Kurt Vile Salva Noite Morna com St. Vincent, Perfect Pussy e Mais

Festa da NPR trouxe alguns dos grandes nomes do ano, mas quem emocionou mais foi o jovem guitarrista

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O segundo dia de música no SXSW 2014 ainda não conseguiu mostrar todo o potencial do festival. Mas isso é normal, as festas diurnas começam mesmo hoje, quinta-feira, e é aí que o evento mostra por que é único no mundo. O número de shows por dia deve aumentar de cinco, seis para 14, 15. Para quem está apenas curtindo, é tudo uma maravilha, mas para quem está aqui a trabalho, cansado, tendo que fazer uma cobertura completa, é ainda melhor.

NPR Music Showcase

Hoje foi dia do show com a tradicional curadoria da rádio americana NPR. Todo ano, eles montam uma super festa no Stubb’s Bar-B-Q, o mesmo lugar onde assisti ao Aloe Blacc no dia anterior.

A festa da NPR costuma sempre trazer alguns dos maiores nomes do festival todo, sempre conseguindo escolher a dedo os melhores dentre os mais hypados artistas nesse início de ano. Em 2013 vimos Nick Cave and The Bad Seeds, Yeah Yeah Yeahs e Alt-J. O peso dos nomes diminuíram um pouco, mas nada que tenha comprometido a importância do evento.

Quem vier ao SXSW, não pode deixar passar este showcase. Muito provavelmente, são estes os shows que vocês vão ouvir falar no resto do ano ou assistir trechos quando assistirem a alguma matéria sobre o festival.

Muita atitude com a hypada Perfect Pussy

É uma mania da indústria da música e dos próprios fãs elegerem substitutos para bandas que foram muito faladas no ano anterior. Em 2013, Savages – que estará presente no Lollapalooza Brasil 2014 – foi a grande hype para os fãs que curtem uma grande influência do Punk Rock na música. Neste ano, o “novo Savages”, pelo menos em número de comentários na rua, tamanho das filas e quantidade de shows feitos, é Perfect Pussy.

Vocês já devem conhecê-los, pois foram protagonistas de nossa seção semanal Ouça:Bandas há algumas semanas. A banda tem claras influências do Punk Rock e do Hardcore, faz um som bem brutal, mas que não tira o caráter emocional da música. E, neste caso, é fácil perceber algo muito legal. O falatório é justificado, pois a banda faz um belíssimo show.

Era nítido o nervosismo dos músicos e principalmente de Meredith Graves, vocalista e compositora da banda. Eles se entregam completamente no palco, tocam como se fosse o último dia da vida deles, parece que cada integrante responde fisicamente aos estímulos da própria música que toca. Isso a princípio pode puxar a atenção do espectador apenas para a atitude deles, mas, conforme o tempo passa e nos acostumamos com a forma crua que tocam, traços de uma melodia mais delicada, um sintetizador, um acorde diferente na guitarra vão surgindo em meio ao caos sonoro, como se fosse a parte delicada de cada um deles tentando se sobrepor a toda aquela angústia.

Aliás, é dessa forma, com os sintetizadores e alguns elementos do Indie Rock, que a banda consegue dar uma cara bem mais contemporânea ao som, um toque de experimentação que deixa toda a experiência mais bonita.

Mais um nome conhecido de nosso Ouça: Bandas: Eagulls

Em seguida, foi a vez de Eagulls subir ao palco, mais uma banda que apareceu em nossa seção dedicada a apresentar as novidades da música. Aliás, faria muito sentido trocar o nome do evento para “Monkeybuzz Showcase” se levarmos em conta todas as atrações do dia. Ficaríamos muito satisfeitos.

Os jovens ingleses fazem um show bastante linear, tecnicamente impecável, soando exatamente como no disco, com a potência vocal de George Mitchells dando um ar mais depressivo ao som jovem da banda. Ele traz aquele grave meio Joy Division para uma melodia meio Dinosaur Jr., combinação que fica extremamente interessante.

Infelizmente, essa linearidade acaba por tornar o show um pouco maçante após algumas músicas, sendo difícil de destacar pontos altos, mas uma banda perfeita para compor um bom line up de festival.

Kelis traz para Austin o melhor do R&B, mas esquece sua personalidade

Em seguida, entrou talvez o nome menos coerente da noite, a ótima Kelis, artista importante do R&B, mas que fez um show grandioso, mas totalmente fora de contexto, resultando em uma apresentação chata e sem personalidade do começo ao fim.

A cantora entrou no palco com cerca de dez companheiros de banda, entre instrumentistas de sopro, backing vocals e outros. Toda essa grandiosidade em um festival como o SXSW soou muito artificial, sem muita personalidade por parte da americana, que tocou diversos covers e não mostrou todo o seu potencial de voz, fácil de perceber nas versões de estúdio, mas que não estava lá na noite de ontem.

O bom e performático show de St. Vincent

O principal nome da noite era Annie Clark e seu projeto St. Vincent. Dona de um dos melhores e mais comentados álbuns do ano até o momento, a guitarrista conseguiu tirar o foco de Damon Albarn, que entraria em seguida e era, teoricamente, o headliner da noite.

A carismática St. Vincent fez uma apresentação bastante performática, dançando de forma esquisita, e rastejando entre os móveis do palco entre cada música, tudo isso com seu novo penteado que não passa despercebido.

Uma das coisas mais legais do SXSW é o fato das bandas poderem tocar apenas músicas de seus trabalhos mais recentes e ninguém reclamar. Imagino que deva ser um bom mercado teste para novas criações e foi isso que Clark optou por fazer.

Trazendo destaques como Rattlesnake, Digital Witness, I Prefer Your Love e Prince Johnny, a musicista fez um show preciso e belo, mas dentro do esperado e não chegou a surpreender muito. Como primeiro show que vi do projeto, não esperava que St. Vincent desse um foco tão grande para a guitarra. A musicista não a desgrudou do corpo em nenhum momento e executou alguns belíssimos solos.

Algumas músicas de trabalhos anteriores também estavam presentes, consigo me lembrar especificamente de Cruel e de Marrow, mas o foco era mesmo seu álbum homônimo.

Apesar de ótimo, tecnicamente perfeito e todo o carisma da cantora, eu confesso que, como fã, saí um pouco decepcionado, achei que o caráter performático, interpretando e contando histórias entre as canções agregaram ao clima geral do show no início, mas depois de um tempo tornaram-se cansativos e dariam um bom espaço para mais músicas. Mas isso não estraga de forma alguma o talento e a qualidade de St. Vincent, um dos nomes mais criativos da música atual em minha humilde opinião.

Kurt Vile salvando a noite com show emocionante

Uma dica para a sua vida: nunca subestime um show do jovem Kurt Vile. Esta foi minha segunda vez, a primeira foi no Cine Joia, na abertura de uma apresentação de Thurston Moore.

Fim de noite, eu estava um pouco triste pois, apesar de todos os ótimos shows que vi, nenhum havia me deixado boquiaberto como na noite anterior. Por isso, resolvi adiar minha noite de sono e dar uma olhada no Cheer Up Charlies (outro local que sempre tem bons shows), onde sabia que Kurt Vile estaria tocando, para ver se a fila estaria num tamanho humanamente aceitável.

Tudo estava na mais perfeita paz, então não pensei duas vezes e entrei em cima da hora, enquanto checavam meu crachá, já conseguia ouvir a voz bem particular de Kurt no fundo do bar, então corri para lá.

Kurt estava sentado, apenas com seu violão e um microfone e isso era o bastante para hipnotizar dezenas de privilegiados presentes. Ele sempre passa uma sensação de independência muito grande, do tipo “eu toco o que quero, na hora que quero”, então já era esperado ouvir coisas de toda a sua carreira, deixando hits como Baby’s Arms e Wakin On A Pretty Day de fora, mas de forma alguma isso atrapalhou a emocionante apresentação. É música para fechar os olhos e ficar feliz por estar ali.

Ao sair, me deparei com a grande tragédia da noite. Um carro tentando escapar de uma batida policial atropelou dezenas de pedestres que esperavam na fila do Mohawk, para ver Tyler, The Creator. Havia muitas ambulâncias e carros de polícia no local e todos estavam bastante chocados com o ocorrido. Torcemos muito para que os feridos se recuperem e que uma cena triste como aquela, não se repita em um evento do bem como este.

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Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.