma banda, também ganharam sua credibilidade. A questão é que existem diferentes tipos de usuários e ocasiões de leitura, onde muitas vezes o que se procura é um bom artigo analisando algum assunto mais a fundo, ou boas resenhas sobre um disco e não apenas parágrafos curtos apoiados em uma nota que não diz muita coisa. É esse tipo de texto que tanto apoiamos aqui no Monkeybuzz, inclusive com nossa seção Leituras Da Semana. Grandes reportagens na revista Rolling Stone e belas resenhas no Pitchfork ajudaram a formar o gosto musical da maioria de nós na redação, então por que isso deveria parar e deixar de ser importante na formação das próximas gerações?

O que pude tirar de lição de tudo isso e de diversos outros painéis que assisti sobre experiência do usuário em sites de conteúdo jornalístico, é que aqui nos Estados Unidos, a cultura da população já mudou consideravelmente com relação à credibilidade do digital. Veículos nativos digitais já chegam a ultrapassar a mídia impressa e a televisão em quase todas as áreas de interesse como música, tecnologia, literatura, esportes, política e até economia. O que parece ser a grande barreira por aqui, ainda é o dinheiro, que possibilita a produção de um conteúdo cada vez mais completo.

Já no Brasil, realmente parecemos ainda estar há muitos anos de conseguir um nível semelhante de percepção de credibilidade em veículos digitais, tendo em vista a força da televisão em nosso país, a falta de acesso a Internet por grande parte do país e com os sites mais visitados sendo divisões de outras mídias como a Globo.com e no caso da música, o próprio Portal MTV. Iniciativas totalmente digitais tem surgido, mas ainda não chegam com tanta frequência a pautar a mídia antiga como acontece em outros países. Acompanhar a maneira com que as coisas acontecem por aqui, é motivador, é como poder assistir o futuro do jornalismo no Brasil, mas ao mesmo tempo triste por vermos o quanto ainda estamos longe e o quanto nossa cultura parece menos aberta a um tipo de mudança tão profunda.

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MARCADORES: SXSW 2013

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.