Nine Inch Nails – Mistura Sombria entre o Eletrônico e o Orgânico

Ótima apresentação mudou o clima do palco Ônix e mostrou por que este é um dos grupos mais plurais e importantes da música alternativa

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A escolha do horário de apresentação do grupo Nine Inch Nails, 19:55, não foi feita ao acaso. Ao modificar totalmente a atmosfera ensolarada que tinha passado pelo palco Ônix naquela tarde, principalmente por um enérgico Cage The Elephant antes do espaço se tornar um vale sombrio, o grupo liderado por Trent Reznor acabou conquistando o público à sua maneira, em um concerto dividido entre momentos pesados de Rock e lisérgicos de música Eletrônica. A sensação ao longo de uma hora e meia foi a de um show íntimo e tenso, como se o volume mais baixo em alguns momentos fosse o acompanhante ideal para algum filme do diretor e amigo do vocalista David Fincher.

Em sua segunda passagem pelo Brasil, desta vez com um circo reduzido – quatro músicos ao invés dos usuais diversos instrumentistas – NIN não deixaria para trás a intensidade e ocuparia todos os espaços do palco com uma apresentação explosiva. Cenograficamente, um jogo de luzes conduzia a passagem de músicas e ajudava a criar uma atmosfera intimista e pesada, algo que certamente todos os fãs esperavam e não ficaram decepcionados. O público do festival que foi escutar o grupo pela primeira vez talvez tenha ficado um pouco assustado com a aura que pairava ali, mas inevitavelmente era isso que Reznor desejava.

O vocalista, sempre alternando entre momentos de transe e frenesi, conduziu o show de forma dominadora: sua figura representava tudo o que o grupo desejava passar: Ferocidade. Sem se concentrar em nenhum disco, o concerto favoreceu os hits do grupo e algumas faixas conhecidas dentro de sua discografia por seus fãs. Wish, do famoso EP Broken, abriria uma apresentação plural e Downward Spiral, que já completou 20 anos, apareceu em poucas faixas, mas conseguiu sintetizar o que é Nine Inch Nails. Por exemplo, na sequência March of Pigs e Piggy – a primeira destruidora, intensa e com Reznor olhando nos olhos do público como um cão raivoso, e a segunda extremamente sexual e eletrônica, uma dualidade presente durante toda a sua carreira.

O mais recente disco do grupo, Hesitation Marks, foi lembrado de forma surpreendente com a escolha da sequência de Disappointed e All Time Low (essa última com um trecho da famosíssima Closer, só para deixar os ouvidos do público aguçados). Momentos mais eletrônicos deixaram os presentes, de certa forma, paralisados com a hipnose sinestésica provocada pelo jogo de luz e som criado ao vivo. Foi interessante quando, no último quarto do show, tivemos a chance de ver ao vivo Hand Covers Bruises, faixa da trilha sonora de A Rede Social que premou Ranzor com um Oscar em seu currículo. Levando a uma sequência que passaria de novo pelo último álbum, Beside You in Time, depois The Hand That Feeds (clássico que fez todos pularem exaustivamente e baterem cabeça, carro chefe da única turnê que a banda tinha feito por aqui) e Head Like a Hole, faixa de abertura do primeiro registro, Pretty Hate Machine – tudo parecia perfeito.

No entanto, sem desapontar o público com seu espetáculo sombrio, Nine Inch Nails ainda finalizaria o seu concerto e as atividades do palco Ônix no sábado com provavelmente a faixa mais famosa de sua carreira, Hurt. Imortalizada em um dos derradeiros trabalhos de Johnny Cash, a canção ultrapassou a própria criação de Reznor ao ser mais conhecida na voz do prisioneiro de Folson. Mas escutá-la ao vivo, com o modo rasgado, emotivo e sensual de Trent proferir os versos sobre dor e lamento, finalizaria a apresentação de forma magistral, a cereja no bolo para todos os que não hesitavam em sair dali para ver os shows de Muse, Disclosure ou Kid Cudi. Ao final, temos a certeza de que só o grupo consegue se apresentar de forma tão plural ao passar do Rock Industrial ao Eletrônico mantendo sempre o mesmo espirito tenso, íntimo e verdadeiro de um vocalista que não se preocupa em ser raivoso ou melancólico quando deve.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.