Royal Blood Vem Aí

Dupla britânica une influências do passado e abordagem contemporânea

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Se há uma banda em alta no combalido e esvaziado cenário Rock, esta é a inglesa Royal Blood. O duo de Brighton vem surfando na onda da formação roqueira otimizada para tempos neoliberais, na qual é necessário apenas um baixista que saiba usar timbres interessantes e inteligentes (e que cante também) e um baterista com firmeza suficiente para segurar a onda em canções curtas, com apelo Pop e boas sacadas. Estas duas posições são ocupadas por Mike Kerr e Ben Thatcher, que retornam ao país para mais shows, desta vez no Lollapalooza Brasil 2018, subindo ao palco no dia 23 de março. É bem verdade que a dupla estará presente numa Lolla Party, que terá lugar na véspera, mais precisamente no Cine Joia, sem falar que, no dia 21 de março, os sujeitos abrirão o show de Pearl Jam no Maracanã, ou seja, serão três dias intensos para Ben e Mike.

Monkeybuzz já resenhou os dois discos lançados pela banda, a saber, o homônimo, de 2014 e o mais recente, How Did We Get So Dark?, do ano passado. São 20 músicas gravadas em pouco menos de cinco anos de carreira, mostrando que as coisas acontecem rápido para Royal Blood, que iniciaram atividades ao longo de 2013. Seu som é correto, ainda que o formato já não seja novidadeiro o suficiente. Como compositores, são regulares e têm certa manha para entregar canções com ganchos Pop na melhor tradição setentista de Rock’n’Blues derivado de Led Zeppelin e várias bandas britânicas daquele tempo, além de uma dose mínima de espírito Punk noventista. O resultado soa como se Muse fosse proibido de usar firulas líricas e eletrônicas, voltando a soar como se fosse uma banda de garagem. A comparação procede e tem eficácia para apresentar o som do duo a novos ouvidos.

Royal Blood debutou em terras brasileiras no Rock In Rio de 2015. Ali, em pouco menos de uma hora e com apenas um disco no currículo, segurou a onda numa “noite pesada” do festival, entretendo fãs de bandas embotadas como Metallica. Não fez feio e deixou curiosidade suficiente no ar para que novos e novíssimos fãs fossem convertidos. Com a chegada do disco mais recente, a fórmula de exercícios e flexibilizações do modelão setentista encolhido voltou com força e sucesso. A audição é fluida, com as canções em sucessão coerente de refrãos gritados com andamentos suingados. Ainda que soe repetitivo depois de algum tempo, dá pra notar que há algo legal por aqui. Detalhes com vocais de apoio aqui e ali, timbres legais de guitarra suja que saem do baixo de Mike e Ben com razoável noção de depredação musical muscular. Funciona.

Dando uma olhada no Spotify, é possível ver singles e sessões especiais que a dupla fez nos estúdios de Abbey Road. Lá, oculta e discreta, está uma bela cover de My Sharona, do grupo americano The Knack, gravada em 1979 e um sucesso impressionante daquela época. Com competência e ataque suficientes, Ben e Mike tomaram conta da canção e a interpretam com respeito notável por dois minutos e meio, mostrando que sabem o que estão fazendo. Não por acaso, quando venceram o Brit Awards de 2015, receberam o troféu das mãos de um admirador de peso: Jimmy Page, o guitarrista e cérebro daquela banda do zepelim de chumbo, mencionada acima.

Não será problema para a dupla ganhar a plateia do Lolla. Com quilometragem que aumenta a olhos vistos, logo este crescimento será refletivo em novos álbuns e performances. Não será surpresa nenhuma se os sujeitos colocaram grande parte do festival no bolso.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.