5 DJs do CENA 2K22

Escaladas no festival que ocorre em São Paulo nos dias 17, 18 e 19 de junho, Iamlopess, Th4ys, DJ Sophia, DJ Livea e Peroli falam sobre as sonoridades, descobertas e conexões importantes para criar estilos próprios de set

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Fotos: Divulgação

“O funk é a música eletrônica brasileira, mas ele ainda sofre esse apagamento [da indústria]. Pelos acessos que eu tenho, vou fazer a galera ouvir o funk raiz, que está tocando na favela, não um funk comercial”, esclarece a DJ Th4ys, um dos nomes que iluminam o line-up do CENA 2K22.

Com uma visão original e objetiva, a artista aproveita o reconhecimento que conquistou para reforçar a memória das raízes dos gêneros que toca, além de alavancar outros talentos. Ao lado dela, DJ Sophia, DJ Livea, Peroli e Iamlopess também se movimentam para ampliar cada vez mais os espaços da periferia e das mulheres dentro do cenário musical.

Seja em sets, projetos ou produtos culturais, essas artistas movimentam multidões por meio de batidas musicais repletas de história e identificação. O público que chega ao Sambódromo do Anhembi nos dias 17,18 e 19 de junho poderá apreciar cada um desses talentos, entre as 100 atrações nacionais e internacionais escaladas no evento.

Além dos nomes nas primeiras linhas do cartaz, como Playboi Carti, Trippie Redd, Recayd Mob e Racionais MC’s, grandes mulheres estrelam e potencializam o festival – e o Monkeybuzz bateu um papo com 5 DJs presentes no CENA 2K22. Leia a seguir:

Amanda Lopes (@Iamlopess)

“Tenho a memória de estar na sala colorindo aqueles livrinhos de R$1 com giz e o meu pai estar sentado, tomando a brejinha dele, ouvindo Jovelina Pérola Negra, Betty Wright, Al Green”, descreve Iamlopess. Ela relembra com humor dos comentários sobre ela ser muito nova “e ouvir música de velho”. “Acho que isso teve uma influência muito grande e que me ajudou a criar o meu gosto”, enfatiza.

Moradora do Guaianases, distrito localizado na Zona Leste de São Paulo, Lopes conta que, para além da influência familiar, um dos atrativos para se desdobrar entre as figuras de DJ, produtora e beatmaker foi um show do DJ Premier no Brasil. “Aquilo brilhou os meus olhos”. O repertório de Premier  —que coleciona participações com  nomes como NAS, Notorious B.I.G e JAY-Z— também foi influência, mas o que mais chamou atenção foi o fato de ele tocar as próprias produções nos sets. “Entendi que eu queria ser isso, eu queria saber como fazer um beat”.

O desejo de ferver as pistas também foi instigado pela falta de reconhecimento de mulheres na cena. A ideia de Lopes, nessa posição artística, era abrir um campo de visão para estimular a trajetória de outras DJs que viessem a ocupar esse espaço na música.

(Foto: Rodilei Morais/Kalamidade)

A profissionalização na área, contudo, só veio em 2018. No próprio Guaianases, se juntou a um grupo de amigos, beatmakers e DJs para fomentar a cena de hip hop, grime e chillwave. “Nossa quebrada é muito forte e muito conhecida pelos bailes, pela Rua do Meio, do Mandela… Então a gente queria fazer isso acontecer”.

Depois de se debruçar na história do hip hop, que sempre esteve presente em sua vida, Lopes quis ampliar o próprio repertório musical, com batidas frescas e sintetizadas do trap. Foi no subgênero, inclusive, que ela encontrou o próprio estilo, e hoje é o principal ritmo que balança os graves do seu set. É possível citar DJ Paul, Drumma Boy, Shawty Redd —alguns dos precursores do trap —, como referências da DJ. A pegada mais “divertida”, que incorpora bumbos, chimbais e synths, estará presente na seleção musical acurada da artista para o festival neste domingo, 19.

Como você se inspira para pensar em um set?

O que me inspira muito na hora de montar um set é entender o rolê em que eu vou tocar e entender o meu público. Tudo nessa vida que eu faço, eu não gosto de fazer de qualquer jeito. Gosto de inserir o que as pessoas estão consumindo, e, ao mesmo tempo, jogar uma parada que é mais pesquisa. Gosto dessa mescla, acho que é importante poder mostrar o nosso trampo, a nossa pesquisa, o quanto a gente faz com amor e com carinho e entende o público e tenta passar isso para eles com um pouco do que a gente consome.

Thays (@Th4ys)

Com uma mala lotada de referências musicais familiares, Thays, a Th4ys, se aventurou pelos gigantes e coloridos botões das controladoras de DJs. Filha de DJ Dal, referência há mais de 20 anos na cena do Grajaú, na Zona Sul, a artista seguiu o caminho trilhado por boa parte da família: o avô tocava violão, enquanto sua mãe era dançarina de axé e frequentadora assídua do Reggae Night. “A gente tem uma história musical gigantesca dentro da família”, explica Th4ys.

Desde os sete anos, ela acompanhava os familiares nos nichos musicais, além de consumir batidas de funk que tocam nos arredores de casa. Essa memória, inclusive, é uma das motivações para Th4ys ter se debruçado no pancadão. “É a minha cultura, minha ancestralidade. Está na minha essência”.

Embora a artista já tivesse o aval do próprio pai para se profissionalizar na área, o despertar para isso só veio em 2017. Em uma oficina no ex-Red Bull Station, onde atuava como curadora, Th4ys lembra de ter visto uma SDJ (multiplayer). “A SDJ sempre foi um Megazorde pra mim. Pensei: ‘Ou é agora que eu vou perder o medo [de tocar], ou eu nunca vou perder”, relembra. A artista já sabia manusear outros aparelhos de discotecagem, mas foi a partir dessa ocasião que sua visão foi transformada.

(Foto: Reprodução/Instagram)

Quando passou a tocar, inicialmente, se definiu como “DJ Open Format”, que não se prende a um estilo de música específico, mas possui um conhecimento extenso e domina técnicas de mixagem e aparelhagem. Essa dinâmica, contudo, foi encaminhando a artista rumo a sua identidade. Hoje, Th4ys é referência no funk, especialmente os de paredões. Antes e durante a pandemia, ela ainda atuava como freelancer, além de tocar a loja online de cosméticos feitos com materiais naturais e artesanalmente, a Abebe Skin. Agora, se dedica de quinta a domingo à vida de DJ. “Vivo de música hoje”, conta.

No set do CENA 2K22, promete uma curadoria 100% de produtores independentes. “Os dançarinos do meu palco são todos de favela, uma galera que nunca se imaginou estar lá”, explica. Segundo ela, a seleção musical vai ser baseada na periferia, “para mostrar que o funk não é só ‘putaria’, o funk é performance”.

Como você se organiza para procurar novas músicas, artistas e/ou tendências musicais?

A gente vive em um mundo de marketing muito grande, especialmente por causa do TikTok. O ramo da música virou um marketing puro. As pessoas pensam em música para fazer trend, as músicas que eu penso para o meu set são mais sobre valorização de pequenos produtores, por exemplo, o Alex BNH, do Grajaú, DJ K9, Menezes…

Então, quando as pessoas me chamam para tocar, o meu briefing principal é falar ‘a Thays não toca funk comercial, ela toca funk de paredão, de favela’, porque a minha forma de prospectar e de fazer essa curadoria musical é mais para evidenciar os pequenos produtores. Porque os grandes já estão assinando com a Kond, Love Funk…

E eu vim do mesmo lugar que o Alex, a galera do Grajaú, então, porque que eu não vou espalhar a música deles por aí, sabe? Então, a minha curadoria é uma coisa mais exclusiva, uma produção que não vai ter masterização, que não vai estar em um canal famoso de funk. Eu foco em evidenciar essas pessoas que não têm visibilidade.

DJ LIVEA (@djlivea__)

“Antes de tudo, veio o hip hop”, explica DJ Livea sobre sua trajetória até as controladoras. Ela conta que foi por meio da identificação com o gênero que ela se desenvolveu e teve a vontade de ser DJ despertada. O pai, que sempre gostou muito de música, também incrementou esse ambiente frutífero.

Frequentadora assídua de festas e eventos musicais no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, Livea descreve esses momentos de diversão como um refúgio. “Aquilo realmente me salvava. Começou a virar rotina e meio que um ritual estar ali”, explica. Com o tempo, se viu cada vez mais atraída pelos bastidores das festas e passou a observar com mais atenção as mixagens feitas pelos DJs, criando novas histórias e novos ambientes. “Sabia que aqueles momentos eram um refúgio não só pra mim, mas para muitos”.

Embora estivesse interessada, aquela realidade parecia distante, especialmente pela falta de equipamentos. Foi quando, em 2018, ela passou a pesquisar sobre o Coletivo Fora de Frequência, grupo que atua no Jardim Nakamura, Zona Sul de São Paulo, onde existem aulas por várias frentes da cultura de rua, do grafite ao break. “Foi lá onde eu tive o meu primeiro contato com os toca-discos, junto com o DJ V Rap, que era o meu mentor na época”, relembra.

(Foto: Reprodução/Instagram)

Depois de tomar conhecimento e gosto pelo grupo, fez o curso Todas Podem Mixar, desenvolvido pela DJ Miria Alves, nome bastante prestigiado do hip hop nacional. “Desde esse contato, não parei mais. Continuei buscando informações, fui estudando e fazendo acontecer”.

Atualmente, a artista acompanha a dupla Tasha & Tracie por todo o Brasil e, em seus sets, ela mescla elementos de afrobeat com o funk paulista, visando novas e diferentes possibilidades para a pista. Livea também explora soul, R&B, vertentes house, chill baile e future beats, mas faz isso sem perder sua essência principal: representar a periferia de São Paulo. “A música preta é algo que sempre vai me inspirar. Montar um set é um dos processos mais importantes para mim. É onde eu consigo contar a minha história e mostrar um pouco da minha bagagem musical”.

Quais são os artistas/discos que você mais curte ouvir e/ou que você não vive sem?

Muita coisa me inspira. Há dias que eu ouço muito funk e samba e outros que eu ouço rap, soul, R&B. Tenho a mente muito aberta em relação à música, porque sempre tento ver possibilidades em tudo, principalmente quando se trata da música preta. Mas muitos artistas marcaram a minha vida, como, por exemplo: Racionais MCs, Erykah Badu, Kendrick Lamar, entre muitos outros. Também sou fã de DJs/produtores que me inspiram muito e tenho grande admiração, como Kaytranada, Sango, Jarreau Vandal, Vhoor, Deekapz. Tem muitos artistas trazendo novas possibilidades para as pistas e eu acho isso genial demais.

Peroli (@peroli)

“Nunca pensei que eu ia querer tocar, mas minha mãe e meu avô eram DJs”, conta  Thawany Pereira de Oliveira, cujo nome artístico é Peroli. Co-fundadora do Side Grime e do Perifa No Toque, a artista está à frente de várias iniciativas musicais com amigos, beatmakers e produtores. Segundo ela, tudo “começou como uma brincadeira” — que acabou ficando bem séria.

Ela conta que aproveitou a fase de um amigo que se despedia do Brasil para aprender a tocar, porque queria presenteá-lo com um set. “Aconteceu naturalmente, depois disso, as pessoas foram me chamando para tocar nas festas”, relembra. Embora Peroli não imaginasse que trilharia esse caminho, os registros musicais físicos sempre fizeram parte da sua rotina, especialmente por meio de parentes. “Desde vinil, vídeo cassete, CD… tive uma pesquisa muito diferente, além do que a gente ouvia na rádio e na TV”. Nomes como Djavan, Luiz Melodia e Lauryn Hill chegavam aos ouvidos de Peroli.

Para além desse convívio, Peroli cita uma personagem curiosa em sua história. “Tinha uma moça na minha rua que fazia uma caravana para arrastar as crianças para a Igreja [evangélica]. Quando eu tinha uns 8 anos, eu fui”. Depois desse contato, a artista conta que tomou gosto pelas vivências da Igreja — não necessariamente religiosas, mas, sim, as musicais. “Fiz aula de música teórica durante muitos anos, canto coral, aprendi alguns instrumentos, como clarinete, flauta transversal e violino. Hoje em dia não sei tocar nada disso, mas foi lá que começou”.

(Foto: Divulgação)

O período de identificação com a Igreja, contudo, foi encerrada conforme Peroli foi crescendo. “Sempre tive uma construção racial em casa muito forte. Então, nunca tive problema com aceitação ao meu cabelo e etc. Mas, de vez em quando, eu gostava de alisar e calhava de serem os dias que eu ia para lá. Um dia eu parei, não fiz mais, e começaram a falar. Foi a gota d’água”.

Em São Paulo, ela percebeu estabeleceu conexões importantes e, com isso, passou a tocar em vários locais da capital. “Uma vez foi igual a uma cena de filme. Caiu uma meia no chão da Void [loja], eu abaixei para pegar e o dono também. Fizemos amizade e passei a ter um passe livre para fazer evento lá e indicar uma galera”, relembra. Em 2021, Peroli foi citada na Pitchfork em uma lista de referências de mulheres que estão fomentando a cena do grime no Brasil.

Como você estabeleceu o que ia fazer parte do seu set e o que não?

Eu queria ouvir o que ninguém tocava no rolê. Lembro que eu participei no começo de 2019 do lançamento do EP do Fleezus, em uma loja de São Paulo. E os caras quebraram tudo [risos], foi um caos. E eu fiquei pensando que a galera tava muito orfã de rolê. E isso foi um dos motivos pelos quais a Perifa no Toque nasceu. Porque a gente teve essa ideia de trazer o funk para o centro, porque parecia que todo mundo só ia para o centro para trabalhar ou para fazer um rolê meio boy. E não tinha representatividade nos sons que a gente queria ouvir.

Todos esses rolês que tocavam bass, grime, não existiam mais no centro. E aí foi quando eu criei a Side. A partir disso, a galera começou a me conhecer como referência no grime e no drill. Mas a minha ideia sempre foi tocar o que eu queria ouvir. Eu nunca quis ser enquadrada em nada, a galera me conhece por causa disso, mas eu nunca quis ser uma caixinha. Eu vou de afrobeat até funk.. Eu misturo um pouco. Quis trazer um pouco dessa cultura do grime, porque fazia mais sentido que o trap e eu já estava cansada um pouco.

Por incrível que pareça, Grime é o que eu menos ouço no meu dia a dia. Eu ouço muito outras coisas, principalmente R&B, justamente para dar uma desacelerada na mente. Gosto muito de ouvir os meus sets e de misturar as músicas entre eles.

DJ Sophia (@djsophia_)

Quando se recorda de suas primeiras conexões com a música, Sophia se lembra de seu pai levando caixas de som para festas. No repertório, boa parte das canções eram estrangeiras, iam do rock a black music, mas chegavam até o Forró. O contato com o hip hop veio a partir das ruas e das festas e, depois de se identificar, Sophia passou a se desenvolver como DJ, mas o ímpeto ainda não era exatamente se profissionalizar. “Ser DJ e assumir isso para os meus pais com 14 anos, nunca, né? ‘Isso é hobby, Sophia, brincadeira’”, relembra.

A habilidade, contudo, passou a ser mais respeitada quando Sophia ganhou os primeiros cachês e comprou as próprias coisas com o dinheiro sendo DJ. “Foi caindo a ficha dos meus pais que seria o meu trabalho”. Autodidata, dedicada e precoce, Sophia descobriu cedo a sensibilidade musical que um dia a levaria a conhecer um de seus ídolos, Tyler, The Creator. No início do mês de junho, a artista estava na França, a convite da Converse Brasil, para tocar em um evento. Nele, encontrou Tyler, que até “promoveu” a festa da DJ, o Baile da Sophia, projeto que focado em mulheres e na música da periferia.

(Foto: Caio Versolato)

As conquistas não foram fáceis, como ela mesma enfatiza. Para começar a ter reconhecimento, Sophia se desdobrou entre estudos, trabalho e os eventos à noite. “Tudo o que eu ganhava, investia nos equipamentos. Às vezes, eu ganhava R$ 50”.

Agora, Sophia integra, pela segunda vez, o line-up do CENA. Na edição pré-pandêmica, em 2020, a artista foi a única DJ a se apresentar no palco principal do festival. Além disso, se apresentou com Jazzy Jeff no Boiler Room, o maior canal de DJs do mundo. Paralelamente aos projetos solo, Sophia também é beatmaker e DJ de Karol Conká, Mc Soffia e Souto MC.

O que você mais gosta de tocar?

Hip hop e R&B, amo uma pistinha assim. Mas hoje em dia eu tenho feito muito mais trapfunk. As pessoas têm me dado muito o pico da festa, lá em cima, e aí Sophia que sustente, né [risos]. Mas eu também me amarro, porque eu amo ver as pessoas dançarem, amo ver como as pessoas saem de casa, se arrumam pra curtir, esquecer todos os problemas e viverem novas experiências.

A festa tem isso, né, e quando o DJ rege essa parada, você ouve um elogio de alguém falando: ‘Nossa, você me fez dançar com uma música que eu nunca sairia de casa para dançar”… Tenho tocado bastante funk também, e algumas pessoas têm um tabu, e isso tem-se quebrado muito. Os estilos estão renovando nas pistas, estão vindo de novo de um jeito que as pessoas curtam. Ser DJ é você saber muito o feeling musical de cada pista.

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