1967-1969 – Quando Bob Dylan Foi Robert Zimmerman

Aqueles anos tão decisivos na carreira do músico ecoam até hoje em diversos trabalhos de bandas inspiradas por ele

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Estamos em 29 de julho de 1966. É um verão morno em Woodstock e seria apenas mais uma estação perfeita se hoje Bob Dylan não tivesse sofrido um acidente com sua moto a caminho de sua casa. Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, cair de sua Triumph 500 cilindradas não foi tão doloroso para Dylan. Na verdade, era a oportunidade que ele esperava para poder sumir dos holofotes da fama e aliviar sua carregada agenda de compromissos, shows, aparições em rede nacional.

Bob Dylan havia se transformado num ídolo. Sua trajetória inicial, revisitando a música Folk de mestres do passado, como Woody Guthrie, passando por sua metamorfose elétrica e o consequente desenvolvimento de um estilo musical inédito, haviam conferido a ele um prestígio impensável para o mais dedicado fã de seus discos. Àquela altura, a turnê do último álbum havia sido Blonde On Blonde, lançado em maio do mesmo ano, havia se encerrado. Dylan atravessara o país e tocara na Europa para uma multidão de espectadores que se dividiam em adeptos dos velhos dias, do Folk acústico, repudiando toda e qualquer forma de eletrificação de sua música (algo que ele iniciou em 1965, a partir do lançamento de seu disco Bringing It All Back Home) e fãs do Rock nascente, das guitarras que passaram a moldar canções como Like A Rolling Stone e Subterranean Homesick Blues. Em um show na cidade de Manchester, Dylan, ao encerrar um número, foi chamado de Judas por alguém na plateia, tamanha era a divisão entre as facções de admiradores dos estilos musicais que unidos pela primeira vez por ele, compunham seu traço mais definidor.

Pouco se sabe da gravidade do acidente, mas há unanimidade em apontá-lo como motivo para Dylan sumir de cena. Ele permaneceu recluso por um ano e meio, algo que, se pensarmos em termos de 2013, não poderia significar grande coisa. Se olharmos pra trás, no entanto, ficar recluso entre 1966 e 1967 era, para um artista como Dylan, sair do mundo. Mesmo longe da mídia, ele manteve-se ocupado e produtivo. Reuniu a banda que o acompanhara em turnê, os Hawks que, em pouco tempo, seriam chamados de The Band e produziu com eles uma série de gravações. O conjunto dessas canções só seria lançado oficialmente com o nome de Basement Tapes mas houve uma quantidade razoável de gravações piratas circulando na época. Os LP’s eram embalados numa capa branca sem qualquer inscrição e sugeriam que algo novo estava acontecendo com Dylan. Interpretações da época associavam a cor da capa com uma tela pronta para receber novas tintas. Como era o momento da música psicodélica capturar corações e mentes jovens, além dos crescentes acontecimentos políticos pipocando em todas as partes do mundo, era plausível supor que Dylan poderia vir a fazer parte dessa onda.

Em dezembro de 1967, o mistério se desfez e uma expressão de perplexidade tomou conta de críticos e fãs. O novo disco que Dylan lançava não trazia uma única canção do conjunto gravado com The Band meses antes, tampouco algum integrante de sua formação participava das músicas. E mais: nenhuma nova gravação contida no disco trazia um único traço de Rock psicodélico. John Wesley Harding, o nome do oitavo álbum lançado por Bob Dylan surgia como se o cantor e compositor dissesse para todos, do alto de seus 26 anos, que abria mão de toda a badalação em nome de uma viagem de auto-conhecimento. Na verdade, Dylan queria dizer que preferiria assistir às mudanças do mundo – as quais ele ajudara a iniciar através de sua arte – com relativa segurança e de uma maneira não tão atuante. Pelo menos não agora, que ele estava casado em sua esposa Sara Lownds e pai de Jesse e Anna. Samuel e Jakob nasceriam até dezembro de 1969.

Ao contrário do que parece, Dylan não “encaretou”. Ele optou por seguir sua jornada musical por outro caminho, mais voltado para os mitos e imagens da América, para as canções que se equilibram na tênue linha que separa o Folk do country. Gravado em Nashville, John Wesley Harding veio impregnado de mitos e acenos à religião. O jornalista Bert Cartwright chegou a identificar quinze diferentes passagens bíblicas em uma das canções do disco, The Ballad Of Frankie Lee And Judas Priest. A própria mãe de Dylan, Betty Zimmerman comentou em entrevista na época do lançamento do disco sobre o crescente interesse do filhe pela Bíblia, a ponto dele ter erguido um altar em sua casa e lá tenha colocado um grande exemplar aberto. Várias canções do disco mencionam santos, pecadores e tribunais. Mesmo que admitisse um caminho mais tranquilo e menos calcado nas sonoridades elétricas, canções do disco foram imediatamente apropriadas por artistas como Jimi Hendrix, que fez uma versão arrebatadora do maior sucesso do disco, All Along The Watchtower.

Havia um senso de conjunto muito mais evidente em JWH que nos trabalhos anteriores. As canções aqui parecem ter traços em comum, parecem interligadas e dão ensejo a imaginarmos Dylan em um momento curto e focado de intensa criação, talvez durando dois ou três dias, em que ele teria ficado apenas escrevendo letras e pensando em melodia a partir delas. Aliás, este método de composição era inédito para ele, que sempre escreveu a partir de esboços melódicos no violão ou piano.

Aqui Dylan inaugura outro traço interessante, que o insere na categoria de cantores de Blues e Country: o singelo ato de “se apropriar” de passagens melódicas ou mesmo pedaços de outras composições alheias. Dylan sempre admitiu essa característica. Numa entrevista de 2006, dada por conta do lançamento de seu disco Modern Times, ele admite que este traço é próprio de uma espécie de criação conjunta e de utilização de sonoridades que seriam de um tipo de “inconsciente coletivo” da música tradicional americana. Um conjunto de sons que seriam de todos, portanto, não haveria que se falar em roubo ou plágio. A canção I Dreamed I Saw St. Augustine inaugura essa prática. Isto não diminui a qualidade do material, pelo contrário, o credencia para pertencer a uma espécie de instância superior que a obra prévia de Dylan, apesar de sensacional e altamente relevante, ainda não havia alcançado.

As músicas são em sua maioria enganosamente simples, com repetição de ciclos de três ou quatro acordes (ou menos, Escape Drifter e The Wicked Messenger têm apenas dois). All Along The Watchtower e I’ll Be Your Baby Tonight foram hits e têm lugar cativo entre preferidas de fãs. Dylan restringe sua guitarra ao dedilhado mais simples, enquanto a banda, formada pelo baterista Kenny Buttrey e o baixista Charles McCoy, além da guitarra pedal steel, tocada por Peter Drake em Down Along The Cove e I’ll Be Your Baby Tonight. Dylan também tem presença marcante no uso da gaita, porém, de uma maneira mais visceral e participativa que em qualquer trabalho anterior.

Artistas atuais, como Wilco, Jayhawks, Ryan Adams & Cardinals, entre outros, apontam John Wesley Harding como o ponto de partida do chamado Alternative Country, estilo surgido na década de 1990, marcado pela união de elementos do Rock e mesmo do Punk Rock ao country mais tradicional. Estes artistas apontam o oitavo disco de Dylan como a primeira vez, em que algum elemento alheio às tradições do Country, fora misturado. É bom lembrar que outros dois discos compostos na mesma época (1967-1968) também são vistos como seminais para o que se chamou mais tarde de Country Rock: Sweetheart Of The Rodeo (dos Byrds) e Music From The Big Pink (dos amigos e companheiros de Dylan, The Band).

Quando Dylan lançou o disco subsequente, Nashville Skyline, em 1969, a reação dos fãs foi de uma perplexidade ainda maior. Se alguns ainda nutriam certas esperanças de engajamento político (ou mesmo artístico) por parte dele, o álbum soava como se ele virasse as costas para o que acontecia em seu país e no mundo e, num movimento ainda mais radical, rumasse para a América mais recôndita. Nashville Skyline era um disco de Country, dessa vez sem qualquer tempero Rock ou alusão a qualquer movimento em curso. Até sua voz rouca e anasalada aparecia mais encorpada e forte neste disco – o próprio Dylan admitiria em entrevista que havia deixado de fumar e que isso refletiu positivamente em sua voz. O público aprovou o novo trabalho e a canção que foi para as rádios, Lay Lady Lay, permanece como o maior sucesso comercial de Bob Dylan nas paradas de sucesso até hoje.

Analistas da obra de Dylan marcam Nashville Skyline como o início do chamado Período Nacional de sua obra. Ele iria até 1975. Durante este tempo, as músicas, as letras, os conceitos por trás de cada disco, se voltam para assuntos próprios da vida familiar ou tradicionais americanos, sem, no entanto, procurar questionar nada em termos de política interna. Não há uma canção de Dylan contra o Governo Nixon, por exemplo. Não que um artista como ele não fosse provavelmente contrário a movimentos dessa natureza, mas ele não declarou tal posicionamento em forma de arte, como fizera antes, na primeira metade da década de 1960. O último disco dessa fase seria Blood On The Tracks e ele voltaria a explorar novos territórios musicais em Desire, seu sucessor de 1976.

As músicas de Nashville Skyline são simples, curtas e diretas. O disco tem 27 minutos de duração. Dylan escreveu canções de amor simples – nunca simplórias, entretanto – e aproximou-se ainda mais do que estava em voga na área da Country Music. O grande sucesso do disco, Lay, Lady, Lay foi originalmente escrita em 1968 (uma das poucas canções de Dylan escritas durante esse ano) para inclusão no filme Midnight Cowboy mas ele não conseguiu terminá-la a tempo. Nashville Skyline Rag foi o primeiro número totalmente instrumental gravado por Dylan, enquanto Country Pie, a última canção do disco, durava apenas um minuto e meio. Devido à duração das músicas, Nashville Skyline parecia indicar que Dylan estava tendo dificuldades para compor, fato agravado pela inclusão de um dueto com Johnny Cash em Girl From The North Country, que Dylan já gravara em 1963 em seu disco Freewheelin’ Bob Dylan, de 1963. Fazer duetos, convém lembrar, é um traço marcante da Country Music e Dylan escolheu ninguém menos que o maior cantor do estilo para acompanhá-lo. Cash era seu admirador e topou participar cheio de honra.

Eram tempos revolucionários, cultural e socialmente. Música, estilos de vida, arte, drogas, expansão da mente, tudo isso se voltava contra os mais conservadores de uma das mais conservadoras sociedades do planeta. Motins raciais ocorreram em várias cidades importantes, Martin Luther King e Robert Kennedy foram assassinados em um curto intervalo de tempo e ainda havia Nixon e o Vietnã. Tudo era um caldeirão fervente e, por mais que Dylan não produzisse nada diretamente ligado a isso em termos de música, ele ainda era alguém a ser ouvido, consultado e era justo depositar esperanças em seus ombros, achando que ele ainda sacaria da cartola alguma letra que fizesse sentido para tudo.

Afinal de contas, Bob Dylan foi uma arquiteto de grande parte dessas alterações. Ele ainda poderia ser visto como “porta-voz de uma geração”, um epíteto que ele sempre desprezou. Agora, em 1969, pai de quatro filhos, Dylan, aos 27 anos, parecia querer paz e descanço.

Nashville Skyline é a certeza de que ele não é porta-voz de ninguém, a não ser ele mesmo. A crítica especializada, sempre fiel aos elogios em relação a discos anteriores, foi, pela primeira vez, cautelosa. Apesar de um consenso geral de que o material do novo trabalho era de qualidade e que ele simplesmente acenava em outra direção musical, os críticos acumularam munição para quando fosse necessário e Dylan lhes deu a chance quando lançou Self Portrait, em 1970, considerado como um chute monumental no balde em termos de seriedade, compromisso, engajamento ou qualquer outro termo.

No geral, Nashville Skyline é um álbum curto, bonito e agradável, feito por um artista que dava privilégio ao homem, não ao mito, ainda que já fosse um. Entre 1967 e 1969, Dylan, em algum momento, seja na mesa de jantar, na caminhada matinal ou antes de dormir, decidiu tocar sua vida, feliz com seu prestígio e fazer apenas música. Talvez ele tivesse noção de que tudo o que acontecia à sua volta em termos de reação ao estabilishment fosse, de alguma forma, consequência de sementes Folk que ele havia lançado ao solo num momento em que ninguém estava fazendo isso. Talvez ele tenha amadurecido antes de todos, talvez não. Ouví-lo nesses dois discos, John Wesley Harding e Nashville Skyline, é atravessar por dois anos da vida de um americano comum, pai de família, chamado Robert Zimmerman.

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ARTISTA: Bob Dylan
MARCADORES: CEL

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.