10 clássicos da Blog Era

Os discos que impactaram a breve (e efervescente) fase de distribuição e descoberta no Rap americano recente

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Fotos: Roger Kisby

Antes de artistas compartilharem de momentos cândidos a detalhes sórdidos de suas vidas em redes sociais, e antes da fórmula de distribuição de música por plataformas de streaming, existiram os blogs. Na transição entre os anos 2000 e a década seguinte, sites como HotNewHipHop, 2DopeBoyz, NahRight e DatPiff eram o principal caminho para um rapper ser descoberto, fidelizar audiência e assinar com uma grande gravadora.

Essa breve época na história do Hip Hop é hoje conhecida como a Blog Era. Se o período foi uma várzea no que se refere à distribuição musical, foi também uma golden era da descoberta de novos sons. Ser independente era o padrão e os blogs exerciam um papel vital de curadoria, decidindo os sons do momento e alavancando carreiras. Compostos por ávidos pesquisadores obcecados por novos talentos, os blogs também encurtavam o caminho entre os rappers e o sucesso, que por sua vez possuíam mais autonomia sem o filtro das gravadoras.

Com equipamentos de gravação cada vez mais acessíveis e a internet fazendo a distribuição musical, a paisagem do Hip Hop americano estava mais democratizada do que nunca. Rappers criavam projetos como se fossem álbuns, mas os promoviam como mixtapes gratuitas. Essa independência de uma grande gravadora (e, portanto, da limpeza de samples) abriu portas para uma liberdade criativa intensa e revelou rappers como Drake, Kendrick Lamar e J. Cole, que, na sequência, comandaram o mainstream do Rap.

O fim da Blog Era nos Estados Unidos é tão nebuloso quanto seu começo, mas o fato é que os blogs perderam sua força entre 2014 e 2015, com o crescimento de redes sociais e a chegada dos algoritmos das plataformas musicais. Para celebrar esse período tão prolífico e único, elencamos aqui 10 projetos que impactaram a Blog Era:

 

MAC MILLER – K.I.D.S. (2010)

Pittsburgh teve alguns titãs na Blog Era, e Mac Miller era um deles. K.I.D.S, um acrônimo para ‘Kickin Incredible Dope Shit’ foi a quarta mixtape do artista e o alavancou para um público imenso. Um clássico do underground com turnê esgotada em 2011 e que no ano em questão fez o nome de Mac Miller ser mais buscado no Google do que de Rick Ross. Mac Miller tinha só 18 anos quando lançou o projeto, que parte de uma perspectiva muito singela sobre amadurecer. Já com seu flow relaxado e cadência vagarosa, o projeto é orientado para o Boom Bap noventista, com samples de Nas e Lord Finesse, flerta com o Funk Rock e tem clássicos como “Nikes On My Feet”, “Kool Aid & Frozen Pizza”. No momento em que este texto é escrito, a mixtape ultrapassa 1 milhão de downloads DatPiff, principal canal em que as músicas eram baixadas durante a Blog Era, tornado K.I.D.S. um projeto de platina.

 

WIZ KHALIFA – KUSH & OJ (2010)

Ao lado de Mac Miller, Wiz Khalifa completa o duo de titãs de Pittsburgh. Kush & OJ foi lançada pelo Twitter do artista através de um link de download gratuito e rapidamente se tornou o blueprint do Stoner Rap. Wiz Khalifa estava em seu auge, e, na mixtape que o estabeleceu como um artista capaz de criar projetos completos, ele compartilha samples até com MF DOOM. Extremamente carismático, Wiz também foi perspicaz e de certa forma pioneiro em unir seu trabalho musical com as redes sociais: no YouTube, a série “DayToday” acompanhava o dia a dia do seu selo Taylor Gang, que basicamente dava rolé para fumar maconha. Essa aproximação foi essencial para fidelizar a base de fãs do artista. Faixas como “Never Been”, “Mesmorized” e “The Statement” são destaques do trampo, que também ultrapassou a marca de 1 milhão de downloads no DatPiff.

 

CURREN$Y & THE ALCHEMIST – COUVERT COUP (2011)

Parceiro recorrente de Wiz Khalifa e outro nome notável do Stoner Rap, Curren$y tem seu nome garantido no Monte Rushmore da Blog Era. O rapper de Nova Orleans foi tão prolífico nesta época que é difícil escolher só um projeto dele. Entre Pilot Talk (2010), Stoned Immaculate (2012), Curren$y achou tempo para uma parceria com o produtor The Alchemist. Com participações de nomes como Prodigy e um Freddie Gibbs de 10 anos atrás, as batidas classudas de The Alchemist tiraram o rapper da lisergia de trabalhos anteriores para se concentrar em temas mais soturnos, o que que resultou em um som bem polido e estimulante, mostrando a capacidade de adaptação do MC. Poderia ter sido lançado nos dias de hoje e teve menos reconhecimento do que o merecido. Também vale a pena visitar How Fly (2009), em colaboração com Wiz Khalifa.

A$AP ROCKY – LIVE.LOVE.A$AP (2011)

A mixtape de estreia de A$AP Rocky veio ao mundo em outubro de 2011, rapidamente foi para os ouvidos de todo fã de Rap e, hoje, já ultrapassa 2 milhões de downloads no DatPiff, tornando-a um projeto de platina duplo. As rimas de Rocky nessa mixtape são extremamente gostosas de ouvir e vêm embaladas no flow suingado e descarado do artista. “I be that pretty muthafucka, Harlem is what I am reppin”. Com Clams Casino na produção majoritária, a sonoridade é fortemente direcionada ao Trap feito em Houston e em outras cidades do sul dos Estados Unidos, além da inegável influência de Spachegost Purrp e o Raider Clan. “Brand New Guy” com participação de Schoolboy Q, “Trilla” e principalmente “Peso” foram responsáveis por apresentar Rocky e introduzir os mandamentos que guiaram a influente A$AP pelo restante da década.

 

CHANCE THE RAPPER – ACID RAP (2013)

Eu acredito que notas não importam tanto, mas preciso falar: Acid Rap foi um projeto tão aclamado que pegou 8.4 como “Best New Music” na Pitchfork e um merecido 9/10 aqui no Monkeybuzz. Antes do Chance gospel e pai de família, existiu o ácido. Sua segunda mixtape foi lançada bem no finalzinho da Blog Era e passeia por elementos de Soul, Funk, House, além do próprio Gospel que se tornaria protagonista depois. Tudo permeado pelas rimas perspicazes (e ácidas, claro) do jovem de Chicago. Importante dizer que Chance trouxe a cidade consigo nas participações de um então promissor Vic Mensa, BJ The Chicago Kid à jovem – e hoje consagrada – Noname Gipsy. Sem falar de outros nomes gigantes como Action Bronson, Ab-Soul e Childish Gambino. Moral, né? Outro clássico da época que ultrapassa 1 milhão de downloads no DatPiff.

J. COLE – FRIDAY NIGHT LIGHTS (2010)

Cole sempre foi faminto. No lançamento de Warm Up (2009), o nome do artista estava em todos os blogs como o primeiro contratado da Roc Nation, a nova empreitada de Jay-Z. Em 2010, Friday Night Lights estabeleceria o rapper como uma lenda da Blog Era. Com participações de Drake e Wale, o projeto teve produção de Cole na maioria das faixas, o que trouxe coesão ao repertório. Seja a autorreflexão em “Premeditated Murder”, o bom humor provocativo em “You Got It” ou o exercício lírico de faixas como “Blow Up” e “Back To The Topic”, o rapper da Carolina do Norte já exibia as habilidades que o caracterizariam e que renderam um contrato com Jigga. A mixtape é triplo platina, com mais de 3 milhões de downloads no Dat Piff.

 

KENDRICK LAMAR – SECTION.80 (2011)

Kendrick Lamar, assim como OutKast e Kanye West, realizou o feito de três álbuns clássicos em sequência. Section. 80, lançado de maneira independente pela Top Dawg Entertainment foi responsável por transformar o menino de Compton de promessa em realidade. Após a boa mixtape Overly Dedicated (2010), com mais de um milhão de downloads no DatPiff, Kendrick chamou a atenção de Dr. Dre com seu disco de estreia que foi disponibilizado gratuitamente na iTunes Store. Assim como com J. Cole, as sementes de Kendrick Lamar já estavam plantadas nesse trabalho: “ADHD” é uma irmã mais velha de “Swimming Pools”, “HiiiPoWeR” (com produção de Cole) antecipa as temáticas raciais de To Pimp a Butterfly (2015), enquanto “Keisha’s Song” é uma aula de storytelling, entre outras canções excepcionais.

 

DRAKE – SO FAR GONE (2009)

A carreira de Drake talvez seja o produto mais bem-sucedido da Blog Era. Foi após chamar a atenção de Lil Wayne com a mixtape Room for Improvement que Drizzy assinou contrato com a Young Money Entertainment. Weezy participa de quatro músicas de So Far Gone, um elemento essencial para expandir a audiência daquele que se tornaria o artista mais popular da última década. Da capa da mixtape às batidas, So Far Gone é uma carta de apresentação à personalidade melosa do artista, mas mantém o bragadoccio esperado de uma mixtape, ainda que soe como disco. Bastante extenso, tem faixas puláveis na mesma quantidade de faixas memoráveis, com destaque para “Houstounatlantavegas”, “Best I Ever Had” e “Bria’s Interlude”. Sem os blogs, a carreira de Drake certamente teria sido diferente. So Far Gone alcançou o primeiro lugar nas paradas da Billboard nos álbuns de R&B/Hip-Hop dos Estados Unidos.

 

Big K.R.I.T – K.R.I.T. WUZ HERE (2010)

Se a carreira de Drake foi um case de sucesso, talvez a de Big K.R.I.T. tenha sido a que mais tomou rumos inesperados. Ainda que seja um rapper consolidado e respeitado no underground, o artista era projetado para atingir o mesmo sucesso de Kendrick Lamar e J. Cole, o que nunca aconteceu. K.R.I.T. Wuz Here peca no excesso de faixas – um erro comum nos projetos dessa época – mas ótimos momentos, que colocaram holofotes no artista do Mississipi. K.R.I.T abraça a estética do Rap sulista de nomes como UGK e Goodie Mob e produz faixas notáveis, como “Return of 4eva, “Country Shit” e “Glass House”, com participação de Curren$y e Wiz Khalifa.

 

Joey Bada$$ 1999 (2012)

A mixtape de estreia de Joey Bada$$ foi uma estrela cadente de esperança para os saudosistas do gênero. Rimando sobre a produção de Chuck Strangers mas pegando emprestado batidas de Knxwledge, MF DOOM, J Dilla, Lord Finesse e outros, o membro da Pro Era parecia aqueles jovens que tuitam que nasceram na época errada. Entre o som disruptivo da Odd Future, o drill de Chief Keef e o Trap comercial de Big Sean, ele apareceu como uma manutenção do Rap noventista da costa leste. Apesar do apelo estético ao passado, Joey não se mostrava um artista conservador, mas sim um apreciador genuíno da golden era do hip hop – e que, acima de tudo, fazia música boa com isso. Apesar de ter “apenas” cerca de 500 mil downloads no Dat Piff, 1999 deu a Bada$$ seu lugar na paisagem da Blog Era e posteriormente, no mainstream. Destaques para “Waves”, “FromdaTomb”, “Survival Tactics”.

Bônus: TYLER, THE CREATOR – BASTARD (2009)

Assim que apertamos o play na primeira mixtape de Tyler, The Creator, ouvimos: “Yo, fuck 2DopeBoyz and fuck Nah Right/ And any other fuck-nigga-ass blog that can’t put an 18 year old nigga/ Making his own fucking beats, covers, videos and all that shit”. Sem o suporte esperado dos blogs, a Odd Future criou seus próprios caminhos para fidelizar os fãs, com um fórum próprio, site/tumblr e horas e horas de conteúdo no YouTube. Vale a pena revisitar este material para ter a perspectiva dos anti-heróis da Blog Era.

 

Menções honrosas: The Cool Kids – Bake Sale (2008), Pac Div – Church League Champions (2009) e Nipsey Hussle – TMC (2011)

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