2BUNK assiste ao caos pela janela

Em meio à quarentena, Patrick Laplan e João Capdeville revelam atmosfera esfumaçada e sensual, com referências que vão de Portishead a Bad Bunny

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Fotos: Leonardo Braga

A quarentena já dura quase três meses para muita gente e os dias arrastados despertam sentimentos diversos, de medo a frustração. Soma-se à já difícil tarefa de lidar com o isolamento o clima de tensão política e social. Planos e perspectivas para começar a nova década foram afogados nesse pântano profundo e incerto no qual 2020 se transformou. Com o fim dessa tragédia ainda indefinido, dia sim dia não é preciso desanuviar a fim de não enlouquecer. Tomar um banho relaxante, colocar um roupão e óculos escuros, abrir uma cerveja e sentar no sofá para assistir ao apocalipse pela janela.

É nesse cenário de deleite em meio ao caos que a dupla carioca formada pelo veterano Patrick Laplan (ex-Los Hermanos, Biquini Cavadão, Rodox e Eskimó) e o jovem compositor João Capdeville, construiu seu novo projeto, 2BUNK. O nome sugere a ideia de “bunker”, um esconderijo ou lugar seguro para os dois artistas expressarem suas melancolias sem amarras e sob uma roupagem totalmente diferente do que até então fizeram em suas carreiras solo. Esse universo é introduzido ao mundo com o EP de estreia lançado em maio, Autômato (2020), com três faixas mergulhadas em um ambiente em câmera lenta, esfumaçado e sensual. A esse som entorpecente o duo deu o nome de “Dystopian chill”.

“Visualizamos cenários com elementos que remetem a uma ‘luxuosidade decadente’, como um charuto, cores vermelhas, um terno amarrotado no chão”, explica Capdeville. Laplan resume o gênero em duas expressões: “músicas de vacilação” e “músicas para trepar e fumar um”. “A ideia é propiciar um som para relaxar em meio à situação em que estamos, que já é de semi-guerra há algum tempo”, diz. João completa: “Reproduzimos a sensação de como se o mundo fosse acabar amanhã e a gente quisesse aproveitar com o que mais gosta: fazer música e curtir rodeado por quem amamos”.

Os elementos desse cenário aglutinaram-se a partir das diversas referências compartilhadas entre os dois artistas desde seu primeiro encontro, em 2018, na gravação do primeiro EP de João Capdeville. Com o convite para Laplan produzir seu disco de estreia, o entrosamento se estreitou ainda mais. “A partir desse ponto, veio uma enxurrada”, lembra o produtor.

Enquanto matches musicais como Morphine, Portishead e Fiona Apple funcionaram como base, os dois criaram personas ou superegos para si, trazendo influências particulares. Laplan incorpora um personagem rastafari que gosta de “festinhas Lo-Fi” ou “inferninhos” – que diz ter surgido quando trabalhou com Marcelo Yuka –, contribuindo para o Dystopian chill com referências esfumaçadas de R&B e Neo-Jazz, como D’Angelo, Sade, Sampa The Great. Também fez uma pesquisa de percussões africanas que fugissem do bom e velho Afrobeat. De outro, Capdeville refinou o conceito da “luxuosidade decadente”, diluindo nas temáticas das composições e na atitude de suas personas elementos street, de Reggaeton e Pop, inspirado em Cardi B, The Weeknd e, principalmente, Bad Bunny. “Gosto muito da sensibilidade que ele imprime em um ritmo como o Reggaeton, que segue alguns padrões”, explica o jovem compositor sobre a afinidade com a música do porto-riquenho.

“Reproduzimos a sensação de como se o mundo fosse acabar amanhã e a gente quisesse aproveitar com o que mais gosta: fazer música e curtir rodeado por quem amamos”

No EP, pode parecer que cada faixa caminha para um lado por conta da diversidade sonora, mas Laplan afirma que existe uma uniformidade. Capdeville complementa: “São várias personas com coisas em comum, mas um determinado aspecto de cada uma se destaca em cada faixa. Como se houvesse uma persona maior com várias sub personas. E o conceito que une tudo é o apelo sensual, a ideia da música de curtir”.

Apesar das delimitações de superegos para reforçar a ideia de ser um lugar seguro para os dois, desde o início o processo criativo foi democrático e pautado na liberdade de um ou outro interferir e mudar composições, melodias e produções. 2BUNK torna-se uma unidade que transcende as particularidades artísticas dos dois lados e, ao mesmo tempo, é alimentada por elas. “A proposta é de não determinar quem faz ou toca o quê, mesmo que, em nossas carreiras solos, venhamos de lugares diferentes. Tudo surge de assuntos em conjunto”, afirma Capdeville.

Nessa dinâmica ganharam vida mais de 30 faixas, que estão bem adiantadas. Porém, com os rumos da pandemia, o duo decidiu liberar apenas três. Em “I Can Take You There”, primeiro single de 2BUNK, cordas e beats são base para as confissões melancólicas do eu-lírico. “A intenção foi realmente dar voz a uma das personas no primeiro verso, distorcendo os vocais com um pedal”, conta o compositor. A faixa também conta com um momento Dub produzido por Gabriel Ventura (ex-Ventre). “Don’t Love You” conta com uma melodia de piano performada por Aline Lessa e trombones de Reinaldo Seabra. Por fim, “Permissão” é a única faixa em português e a que mais se aproxima do trabalho solo de João Capdeville – isso porque provavelmente surgiu nas primeiras sessões de 2BUNK, próximas à época da gravação de seu debut. Mas não se sabe ao certo. “É como em qualquer conversa de botequim, quando surge um tópico que é discutido e ninguém vai lembrar quem propôs”, brinca Capdeville. Entre as participações, há ainda Glau Leandres, que faz backing vocals e vozes adicionais.

Os dois artistas afirmam que, sem a amizade, não existiria 2BUNK. A diferença geracional, para ambos, deixou o projeto mais rico, mas não interferiu na dinâmica criativa. “Acho incrível que com essa bagagem toda o Patrick tenha topado entrar nessa comigo e também incorporar elementos street, que não são muito a praia dele, mas que somado com as referências de R&B e Neo-jazz culminaram em algo totalmente novo para os dois”, declara Capdeville.

Para Laplan, que andou pelo mainstream, se aventurou em projetos ambiciosos do Indie e se consolidou como produtor, 2BUNK representa uma reinvenção da carreira. “Olhando para os caras que me inspiraram, é comum, quando o artista vai envelhecendo, dividir sua obra em fases. No meu caso, acho que já tive uma fase em que era muito virtuoso e agora talvez me ligue mais em groove, mirando na nova música Pop, que, na essência se resume, a boas melodias e beats. Então, quero que os que me acompanham tomem um susto e se surpreendam”, declara.

Se faltava uma surpresa boa em 2020, 2BUNK tem potencial para preencher essa lacuna. Seja lá o que os próximos meses nos reservam, a distopia já está instalada e precisamos aprender a conviver inseridos nela. E se afundar é inevitável, melhor que seja com uma boa trilha sonora.

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ARTISTA: 2BUNK

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