5 discos para conhecer a Bruiser Brigade

Trap disruptivo, Rap griseldiano e a tradição Detroit: o grupo que se transformou em gravadora encabeçada pelo revolucionário Danny Brown

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Fotos: Reprodução

Gravadoras e sub-gravadoras encabeçadas por rappers que atingiram um determinado sucesso financeiro sempre tiveram basicamente um objetivo: alavancar talentos desconhecidos através deste nome expoente. Foi assim como a No Limits Records, liderada por Master P, ou Dr. Dre com a Death Row na Costa Oeste e P. Diddy e Notorious B.I.G na Costa Leste com a Bad Boy Records, exercendo papel fundamental no hip hop dos anos 1990. O mote principal dessas gravadoras era garantir a esses novos nomes uma liberdade criativa que empresas maiores e tradicionais não poderiam oferecer – e a Bruiser Brigade entra no jogo com o mesmo objetivo.

Toda vez que você dá play em um videoclipe do coletivo transformado em gravadora, ouve-se “Bruiser Brigade!” como se estivéssemos selecionando um personagem no Super Smash Bros., ou como se os rappers fossem um novo lutador entrando pro combate em Street Fighter (relembrando o clássico “here comes a new challenger!”). A tag faz muito sentido para o grupo, pois os MCs de Detroit apadrinhados por Danny Brown realmente são material fresco para o jogo do rap. A voice tag da gravadora é como um passaporte imediato para a mistura entre o Rap underground “griseldiano” e abstrações esquisitas e desafiadoras. Em entrevista para a Pitchfork em 2013, Danny declarou: “a nossa parada é essa, a gente rima em qualquer coisa”. Por falar nisso, os beatmakers do coletivo como Black Noi$e, Skywalkr e Raphy, sempre entregam um trabalho muito notável e fundamental na atmosfera de todas as músicas.

Em fevereiro de 2021, o rapper tuitou: “Disseram-me que XXX não era bom o suficiente para ser um álbum, então eles lançaram como uma mixtape gratuita”, referindo-se ao seu revolucionário disco de estreia, lançado pelo selo independente Fool’s Gold Records do Brooklyn. No caminho contrário dessa frustração, existe o ethos da Bruiser Brigade Records: família e liberdade criativa. Inspirado pela WGPR, o primeiro canal de TV de propriedade totalmente negra e baseado em Detroit, TV62 é o disco de estreia do coletivo-gravadora. O disco segue o conceito e suas faixas transitam como zapeadas na TV (um hábito que já soa meio pré-histórico, capturando as nuances, diferenças e semelhanças entre os MCs da Bruiser Brigade, sempre com Danny Brown exibindo sua adaptabilidade e sendo o elo entre todos eles — quase um Faustão, um Norvana.

TV62 é uma bela introdução a Bruiser Brigade, um movimento bom para ficar de olho e que vem trazendo holofotes para o subestimado Rap de Detroit. Se depois de ouvir o disco de estreia do coletivo-grupo-gravadora deu aquela vontade de desbravar, separamos cinco discos de 2021 para conhecer mais a Bruiser Brigade.

 

Fat Ray – Santa Barbara

“Alexa, play some gangsta shit!”

Fat Ray é o rapper mais tradicional do grupo. Provavelmente o melhor rimador, com exceção de Danny Brown, ele faz questão de deixar nítida sua paixão pelo ofício durante seu disco de estreia. Santa Barbara acontece ao redor do Mafia Rap, referências a CosaNostra, barras declarando amor para armas, gabo sobre quantos quilos de cocaína ele vende e tudo o mais. É aquele cara que você imaginaria na Griselda Records, somada à mesma energia da montagem “Tá preocupado comigo? Não fode”, de MC Didô com MC Maiquinho. Rola até um sample de “Vida Loka”, dos Racionais, em “Flight Risk/Plea The 5th”, faixa em que o rapper se debruça justamente sobre as consequências inevitáveis da vida loka e como elas não podem pará-lo. “Flight risk but we travel still, we left bodies on the battleflied”.

J.U.S – GOD GOKU JAY Z

J.U.S. é a tampa da panela de Fat Ray, a outra metade da laranja, o Bebeto do Romário, o Goku do Vegeta naquele episódio em que eles se fundem. Os dois são os mais rua mesmo do bagulho, mas J.U.S se difere um pouco do parceiro nas batidas. Preferindo uma marcação mais downtempo, ele tem uma atitude que lembra o conterrâneo Boldy James, com jogos de palavras escondidas que exigem uma terceira ou quarta audição. Em alguns momentos, como em “PPP”, o MC se vê mais pensativo e interpola melodias de “The World is Yours”, de Nas. J.U.S também tem excelente faro para contar histórias, como em “Noveling” ou “Kash Doll Type Beat” com participação de Danny Brown.

Quentin Ahmad The God – N.O.A.H.

O último a lançar um disco, Quentin Ahmad DaGod é o MC mais misterioso da Bruiser Brigade. Seus clipes têm em torno de apenas 3 mil views no YouTube, no entanto, ele participou com consistência do disco compilação da Bruiser Brigade e largou um bom verso no trampo do rapper J.U.S, também da gravadora. Em N.O.A.H, seu disco de estreia, que até o momento desse texto só saiu no Bandcamp, o MC escolhe o Jazz como pano de fundo de muitas de suas rimas. Em alguns momentos não são nem batidas de Jazz Rap como em alguns sons do A Tribe Called Quest, mas literalmente uma instrumentação do gênero compassado como se fosse um beat, como na abertura “Ahmad Freeman”, produção de Raphy. A voz ríspida e indignada do rapper é um trampolim para o tom sombrio de suas músicas, como em “Bounties” e “Conk Burnes”.

Bruiser Wolf – Dope Game $tupid

Bruiser Wolf é o meu favorito da banca. Inspirado em Suga Free e E-40, principalmente no que compete ao flow, o rapper é mais ligado às raízes de Detroit. E por momentos soa como uma mistura de Mac Dre com Muppets, se o desenho ganhasse uma versão para o Adult Swim. Com um delivery de tio de bar, ele possui um punhado de punchlines bizarras e wordplays de duplo sentido ridículas que o auxiliam a descrever toda a estupidez do “Dope Game” de um jeito muito cartunesco. Rimas como “I get nothing but head, like Beavis/ Uh, sell more white lines than Adidas” são bem divertidas de ouvir, enquanto “Your bitch was in a coma/ And she was dying to get a dick/ Guess who was the organ donor?” certamente nos pegam desprevenidos. Sem falar das batidas de Raphy, Skywlkr e Black Noi$e. O rapper ainda acha um momento para ser emotivo em “Momma Was a Dope Fiend”.

Zelooperz – Van Gogh’s Left Ear

Zelooperz parece competir com Danny Brown para ver quem é o mais esquisito e ganha. Um dos membros mais antigos da Bruiser Brigade, ele acompanhou o líder da tropa por anos e certamente aprendeu muitas coisas. Destemido e disruptivo, em Van Gogh’s Left Ear ouvimos o rapper rimar sobre um PC Music em “Mechanic”, transformar a voz esganiçada da faixa-título em um tom suave ao longo do disco, como em “Hostile”, até cantar de maneiras mais caricatas como Playboi Carti e Young Thug em “Don’t Leave” e “Always Wanted You”, respectivamente. Isso sem falar na no mínimo esquisita “Crash Bandicoon”, com sample do jogo clássico da Naughty Dog. O disco é um passeio pelo Pop Trap, então a gente lembra de muitos nomes enquanto houve. É como se Zelooperz estivesse visitando a casa desses rappers, e sempre levando uma lembrancinha para marcar sua própria personalidade. Apesar de musicalmente não colaborar tanto com os outros integrantes, o MC pintou a capa de todos os outros discos lançados esse ano, e é também o menos dependente da banca, já possuindo extenso catálogo.

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