2012, o ano dos festivais no Brasil

Fizemos um apanhado de como foram os eventos em 2012, ano importante para o amadurecimento de uma cultura brasileira do formato

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Pare um segundo e pense em quantas bandas você viu ao vivo nesse ano. Se você tem o mesmo perfil que nós aqui no Monkeybuzz, você provavelmente foi a mais de um festival e é bem capaz de ter visto mais bandas nesse formato do que com shows próprios.

O Brasil já está há algum tempo na rota do entretenimento mundial, com grandes shows em estádios ou shows de médio porte de artistas populares em casas como Via Funchal e Credicard Hall. Porém, seguindo a tendência mundial, o Brasil, há alguns anos, começou a ter seus próprios festivais como o gigante Rock In Rio, Planeta Atlântida, Festival de Verão de Salvador e outros de nicho como o Planeta Terra e o Tim Festival.

Porém, com a popularização da Internet, a demanda por artistas menores aumentou e muitos deles não valem o investimento em shows próprios, além da dificuldade muitas vezes, de encontrar casas de médio porte com perfil para receber certos artistas. Por isso, vamos relembrar um pouco de como 2012 foi um ano marcante para o Brasil e que pode ser lembrado como importante na popularização do que chamamos de cultura de festival no país.

Amadurecimento das produções nacionais

Nesse ano, pudemos presenciar o amadurecimento de alguns festivais nacionais como o All Folks Fest, que conseguiu encantar em quatro edições com sua curadoria especializada nas diversas vertentes do Folk e mostrar que a ideia de um festival de nicho pode ser sim muito encantadora.

Outros dois festivais que conseguiram mostrar que a demanda não está apenas no eixo Rio – São Paulo foram o No Ar Coquetel Molotov e o Festival Vaca Amarela. O primeiro tem se tornado uma referência no Brasil e principalmente na Região Nordeste, por conseguir mesclar em Recife grandes nomes nacionais como Thiago Pethit, grupos internacionais que se destacam pela qualidade do som e não por estarem em alta no momento, como Rain Machine de Kyp Malone do TV On The Radio, shows épicos como o de Moraes Moreira tocando o clássico Acabou Chorare e novos nomes como o Madrid. O segundo, em sua 11ª edição, contou com nomes já consagrados da cena roqueira nacional, fazendo shows marcantes, além de toda uma estrutura de palestras que movimentou Goiânia durante a semana que antencedeu o evento. Destaque para a curadoria que prestou atenção na excelente Cambriana que integrou o lineup. Outros nomes, como o Abril Pro Rock, trazendo Los Hermanos, e o Goiânia Noise, entre outros, também continuam reforçando o cenário nacional de festivais.

Grandes franquias internacionais

Não há dúvida de que o maior destaque em termos de estrutura, dimensões e bandas envolvidas foi o Lollapalooza que despensa apresentações. Trazendo grandes nomes internacionais como Foo Fighters e Arctic Monkeys, o festival cravou seu nome no cenário nacional e promete para sua edição 2013, agora com três dias, se aproximar da importância que tem a sua edição americana.

Na onda do sucesso do festival de Chicago, outros grandes nomes internacionais, como o Coachella e o Bonnaroo, já estão de olho em nosso país. Infelizmente, o grande problema para esse porte de festival é o local, que para conseguir traduzir o conceito e identidade de seus irmãos americanos, não poderiam se contentar com estádios ou locais menores e todos sabemos que em São Paulo, espaços livres estão cada vez mais escassos.

Dificuldades com alguns nomes de peso

Talvez muito afetados negativamente com o impacto do Lollapalooza, alguns nomes já bastante conhecidos dos brasileiros tiveram dificuldades de colocar de pé suas edições desse ano.

O SWU começou com o problemas de não ter conseguido o espaço no interior paulista que precisava e boatos apareceram de que essa edição seria na Arena Anhembi, o que acabaria quase que completamente com a proposta do festival de ter um estilo Woodstock no Brasil. Algumas possíveis bandas que poderiam estar no lineup também apareceram em certos boatos e no fim, para a surpresa de todos (ou não), a edição 2012 foi cancelada. Vamos aguardar e ver o que virá no ano que vem.

Outro que sofreu algumas dificuldades foi o Planeta Terra Festival que perdeu a sua casa no Playcenter neste ano e foi obrigado a procurar novas opções. A boa notícia veio quando confirmaram o Jockey Club como novo cenário, espaço antigamente pouco utilizado para esse tipo de evento, mas que com o Lollapalooza mostrou-se a cara de São Paulo.

Porém, no novo espaço, o Planeta Terra teria espaço para o dobro de pessoas das edições anteriores, portanto teria que conseguir atrair um lineup mais carregado para atrair o público necessário para lotar o espaço. Infelizmente, muitos se decepcionaram com o anúncio de uma mistura de bandas hypadas, sem muito peso, que já vieram há pouco tempo para o Brasil ou nomes que estão fora dos holofotes há algum tempo, como Suede e Kings Of Leon. No final, o festival mostrou-se bastante organizado, teve ótimos shows, mas faltou aquela sensação de noite épica como os fãs do evento estão acostumados.

Importação de propostas diferenciadas

Apesar de todo o cenário descrito anteriormente, ao tentarmos analisar de maneira mais detalhada, ainda há um tipo de festival que realmente simboliza a evolução do nosso país na cultura desse tipo de evento, que são os festivais internacionais com uma proposta diferenciada como foi o Sónar São Paulo.

A marca de Barcelona finalmente desembarcou em São Paulo, dizendo ser um festival de música avançada e arte e realmente conseguiu cumprir o que prometeu. A única limitação de trazer festivais como o Lollapalooza para o Brasil é financeira, pois devido à imagem que o evento carrega consigo e o porte das bandas que compõem o lineup, o esforço das produções é muito mais necessário para que não dê nada errado do que para que dê certo. Já exemplos como o Sónar, realmente mostram que há demanda para festivais com uma real proposta por trás e que privilegiem novas formas de se manifestar artística e musicalmente.

As duas noites no Parque Anhembi foram um dos poucos eventos em que as pessoas pareciam estar lá para curtir uma noite de muita música e disposta a se aventurar e conhecer novos artistas, além de ver outros que já conheciam, o que é realmente a proposta de um festival, ou pelo menos deveria ser. Eu e todos aqui no Monkeybuzz estamos muito ansiosos para a edição 2013 e consideramos o Sónar uma das propostas mais interessantes atualmente no país.

A curadoria do festival foi feita inclusive por Chico Dub que também participou da organização do Festival Novas Frequências que agora acontece também em São Paulo, além do Rio de Janeiro. O evento possui uma proposta bastante semelhante à do Sónar e promete trazer nomes de artistas que realmente elevam a música à outro patamar.

O que falta?

A sensação que fica é de uma evolução muito grande na organização e de uma variedade maior de propostas entre os diferentes eventos que antes disputavam sempre as mesmas atrações e o mesmo público. O que ainda falta é o brasileiro criar uma cultura de festival e não de headliner, ou seja, ir com vontade de aproveitar o evento, a experiência e conhecer coisas novas e não apenas chegar no final para ver as grandes atrações.

Porém, mudar essa cultura depende muito mais de uma mudança na cabeça dos organizadores que estavam acostumados a investir seu dinheiro e esforços em trazer uma ou duas grandes bandas e prencher o restante com qualquer coisa, do que uma mudança no próprio comportamento do público. Agora é esperar e ver o que nos aguarda em 2013. Continue acompanhando o Monkeybuzz que prometemos ficar de olho em tudo que rolar de novo sobre festivais no Brasil.

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Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.