Soundgarden – O Último Grunge

Aguardada apresentação da banda de Chris Cornell foi eficiente e agradou todos os fãs do gênero

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Das grandes bandas de Grunge dos anos 1990, Soundgarden foi a última a se apresentar no Brasil. Pearl Jam, Alice in Chains e Nirvana – em um dos seus shows mais famosos na sua carreira – já haviam emocionados os fãs do gênero, que encontrou no país na década de 1990 um celeiro para sua efervescência. Tal demora foi sempre citada na noite de 6 de Abril por seu vocalista, Chris Cornell, com pedidos de desculpa: “demoramos muito” e o resultado final do esperado encontro foi uma belíssima noite em que a tanto tempo valeu a pena em uma verdadeira homenagem aos presentes.

Esse presente se deu através de um show concentrado em álbum chave em sua discografia, Superunknown, que completa 20 anos em 2014 e que contém grande parte dos sucessos do Soundgarden. O palco Ônix, distante localização dentro do Lollapalooza Brasil, não poderia ser mais adequado com seu formato de vale e convite a uma audiência mais agitada perto do palco. Ali, a cada música, percebíamos um público mais velho e maduro viajar no tempo, se emocionar e vibrar. A abertura com Searching With My Good Eye Closed foi um convite à introspecção explosiva que Chris Cornell sabe fazer muito bem, enquanto a sequência com um de seus momentos mais famosos, Spoonman, abriria o sorriso e impulsionaria todos a pularem freneticamente.

Evidentemente, o vocalista não é mais o mesmo, seja pela sua aparência já bastante desgastada após algumas décadas dedicadas à música em diferentes projetos, ou mesmo pela voz. Cornell demonstrou uma certa dificuldade em manter os seus usuais agudos e era auxiliado por efeitos de eco que davam a sustentação necessária em seu show. No entanto, todos os presentes pareciam não ligar muito para estes percalços e se conectavam plenamente com a banda – como na belíssima sequência de Outshined e Black Hole Sun, faixas importantíssimas e cantadas a plenos pulmões por todos. Uma homenagem ao público brasileiro com Jesus Christ Pose que, nas palavras de Chris, havia sido ensaiada justamente para a turnê que passaria por terras tupiniquins, daria ainda mais impacto ao – até então- único show feito aqui.

Superunknown foi relembrado não só por Spoonman e Black Hole Sun, mas também pela faixa título do disco, além de My Wave, The Day I Tried to Live e Fell on Black Days já no fim do show, um dos momentos mais emocionantes da apresentação. Logo, mais de um terço do concerto seria dedicado ao seu trabalho mais famoso, algo que qualquer um ma plateia recebia como uma benção. Se o último disco do grupo, King Animal, não é dos melhores em toda a sua discografia, Been Away Too Long combinou muito bem com a demora para finalmente tocar no Brasil, soando sincera do começo ao fim. O telão, artisticamente branco e preto, auxiliava o clima da noite, que já havia caído e se iluminava ainda mais pela Lua crescente no horizonte, a atmosfera propícia para um encontro tão esperado.

Ao finalizar o show com Beyond the Wheel, música de seu primeiro disco, Ultramega OK (1988), percebíamos que estar finalmente tocando para um público amante de seu som era uma realização pessoal a um cansado Chris Cornell. O frontman, mesmo com poucas palavras sendo ditas, um resquício do laconismo e subversão que abraçavam o clima destas bandas de Seattle, realizou uma apresentação de headliner. Mesmo ficando abaixo de Arcade Fire e New Order no cartaz do festival, mostrou que a sua presença ali mobilizou uma série de pessoas que se abraçavam e curtiam aquele momento com a típica vestimenta de um fã: camiseta de banda e/ou camisa de flanela. Agora, com o ciclo de bandas Grunge encerrado, podemos considerar que aqueles que cresceram com o gênero em um momento de transição e descobertas no Brasil – anos 1990 e sua recente democracia – podem se dar por satisfeitos, pois todos que passaram por aqui seguiram muito bem a cartilha do estilo: muita emoção, sinceridade na voz e ferocidade instrumental, algo que dificilmente alguém não se emocione vendo ao vivo. Soundgarden manteve-se ao histórico, para a felicidade de todos naquela noite.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.