1 ano de Yearbook of Techno

Há muito, muito tempo, em dezembro de 2019…

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Fotos: Eduardo Urzedo/Monkeybuzz

Há exato um ano, aqui no Monkeybuzz, fechávamos a série Yearbook Of Techno – e parece muito mais. 2020 transformou tudo: a forma com que pensamos, nos comunicamos, demonstramos saudade, nossas rotinas e, claro, como criamos força e suporte para nos mantermos vivos. Desde que a pandemia mudou nossa forma de ser, muitos planos foram adiados e projetos e artistas se viram tomados por incertezas. Ainda assim, é gratificante perceber como o cenário independente da música eletrônica desenvolveu maneiras de se reinventar, evoluir e (sempre) resistir. No início do distanciamento, as festas online foram uma forma que os produtores e artistas encontraram para continuar com as interações e trocas por meio da música. “Foram super importantes para nos sentirmos conectados de alguma maneira e, para mim, foram fundamentais para a saúde mental, conta Eli Iwasa, uma das alunas dos Yearbook. “Era o que tínhamos de mais próximo a uma festa presencial. As estrelas das festas online eram o DJ e o público. A gente se sentia parte definitiva de tudo que estava acontecendo”.

Para Aun Helden, outro nome contemplado no Yearbook, o embate entre real e digital não representa uma substituição, mas, sim, um complemento, que pode render projetos interessantes.  “Agora que passamos por essa fase de experiência, espero que possamos dar continuidade nesse lugar digital, mas de uma forma que explore essas mídias, longe de querer simular a realidade que já existe”. As festas e estratégias realizadas de forma digital também representaram uma forma de, durante um período tão difícil, gerar alguma receita. “Fiquei muito feliz com festas que tentaram resistir em novos formatos, principalmente para gerar dinheiro para trabalhadores que não tinham nenhuma outra forma de trabalharem, como os seguranças e a equipe de limpeza”.

Outros caminhos da cena independente para passar por essa turbulência tiveram a ver com a monetização e o apoio dos artistas, a partir da geração de conteúdo online de qualidade, aliada ao fortalecimento entre rádios e selos. “O underground sempre esteve à frente. Tem sido extremamente desafiador para todos núcleos e artistes, ainda mais quando não se tem apoio nenhum do governo. Mas espero mesmo que todos consigam seguir fazendo seu trabalho que é tão importante para a cena brasileira”, diz Eli Iwasa. O estreitamento entre diferentes frentes da linha produtiva e artística da música eletrônica parece ser um horizonte a ser alcançado – algo que ficou ainda mais claro em 2020. “Há muitas peças de uma cena independente que vêm de vivências de lugares extremamente diferentes nesse momento pandêmico. Mas que no fim, para resistirem, são como uma máquina de muitas manivelas que só funcionam em um equilíbrio. Será importante entender como todas essas peças estão de saúde, e que todos estejam disponíveis a ajudá-las a se recompor e se organizar a partir dos seus próprios privilégios, para juntos voltarmos à ativa”, aponta Aun Helden.

Coletiva ou individualmente, o momento é de aprendizado e de novas lições. “A quarentena me fez pensadora”, brinca Due, DJ residente da Capslock. “Quando parei de reclamar da vida, consegui enxergar o quanto esse ano poderia render nesse sentido. Longe de mim romantizar a pandemia, porque tô sentindo o baque até agora e longe de ser a pessoa mais afetada com tudo isso, mas eu prefiro encarar assim. É mais sobre o que a gente faz com o que tem, do que o que temos de fato, sabe? Eu sempre digo, como uma flecha precisa ser puxada para trás antes de ser lançada, as dificuldades nos impulsionam mais do que as facilidades”.

O que não faltam são talentos para reinventar a cena e levá-la sempre em frente. E muitos nomes estão aqui, na Escola do Techno – mapeada na série Yearbook Of Techno:

O maior mico que eu já passei em uma festa…

Uma vez eu terminei de tocar e eu fui direto pra pista. Aí um cara chegou em mim e falou: “Laercio, eu adoro o seu trampo”. Ele me cumprimentou com a mão e eu comecei um jogo do dedão. Fiz “um, dois, três, ganhei”, mas ele não tinha o dedão.

[Laercio Schwantes Iorio, paulistano e dono de meio bigode – nasce mais do lado esquerdo]

Se eu fosse dominar o mundo…

Existiria muita comida para todos, não teria espaço para o padrão e a política implementada seria a do amor. Um amor com o próximo real e sem julgamentos.

 

[Valentina Luz, de Mandaguaçu Paraná, viciada em macarrão, cuidados com a pele, maquiagem e moda]

O meu look do baile é…

Um vestido de noiva preto. Uma noiva meio viúva. Bem gótica, com véu e leque. Aí, estaria com os dois boys gays porque claramente teria matado o meu marido hétero, sabe?

[Amanda Viana Mussi, de São Paulo, capital. É canceriana, já foi grafiteira e uma vez escovou os dentes com o fixador de dentadura Corega]

Daqui dez anos, eu…

Gostaria de ter um barco, em Berlim. Eu já andei uma vez lá, mas não no meu próprio barco.

[Paulo Henrique Tessuto da Silva, de São Paulo, estreou na noite na festa Grind]

O clube que eu fundaria na Escola do Techno é…

Uma oficina de experimentação corporal, para que todos possam ter essa liberdade.

 

[Aun Helden, de São Bernardo do Campo, performer e péssima maquiadora]

E vou servir o ponche batizado para…

Acho que daria pra minha avó.

 

[Matheus Barros Dornelas Câmara, Recife, fã da série Lost]

Sou o orgulho da minha família e dos meus amigos, porque…

Sou carismática, bonita, sou cheirosa e sei entrar e sair de qualquer lugar.

 

[Slim Soledad, de Guarulhos, São Paulo, canceriana e viciada em sorvete de passas ao rum]

No meu baile de formatura eu quero entrar com…

A galera do front. Eu quero elas porque são as mais animadas, que fazem a festa realmente acontecer.

 

[Carol Mattos, de Belo Horizonte, Minas Gerais, viciada em Irmão do Jorel]

Se eu pudesse escolher um poder seria…

Ter a capacidade de saber todas as melodias já feitas para eu poder fazer uma completamente nova.

 

[Leonardo Stroka Ceballos, de São Paulo, ex-asmático graças a uma curandeira em Bauru]

Se eu fosse dominar o mundo…

Eu faria uma rave, com festas em todos os lugares, e todo mundo comeria alimentos sem agrotóxicos.

 

[Ana Carolina Schutzer, de São Paulo, adora cozinhar frutos do mar e é uma ótima jogadora de buraco (cartas)]

O clube que eu fundaria na Escola do Techno é o…

Que daria água de coco e fundaria o espacinho do silêncio nas festas. Às vezes você precisa parar um pouquinho.

 

[Florencia Valentina Montalvo Alé, de Santiago, Chile, e grande dançarina de flamenco – estudou o ritmo por 10 anos]

Na Escola do Techno o meu grupo é…

O do front. Sempre foi! Se você quiser me achar em uma festa, eu vou estar lá na frente.

 

[Eliana Sumiko Iwasa, de São Paulo, quando pequena, acampava na porta de hotéis em que estavam hospedadas bandas como Guns N’ Roses e Faith No More]

O maior mico que eu já passei em uma festa foi…

Quando eu tinha uns 15 anos, minha mãe não me deixava sair. Sempre ia pra casa de uma amiga para colar escondido em festas. Uma vez fui na Bunker, que era uma boate antiga do Rio de Janeiro, e ela descobriu. Jurava que estava abalando na pista e aí, de repente, eu olho para o lado e está ela e meu padrasto vestidos de pijama. Enfim, foi um mico, morri de vergonha e eles me levaram embora.

 

[Ananda Vianna Nobre, do Rio de Janeiro e é faixa preta de Jiu-jitsu]

Eu sou o orgulho da minha família e dos meus amigos, porque…

Não sou o orgulho da minha família. Eu sou dos meus amigos, embora eu cague para tudo isso. O melhor e unicamente importante para mim é me tornar o orgulho de mim mesma. Sou dos meus amigos porque eu me tornei constantemente um corpo que propaga possibilidades de existência. Consigo pegar tudo o que me deram e transformar em coletividade.

 

[Rodrag, de Araraquara, apesar de ser alta, calça 39]

Se eu pudesse escolher um poder seria…

Baixar as músicas que eu gosto instantaneamente quando eu as ouço. Seria o poder mais útil para mim, porque procurar música em alta qualidade, baixar, e o que não acha tem que comprar… Ter esse poder seria o máximo.

 

[Patricia Vasconcelos da Silva, de São Paulo, ex-evangélica e já sonhou em ser rainha de Escola de Samba]

Daqui dez anos, eu…

Me imagino mais dentro do estúdio, só, e tocando menos. Morar em um sítio bem tranquilo no Paraná.

 

[Roniere Santos, de Diadema e nasceu sem um osso da costela]

E na entrada do baile eu quero ouvir…

O meu hino, “Máscara” da Pitty. Admirável Chip Novo foi o primeiro CD que comprei na vida e quando ouvi essa música tudo fez sentido pra mim, era o que eu sentia, o que eu queria dizer. Podem achar contraditório pela letra falar ”tira a máscara que cobre o seu rosto”, mas no meu caso, tirei a máscara da heteronormatividade para assumir o meu verdadeiro jeito de ser, através das máscaras que escolhi pra mim mesma, sendo estranha, sendo Transälien.

 

[Ana Giselle aka TRANSÄLIEN, pernambucana, é tímida apesar da aparência e ama ficar sozinha]

Se eu pudesse escolher um poder seria…

A realidade do próprio vampiro que é ser imortal, jovem para sempre e poder voar com as asas de pano de morcego.

 

[Suzana Taleb Haddad, paulistana, estudou cultura Gótica mas é mega cristã, foi para Jerusalém colocar a mão na cruz onde Jesus foi crucificado]

Eu sou o orgulho da minha família e dos meus amigos, porque…

Já superei muitas dificuldades e hoje consigo transmitir para eles a gratidão e o amor pelas pequenas coisas da vida. Dizem que tenho senso de justiça, de equilíbrio, de fazer o bem e deixar algo melhor para as pessoas. E sinto que consigo engajar todos nesse propósito.

 

[Davis Genuino da Silva, da Zona Leste e tem mais amigos do que discos]

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