Sábado no Palco Perry: Início Intimista para um Desfecho Morno

Primeiro dia foi marcado por timidez por parte do público e falta de ousadia de alguns produtores

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Foram doze horas de música. Dessa vez estrategicamente pensado, o Palco Perry, comumente chamado de “tenda eletrônica”, ficava entre dois palcos (e atrás do Chef’s Stage), o que estimulou ainda mais a quantidade de curiosos para o local. Foram 22 horas de música no total divididas entre dois dias de festival, com nomes fortíssimos da cena espalhados pelo mundo. O projeto trouxe uma tenda redonda ao Perry, ajudando bastante a acústica dos shows, mas aqueles que se deslumbraram com os telões espalhados de 2013 se frustraram com a carência de elementos deste ano. Um jogo básico de luzes ajudou a dar vida, mas não trouxe a sinestesia da edição anterior. A impressão que dava era que os investimentos pararam entre os palcos Skol, Onix e Interlagos.

Flume

Eu lembro quando cheguei no Palco Perry ano passado. Dava pra perceber que ali era um lugar de música Eletrônica sem ao menos entrar na tenda. O forte bumbo do Electrohouse audível a metros de distância aproximava o Brasil do que mais está em voga lá fora, e deu muito certo. Às 16h45, o clima era diferente. Ninguém ali queria simplesmente ser entretido por um DJ. Era nítido que ali estavam fãs de Flume, amantes do Chillwave e Experimental que tirou o australiano do anonimato. Consegui confirmar isso quando o produtor subiu na cabine e foi vítima de problemas técnicos no som. O público chamava atenção da produção junto e em voz alta. Foi questão de segundos, mas precioso tempo que perdemos da abertura de Baauer fazendo live na bateria sintetizadora em More Than You Though.

“É minha primeira vez aqui. Vou tocar algumas coisas antigas e outras novas”. E assim foi. Os destaques vieram com On Top, Change, Insane, Space Cadet, mas nada bateu a delicadeza de You And Me. No single, o telão que trazia um casal na iminência do beijo mesclava perfeitamente com o refrão da faixa. A emoção do público contagiou tanto o lugar que o próprio produtor em um dos intervalos disse não ter ideia que seria recebido dessa forma. Vindo de produções tão delicadas, era de se esperar um cuidado especial com a escolha das projeções nos telões. Tudo era tão leve (e assimétrico) como as faixas.

A hora que tivemos perto de Flume deu pra perceber que tem material de qualidade a caminho. Usou e pista para testar um remix para Tennis Court, de Lorde, que se apresentaria no mesmo dia, e foi aprovado. Aliás, não só a faixa, mas a ideia de que não só de sons enérgicos e barulhentos que se sustenta uma tenda. Sem dúvidas alguma: Flume foi a melhor apresentação do sábado.

Wolfgang Garner

Pontual, o macaco velho do Electrohouse deu uma outra cara ao Palco. Sem pensar muito em esquentar pista, já chegou com buzinas do Dutch, incendiando a pista que ia se enchendo aos poucos. E, dessa forma, a timidez foi indo embora. Wolfgang Gartner arrancou coros do público com um set sem tempo para respirar. Progressão em cima de progressão, o DJ manteve uma apresentação fluída destacando seus maiores sucessos de Weekend.

Diferente de Flume, Gartner fez questão de mostrar sua habilidade com as CDJs. Muita técnica de mixagem e sem headphones, o produtor conseguia desacelerar o 128 para uma acapella de BPM baixo no Hip Hop e logo retomar numa progressão no Dutch, sem dificuldade alguma. Poucos momentos foram tão memoráveis quanto os alarmes de Nuke. Wolfgang preferiu não interagir com o público, mas o barulho falava por si só.

Flux Pavilion

Sem brincadeira, o produtor novato e já consagrado iniciou seu set com seus maiores singles. Depois de I Cant Stop e Bass Canon, Flux Pavilion não demorou pra sair do Dubstep e cair no Drum’n’Bass. Me lembrou muito o que sua grande influência, Rusko, fez no ano passado, com êxito. O público, entretanto, estava frio.

Em uma injusta concorrência, Flux Pavilion pegou uma tenda morna dividida entre Lorde e Phoenix. Talvez por esse motivo que o DJ tenha optado por comercializar seu som do meio para o fim. Saiu do industrial e da parafernália do DnB para permear em remixes de produtores queridos pelo público EDM. Knife Party e Major Lazer foram alguns deles. E daí não voltou mais. Flux Pavilion se perdeu e seu som quente (até ao ponto de ter um ventilador virado para o rosto do DJ) transformou-se em cinzas na pior apresentação do festival.

O primeiro dia foi marcado por timidez por parte do público e falta de ousadia de alguns produtores. As atrações do Palco Perry não foram suficientes para despertar a presença de público notável. Durante a maioria das atrações, a tenda ficou relativamente vazia, o que deu ainda mais um caráter intimista para o sábado, dia que distanciou daqueles gêneros que tanto movimentaram o Perry em 2013. O interessante é que, mesmo usando isso como ponto negativo fez com que o local tivesse somente aqueles que se interessavam pelo trabalho dos artistas.

Elekfantz, duo apadrinhado pelo selo de Gui Boratto, e Digitaria abriram bem a pista para os gringos, pena que esses subestimaram a audiência do próprio festival. Faltou ousadia da curadoria de fazer um sábado completamente diferente do domingo, forçar nos gêneros experimentais ou vanguardistas (seja no UK Garage ou no Techno, que está em alta) e deixar o EDM para o domingo. O sábado não estava ali pelo Electrohouse, não em 2014.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King