St. Vincent: A Nova Camaleoa da Música

Cantora está em uma nova fase artística e promete um dos espetáculos imperdíveis do Lollapalooza Brasil 2015

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28 de março | 17h – 18h | Palco Axe

David Byrne explicou em seu livro Como Funciona a Música (2012) diversos pontos sobre a sua carreira artística e a evolução do seu famoso grupo, Talking Heads. Uma leitura atenta mostra como o famoso cantor sempre pensou que música e espetáculo poderiam caminhar juntos, fugindo assim das mesmices dos shows de arena famosos na década de 1970. As explosivas apresentações do grupo norte-americano não só tinham músicos e bandas convidadas, mas também performances, dança e um cuidado estético em vestimentas para uniformizar a experiência do espectador. “E por que você está se referindo a ele e não a St. Vincent?”, deve estar perguntando o nosso leitor. Calma, tudo faz sentido.

Antes que você se esqueça, St. Vincent é o nome artístico de Annie Clarke, uma cantora e compositora multifacetada que vem nos trazendo trabalhos originais e complexos desde 2007. Neste curto período de oito anos, Annie se transformou. Passou de um Folk Freak com letras tristes e relacionadas a términos de relacionamentos em Marry Me para ganhar poder em seu Rock artístico de St. Vincent, um dos melhores discos de 2014. Além de sua vontade de experimentação, algo que sempre apareceu em sua carreira musical, o que aconteceu para que esta transformação ganhasse o mundo e, consequentemente, o Lollapalooza Brasil? Uma simples resposta, David Byrne.

Love This Giant, disco feito em parceria entre Annie e David, transformou a já excentricidade intrínseca de ambos em aprendizado. Enquanto Byrne criou um dos discos mais criativos de sua extensa carreira, St. Vincent foi com certeza deslumbrada pelo lendário músico como uma de suas sucessoras espirituais, e a consequência disso tudo culminou na elogiada última obra da cantora. Cabelos tingidos de branco e vestimentas escuras uniformizadas pela sua banda de apoio, além de uma performance muito mais artística e bem pensada, fazem de seu concerto um dos mais esperados de todo o evento.

Assistir ao seu show, como já vimos no Primavera Sound do ano passado, é uma experiência única e nostálgica. Se os olhares estarão atentos a Pharrell e o seu espetáculo que o consolida como um verdadeiro Pop star, Annie Clarke distorce tal conceito e o traz muito mais perto da música experimental e o do que Talking Heads fez. A aúrea frágil e sentimental que acompanhava a música notoriamente melancólica de seus trabalhos se transformou em poder e St. Vincent se tornou uma musa. Paralisa e hipnotiza o público com coreografias, jogos de luz e a capacidade de fazer tudo isso ao vivo, tocando diversos instrumentos e permanecendo longe do playback.

O cuidado estético gigantesco e a clara ruptura de sua carreira musical após a parceria com Byrne fizeram com que ela criasse uma nova identidade, a camaleoa musical como outro David, Bowie, se tornou ao longo de sua carreira, e é por isso que a sua apresentação no próximo Lollapalooza brasileiro deve ser vista de perto: representa a imagem que St. Vincent criou em seu último disco e provavelmente mudará em seu próximo trabalho. Logo, esse espetáculo será praticamente único, pois, da próxima vez que a encontrarmos, suas cores e atmosfera já não serão mais as mesmas.

A nossa única certeza é que a cantora provavelmente ganhará novos fãs após as suas apresentações pelo Brasil no Lollapalooza e em seus side shows em outras capitais. St. Vincent é o mais perto que chegaremos de um diva moderna no festival e de um espetáculo que se preocupa muito com a aparência para, na verdade, chamar atenção do que realmente conta: sua excelente expressão musical, mutante e excêntrica, algo que somente Annie pode nos mostrar. Um concerto imperdível, poderoso e que não deve ser perdido de forma alguma, seja você um fã de longa data ou alguém que quer realmente sair surpreendido desta edição do evento.

Lolla

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.