5pra1: Beck

Da explosão criativa na década de 1990 à face mais serena durante o novo milênio, cinco discos para entender (e amar) Beck

 2,501 total views

Fotos: Katy Winn / Invision / AP

A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.

 

Após estrearmos a série com Tom Waits, a segunda edição do 5pra1 navega pela obra de um dos artistas mais produtivos e enigmáticos dos anos 1990: Beck. Quando apareceu para o mundo em 1994, o californiano chegou confundindo sábios com Mellow Gold – primeiro disco lançado por uma grande gravadora que, inclusive, recebeu uma reavaliação da Rolling Stone em um guia lançado em 2004. Da nota 7, dada na época do lançamento, foi para nota 10.

A confusão era compreensível. Beck uniu sua raiz Folk – demonstrada especialmente no ótimo One Foot In The Grave (1994), que não está listado aqui, me desculpem! – a um leque de referências que ia do Soul ao Hip Hop, do Lo-Fi ao Blues, de clichês do Rock Alternativo a clichês da Lounge Music. Tudo de forma desamarrada e livre, mas besuntada por uma habilidade Pop que redundou em uma consistência musical impressionante e arrebatadora. A década seguiu como uma avalanche de ideias e realizações, as quais, em especial no clássico Odelay (1996), o credenciaram definitivamente como uma força underground brilhando no mainstream. Em meio a tantas vozes e influências expressas em sua música – além de uma pimenta de insensatez vinda da cientologia –, ele puxou o breque a partir de Sea Change, em 2002. Do suprassumo do hipsterismo partiu para a sensibilidade e a ternura.

Verdadeiramente eclético, Beck, sem tantas intenções, conta um tanto sobre o que foram os anos 1990 na música Pop e, de quebra, evidencia uma ressaca durante o novo milênio com a qual muita gente pode se identificar. Uma curva da ironia em direção à sinceridade que foi manobrada, ainda, por um imenso talento. Aqui vão cinco discos que ajudam a entender e amar Beck:

Mellow Gold (1994)

É difícil escapar, o mergulho pela obra de Beck tem Mellow Gold como início mais apropriado. O primeiro álbum por uma grande gravadora – ele já havia gravado três registros caseiros e independentes –, além de apresentar o talento do californiano de apenas 23 anos ao mundo, dá preciosos indícios do caleidoscópio de referências que percorreria seu repertório durante a década de 1990. Filho da artista plástica Bibbe Hansen (frequentadora de estúdios e ateliês de Andy Warhol), Beck, embora criado no Arkansas, ficou íntimo da vida “alternativa” jovem, ao se mudar para Nova York e, em seguida, para Los Angeles. A inserção na atmosfera que vai de galerias de arte moderna a shows do Sonic Youth, claro, faz parte de Mellow Gold. Mas aí vem o pulo do gato: é isso e muito mais no meio disso.

Àquela altura, enquanto a cena alternativa seguia em seus passos de sempre, a explosão Grunge mantinha suas últimas labaredas e o Rap já se consolidava como força cultural e mercadológica. Não que houvesse intenção de ser o bastião da bricolagem da primeira metade noventista, mas Beck tratou de arrematar um mosaico de referências e filosofias que estavam a seu redor. E uniu niilismo, acordes e atitude slacker do universo alternativo ao carisma e às rimas do Hip Hop. Investidas psicodélicas, o Folk mais standard possível e toques de Country também entram no pacote.

Produzido com apenas U$$ 200,00, Mellow Gold enuncia um jovem hipster, cheio de ironia e indolência, (mas) com habilidade impressionante para transformar tudo isso em música boa e original. Entre Folks repaginados como “Pay No Mind (Snoozer)” e “Nitemare Hippy Girl”, experiências barulhentas e certeiras – “Fuckin’ With My Head” –, há um imenso e incidental hit que se tornaria um dos hinos dos anos 1990, “Loser”. 10º lugar no Hot 100 da Billboard, o cântico suicida e apático dos perdedores, carregado pelas sagazes rimas de Beck, estourou no mundo todo. Um tiro mirabolante que acertou o alvo, Mellow Gold e seu sucesso suscitaram uma pergunta, tanto para a Beck, quanto para o trem da música dos anos 1990, cuja cabine do maquinista parecia, a partir de 1 de março de 1994, disputada por mais alguém: para onde vamos agora?

Destaques: “Loser”, “Pay No Mind (Snoozer)”, “Beercan”, “Fuckin’ With My Head”

Odelay (1996)

Se a estreia por uma grande gravadora fisgou a atenção de crítica e público, o segundo disco incrementou a ideia de que havia um novo gênio na praça. Em Odelay, Beck novamente constrói a miríade de referências que tornou Mellow Gold tão bom, mas, dessa vez, a eleva a um nível de brilhantismo ainda mais vibrante e único – o resultado faz muita gente concordar que esse é o maior clássico de sua discografia. A habilidade de unir ideias tão díspares em um mosaico coeso e de sons contagiantes teve a ajuda fundamental dos Dust Brothers – e de Mario Caldato Jr – que, não por acaso, não saíam da toca desde Paul’s Boutique (1989), dos Beastie Boys, provavelmente maior disco-celebração ao sample da história. A orquestra é diversa: samples de Them tocando James Brown (“Devil’s Haircut”); linhas de baixo à la Beatles (“New Pollution”); Rap alto astral que poderia entrar no repertório de qualquer representante do Native Tongues (“Where It’s At” e “Hotwax”); Folk Country que navega por uma modernidade vintage (“Lord Only Knows” e “Ramshackle”); e até referências à Bossa Nova, inclusive com citação da gravação de “Desafinado”, feita por Laurindo de Almeida (“Readymade”). Indicado ao Grammy de Álbum do Ano e ganhador do gramofone de Melhor Álbum Alternativo, Odelay, mesmo em meio à complexa e pretensiosa produção, é altamente cantarolável e dançante (já vi gente chamando o disco de “uma festa existencialista”). E ainda livrou Beck de qualquer purgatório do one hit wonder, depois do sucesso estrondoso de “Loser”.

Com mais duas milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos, o disco também foi febre no Brasil e rendeu uma história curiosa e memorável do jornalismo musical brasileiro. Em 1996, Zeca Camargo – à época, repórter-resenhista-radar-de-novidades da Bizz – enviou para Sérgio Martins, o então editor da revista, um fax cujo início era o seguinte: “Sérgio, não vai dar para disfarçar: Odelay é o melhor disco do ano”. Na sequência, Zeca, além de dizer que Beck, ao ser tão original, acabou com a bobajada que rondava o Rock Alternativo, comparou o trabalho a 3 Feet High and Rising, clássico do De La Soul, e disse que era “difícil resistir à tentação de não evocar Sgt. Peppers”. E para terminar listou 10 motivos que tornavam Odelay uma obra prima. Sérgio, muito sagazmente, publicou na revista o conteúdo do próprio fax no lugar da resenha, acompanhado de uma nota 10.

E Odelay é mesmo tudo isso. É excêntrico de verdade, eclético de verdade. E bom demais, de verdade. Um disco essencial dos anos 1990 e de sempre.

Destaques: “Devil’s Haircut” , “Hotwax”, “The New Pollution”, “Lord Only Know”,  “Where It’s At”

Midnite Vultures (1999)

Essa é provavelmente a escolha menos convencional da lista. Não porque o excelente Midnite Vultures não mereça estar entre os selecionados aqui, mas, sim, porque sua aparição faz com que alguns trabalhos queridinhos dos fãs – como Mutations (1998), Guero (2005) e Modern Guilt (2008) – fiquem de fora. Mas é por uma boa causa: Midnite Vultures é um álbum sem paralelos na discografia de Beck. Não se parece com seus antecessores e, sem dúvida, não guarda semelhanças significativas com o que veio depois. É uma espécie de despedida da primeira fase de Beck – a fase amalucada, eufórica e genial dos anos 1990.

“A party record with dumb sounds, dumb songs and dumb lyrics”. Foi assim que, após Mutations, Beck definiu como seria seu próximo álbum. Isso pode até ter algum fundo de verdade, mas me parece muito mais uma ironiazinha de um ultimate hipster. Ainda assim, sob tutela mais uma dos Dust Brothers, Midnite Vultures navega entre a homenagem e a paródia. Entre o revivalismo e uma releitura caricatural. O resultado é: uma fusão mágica e dançante do Funk Soul dos anos 1970 – em especial aqueles ecoados sob o selo da célebre Stax Records –, com referências ao G-funk de Dr. Dre e à fase de Bowie em Young Americans (1975). Alguma coisa também entre Kraftwerk e Roxy Music. E, especialmente, Prince.

Tudo se inicia com “Sexx Laws”, uma busca, como o refrão chiclete diz, pela lógica das leis do sexo, enquanto um time potente de metais se junta a uma percussão de Drum and Bass. A festa continua a todo vapor com a lisérgica e hipnótica “Nicotine & Gravy”, no ótimo exemplo da união entre guitarras & pistas de danças em “Mixed Bizness” e em “Hollywood Freaks”, faixa que nos faz imaginar como seria o David Byrne gravando algo com o Dr. Dre da época de The Chronic – e ao mesmo tempo lembra coisas como The Lonely Island? Um grito no refrão realmente parece o Andy Samberg. Se as homenagens/releituras/caricaturas do Funk e do Hip Hop aparecem nos instrumentais, as recordações de Prince circulam – para além dos falsetes da fantástica “Debra” ou de “Peaches And Cream” – pela proposta do álbum como um todo. Uma experiência musical que evoca, de maneira irônica ou não, sensualidade e hedonismo, mas também mostra a pretensão que resulta no êxito. A loucura certeira de quem sabe exatamente o que está fazendo. Ainda há espaço para a honestidade de “Beautiful Way”, um folk-beatleniano dos bons e faixa mais próxima de algum indício do que Beck aprontaria no novo milênio. Pastiche genial ou uma aventura imersiva por influências, o totalmente desimpedido Midnite Vultures persiste como o provável disco que mais faz dar saudade do velho Beck…

Destaques: “Sexx Laws”, “Nicotine & Gravy”, “Beautiful Way”, “Debra”

Sea Change (2002)

É verdade que os sons e referências de Beck se transmutam com intensidade a cada disco. Mas a mudança da festa sexy-sarcástica de Midnite Vultures para Sea Change talvez seja a mais marcante de toda sua carreira. Após os variados personagens que encarnou durante os anos 1990, ele arrancou os disfarces e sossegou apenas no corpo de Beck Hansen – e a curva tem a ver com o término do relacionamento de nove anos com a estilista Leigh Lemon. Ao interpretar si mesmo, Beck, no lugar de uma ebulição de influências e de exercícios de imersão imprevisíveis pelos mais variados gêneros, acomodou-se em algo mais determinado, decidido e menos experimental. Em vez de pretensão, ousadia e ironia, temos sinceridade. E uma – praticamente inédita até então – vulnerabilidade.

Nem o sempre atrevido e acrobático (e genial) Nigel Godrich impediu que Sea Change fosse calcado no Folk e em singelezas ternas que fazem o coração esquentar. Ouvimos muitos ecos de Neil Young – em especial, de Harvest (1972) – e Nick Drake, mas a resignação nas letras e a beleza nos arranjos dão espaço para outras influências reverberarem durante a saga melancólica de Beck. “Paper Tiger” e “Lonesome Tears”, com a alternância entre o Lo-Fi e o punch orquestral, faz lembrar Histoire de Melody Nelson (1971), de Serge Gainsbourg; “Sunday Sun” bebe da psicodelia britânica de The Zombies ou Syd Barrett; e “Little One” remete a linhas melódicas algo cobainianas. O domínio do Pop, sempre demonstrado por ele até então, continua presente, dessa vez, em tons mais tristonhos – e nem por isso menos arrebatadores – como na lindíssima “Lost Cause”, um dos grandes êxitos do disco, ou em “The Golde Age”.

A Rolling Stone deu 5 estrelas, chamou de “melhor álbum que Beck já fez” e o comparou a Blood On The Tracks (1975), clássico de Bob Dylan. E o disco é mesmo o preferido de muitos fãs por aí. Ainda que o associem a uma obra sobre términos de relacionamentos, Sea Change se tornou um daqueles discos perfeitos para fases ruins e é comum encontrar comentários pela internet dizendo que o trabalho foi de grande ajuda a alguém. Uma coisa é certa: foi durante uma crise existencial que Beck acabou sendo mais tocante. A fase mais cínica e blasé, em que se auto intitular um “perdedor” pode até ser legal, ou a época de festinhas underground, nas quais bastavam “two turntables and a microphone”, haviam ficado para trás

O papo é outro. Sea Change é uma autoanálise cheia de sugestões e pequenas pistas, enquanto tudo dentro dele parece, de fato, ser resolucionado em silêncio, com mais calma do que nunca. E o curioso é que a abordagem mais pé no chão (e a escolha sintomática por um título tão escancarado para o que o disco expressa), embora não combine tanto com o caráter enigmática dos anos 1990, de alguma maneira, incrementou ainda mais o mistério em seu entorno. Beck Hansen nunca havia soado tão humano.

Destaques: “Paper Tiger”, “Lost Cause”, “Sunday Sun”, “The Golden Age”

Morning Phase (2014)

Quando, em 1994, Beck apareceu para o mundo, descolado e desinteressado (mas interessantíssimo), ele tinha apenas 23 anos. Um jovem rapaz talentoso e cheio de força criativa a ser articulada. Em Sea Change, ele saboreou uma espécie de crise dos 30 anos – impulsionada por uma grande desilusão amorosa –, e o disco se tornou algo como um ponto de cisão. É verdade que os prestigiados Guero (2005) e The Information (2006) ainda trazem certo ecletismo e explorações sonoras que caracterizam Beck, mas, durante a década de 2000, já era difícil encarnar a ideia de Bastião do Experimentalismo ou de Herói de da Música Alternativa, por um simples fato: ele já não era mais isso. Àquela altura, Beck havia se tornado algo bem mais próximo de um ícone e um farol muito bem edificado da música Pop. Embebedar-se daquele espírito noventista poderia significar andar na corda bamba entre a caricatura e o meme do Steve Buscemi em 30 Rock (“How do you do, fellow kids?”). Então, espertamente, após Modern Guilt (2008), Beck, tão prolífico e inquieto, sumiu.

Foram seis anos longe dos holofotes, produzindo para artistas como Charlotte Gainsbourg, Thurston Moore e Stephen Malkmus, além de uma elogiada contribuição para a trilha sonora de Scott Pilgrim Contra o Mundo. O aguardado retorno com um disco de inéditas se deu em Morning Phase, segundo ele, um projeto “gêmeo” de Sea Change. Além dos músicos que trabalharam com ele em 2002 – incluindo seu pai, David Campbell, encarregado dos arranjos orquestrais –, a volta de Beck similarmente se escora na simplicidade e ternura do Folk, enquanto pincela toques magistrais, em especial de cordas. A dobradinha de abertura, “Cycle” e “Morning”, é uma versão mais grandiosa de Velvet Underground, com Beck questionando se, durante aquela manhã, é possível começar tudo de novo. “Heart Is A Drum” e “Turn Away” modernizam o Folk mais padrão e colocam Beck tranquilamente entre modernosos como Fleet Foxes ou até Mumford & Sons; enquanto “Blue Moon”, carro-chefe e grande canção do repertório, mostra que as melodias continuam afiadas e os ganchos potentes. A orquestração atmosférica e soturna invade “Wave” e se mistura harmoniosamente (apenas) à voz de Beck e “Blackbird Chain” é um delicioso feijão com arroz de Folk Rock – com toques precisos de pianos, guitarras e arranjos do papai. Tudo termina com “Waking Light”, um belo fechamento que parece inspirado em Pink Floyd.

Pai de dois filhos e com 44 anos de idade na época – em 8 de julho de 2020, vira cinquentão –, Beck, em Morning Phase, musicou, como não poderia deixar de ser, sua face serena e amanhecida. Como o título anuncia com a mesma clareza de metáfora (e imprecisão de significado) de seu disco-irmão, um estágio inicial. As comparações com Sea Change, claro, foram inevitáveis, mas não há como negar: foi um retorno triunfal. Além de figurar em diversas listas de melhores do ano, acumular a média 81 entre 46 críticas registradas no Metacritic, Morning Phase bateu discos de Beyoncé, Pharrell Ed Sheeran e Sam Smith e levou o Grammy de Álbum do Ano. Um gramofone entregue pelas mãos de Prince.

Destaques: “Blue Moon”, “Cycle/Morning”, “Heart Is A Drum” e “Waking Light”

 2,502 total views

ARTISTA: Beck