A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.
Poucas artistas foram tão centrais para a reorganização simbólica do samba nas décadas de 1970 e 1980 quanto Beth Carvalho. Carioca da Tijuca, branca, de classe média e formada no violão por mestres da bossa nova (Elizeth Cardoso e Silvio Caldas eram visitas frequentes na casa de seus pais), ela fez o caminho inverso do esperado e se consagrou como uma das maiores intérpretes do samba dos morros, botecos e quadras. Mais do que cantar o samba, Beth escolheu se implicar nele: ajudou a revelar gerações inteiras de compositores, colou no chão da fábrica do pagode e transformou seus discos em documentos sonoros de um Brasil urbano, negro e periférico. Com isso, virou madrinha de uma linhagem — e também uma espécie de embaixadora informal de um país que quase nunca tem voz nas esferas hegemônicas da cultura.
Essa guinada artística foi também uma escolha estética, política e afetiva. Beth viu no samba não só uma forma musical, mas um lugar de pertencimento e escuta, onde a tradição e o improviso, a tristeza e a festa, convivem como forças complementares. Seus melhores álbuns — dos anos Tapecar aos registros ao vivo — revelam uma artista comprometida com o ofício de cantar como quem documenta e reverencia. Neste 5pra1, revisitamos cinco discos fundamentais dessa trajetória para entender como Beth se tornou não apenas uma grande intérprete, mas um elo essencial entre o passado e o futuro do samba.
Canto Por um Novo Dia (1973)
Canto Por um Novo Dia pode ser considerado o primeiro disco de Beth Carvalho — embora não o seja. Oito anos antes deste LP, Elizabeth Santos Leal de Carvalho estreou no mercado fonográfico em 1965 com um compacto de duas músicas bossa novistas arranjadas por Eumir Deodato. Em 1967, gravou um álbum como vocalista do grupo 3D. E depois, em 1969, ficou conhecida em todo Brasil ao defender “Andança” no III Festival Internacional da Canção. Mas foi em Canto Por um Novo Dia que ela rompeu com a bossa nova da Zona Sul e abraçou de vez o samba dos morros, que a consagrou na história da música brasileira e que mais tarde lhe renderia o epíteto de enamorada do sambão e madrinha do samba. Canto foi o primeiro passo de Beth que conhecemos.
Mas para dar essa guinada na carreira, Beth teve que dar um salto de fé e coragem. Desde 1971 ela tentava gravar um álbum de samba, mas a sua então gravadora Odeon preferia apostar em Clara Nunes para o posto. Beth então decidiu romper com a gravadora multinacional, fechando com a pequena gravadora nacional Tapecar.
Arranjado pelo pianista Cesar Camargo Mariano, o álbum é uma carta de amor genuíno ao samba — incluindo até duas músicas dedicadas à exaltação da de duas lendas do gênero, “Clementina de Jesus” e “Homenagem a Nelson Cavaquinho”. O repertório é marcado por tons de uma sublime melancolia, pérolas como “Hora de Chorar”, que abre o disco com maestria, e “Velhice da Porta Bandeira”, uma crônica da renúncia de uma porta bandeira de escola de samba com uma pungente reflexão sobre a efemeridade da vida. Ainda há espaço para o frevo pernambucano “Evocação Nr. 1”. Mas o ápice é a gravação de “Folhas Secas”, música de Nelson Cavaquinho, que se tornaria um dos maiores pilares para a continuidade de Beth Carvalho no universo do samba — daqui para frente, praticamente todos seus discos contariam com ao menos uma composição do mestre.
“Folhas Secas”, por sinal, foi motivo de uma rixa histórica entre Beth e Elis Regina. Nelson cedeu a música à Beth, mas Cesar Camargo Mariano, que era marido de Elis, fez a música chegar aos ouvidos de sua esposa. Em certo momento, Roberto Menescal, que era diretor artístico da Phillips, a gravadora de Elis, ouviu a música e decidiu que a faixa seria incluída no próximo LP da cantora gaúcha. Beth soube da traição a tempo de pedir à Tapecar para lançar no mercado um compacto com a música, mas a multinacional Phillips tinha mais agilidade e poder no mercado. Depois disso, Beth rompeu relações com Cesar Camargo Mariano e nunca mais falou com Elis. Mas tretas a parte, Canto Por Um Novo Dia é um diamante muitas vezes esquecido da discografia da carioca.
Destaques: “Folhas Secas”, “Hora de Chorar”, “Velhice da Porta Bandeira”
Nos Botequins da Vida (1977)
Beth Carvalho ainda estava em turnê com Nelson Cavaquinho pelo Projeto Pixinguinha quando o LP Nos Botequins da Vida chegou às lojas em setembro de 1977. Mas, curiosamente, Nelson, um dos maiores ídolos de Beth, não tocou em nenhuma faixa do álbum — ainda que tivesse aparecido no estúdio “para levantar o astral”. Aquele disco era dedicado a outro bamba: Horondino José da Silva, conhecido como Dino 7 Cordas, “mestre no violão de 7 cordas, amigo prá ninguém botar defeito e, principalmente, boêmio que muito soube aprender nos botequins da vida”, como descreveu a cantora no encarte.
Os botequins do título não são evocados por acaso. Para a cantora, eles eram um reduto de luta e esperança. “O botequim é o que nos resta”, declarou ao Jornal do Brasil. Comparando o novo disco com Mundo Melhor (1976), seu trabalho do ano anterior, ela afirmou: “As coisas de certo modo estão piores. Não há sentido em falar de mundo melhor. Minha visão agora é mais realista, o botequim é mais palpável”.
Fiel escudeiro da madrinha do samba, o produtor Rildo Hora estava visitando compositores nos morros do Rio de Janeiro quando Monarco o levou à casa de Chico Santana, um talento da Portela que ainda não havia sido gravado por nenhum cantor. Chico ia mostrando suas músicas, mas, enciumado de sua criação, recusava-se a mostrar a sua joia mais preciosa. Após muita insistência do parceiro portelense Monarco, ele enfim cantou “Saco de Feijão” para Rildo, que ficou tão impressionado a ponto de ligar imediatamente para Beth: “Estou com teu próximo sucesso aqui!”.
Com um refrão contagiante sobre as agruras de viver sob a inflação da ditadura militar, “Saco de Feijão” deu o tom do disco, que fazia uma crônica da vida cotidiana em forma de conversa de bar. “Dinheiro Não Há (Lá Vem Ela Chorando)”, um dos primeiros sambas-enredo da Portela a fazer sucesso nas rádios, era mais crônica da vida dura dos salários mínimos insuficientes. “Olho por Olho”, “Deus Não Castiga Ninguém”, “Vingança” e “Desengano” refletem sobre o destino, justiça e punição sob diferentes perspectivas. E para completar, o álbum encerra com uma versão delicada de “O Mundo é um Moinho”, de Cartola.
Em apenas quatro semanas, Nos Botequins da Vida chegou ao topo da parada de sucessos oficial da Pandisc, divulgada pelo Jornal do Brasil, consagrando Beth como um grande sucesso do samba — para a alegria da cantora, que escolheu o samba para “conversar com o povo”, como ela mesma descreveu. “Sem paternalismo, fico muito feliz quando o povo me consagra, me elege, porque assim sei que estou levando a ele um sentimento verdadeiro de sambista, apesar de ser branca, da classe média e da Zona Sul”, afirmou, comentando sobre o impacto do álbum.
Destaques: “Saco de Feijão”, “Vingança”, “Desengano”, “Se Você Me Ouvisse”
De Pé no Chão (1978)
Numa quarta-feira qualquer, o telefone de Beth Carvalho tocou. Era Alcir Portella, capitão do célebre time do Vasco da Gama que havia sido campeão brasileiro em 1974, convidando a amiga da Zona Sul a ir conhecer um pagode em Ramos, do outro lado do Rio. Juntos, foram ao Cacique de Ramos — e a partir daí a música brasileira jamais seria a mesma.
O Cacique de Ramos é um bloco de carnaval que surgiu formalmente em 1961. Mas estava acontecendo ali, toda quarta-feira, uma roda de samba especial. O pagode começou como uma pelada e foi reunindo vários sambistas, que não encontravam mais espaço para mostrar suas composições nas escolas de samba, então muito focadas nos sambas-enredo. Entre esses jovens sambistas estavam os membros fundadores do grupo Fundo de Quintal e outros chegados, como Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Mauro Diniz e outros tantos.
E além das composições, havia uma nova sonoridade, um novo modo de tocar (com as mãos, sem baquetas) e até novos instrumentos criados pela turma. “O que fez a diferença era o tantã da forma que era tocado pelo Sereno, o repique de mão que o Ubirany criou e o banjo — não aquele banjo que o americano usa, mas o banjo com braço de cavaquinho que o Almir Guineto inventou”, narrou Beth ao Canal Brasil. O resultado da vivência de um ano batendo ponto no Cacique toda quarta-feira foi De Pé no Chão, que teve a turma do Cacique (ou melhor, o embrião do Fundo de Quintal) como músicos e um repertório combinando os contemporâneos do pagode com músicas da velha guarda.
Apoiado no eterno hino carnavalesco “Vou Festejar”, o álbum foi um arrasa-quarteirão em todo o país e revigorou o bloco Cacique de Ramos, que reuniu 10 mil pessoas no desfile daquele ano. “Marcando Bobeira” e “Goiabada Cascão” são outras pérolas do swing único e revolucionário da turma do Cacique. Mas Beth também brilha em momentos mais contemplativos, como “Linda Borboleta”.
Mais do que um sucesso imediato, De Pé no Chão deu à Beth o título de madrinha do samba e foi instantaneamente reconhecido como um marco da música popular. Um dos críticos musicais mais mordazes e rigorosos do país, José Ramos Tinhorão ficou fascinado pelo LP. “Não apenas em matéria de escolha de repertório, mas de tratamento musical, no campo dos arranjos e da cozinha rítmica, o disco de Beth Carvalho pode realmente ser ouvido como um dos trabalhos mais bem-sucedidos dos últimos tempos no que se refere à gravação de sambas”, sentenciou.
Destaques: “Vou Festejar”, “Linda Borboleta”, “Goiabada Cascão”, “Ô Isaura”
Na Fonte (1981)
Em 1981, Gilberto Gil entrou para a história da música brasileira com a gigantesca turnê de Luar, que teve 103 shows no Brasil e exterior. No mesmo ano, a turnê de Ney Matogrosso teve 700 mil espectadores, consolidando-o como superastro no país. Apesar disso, o mercado fonográfico vivia uma crise aguda, provocada por movimentações empresariais das próprias gravadoras combinadas a alta inflação e recessão — era o início da chamada “década perdida”, marcada pela instabilidade econômica e transição política.
Um caso emblemático foi o de Chico Buarque, que saiu brigado da gravadora Polygram para Ariola e viu sua nova empresa ser comprada pela inimiga. Mas o principal afetado, claro, foi o público. “A queda de 50% no mercado que se considerava o quinto do mundo ocasionou igual volume de campanhas e iniciativas barateadoras, nem sempre vantajosas para o desvalido consumidor, hoje condenado a trocar um barão por um LP”, relatou Tárik de Souza no Jornal do Brasil.
Mas Beth Carvalho via as coisas de outro modo. “A crise das gravadoras é, sobretudo, uma crise delas”, analisou a cantora em entrevista ao Jornal do Brasil. “Hoje, sem um modismo de rock ou discoteca, as gravadoras estão vendendo muito menos música estrangeira, e o consumidor brasileiro, atingido pela sua crise, será sem dúvida muito mais seletivo. Há uma crise das gravadoras, sim, mas não há uma crise nossa, do artista brasileiro, que sem dúvida continua vendendo. O cara apaixonado por um cantor certamente deixará de comprar o entulho que as multinacionais querem impingir”.
Quando Beth Carvalho entrou em estúdio para gravar seu lançamento anual, o disco levava o título provisório de Haja Coração. Foi um verso de “Dança da Solidão” (“Apesar de tudo, existe uma fonte de água pura / Quem beber daquela água não terá mais amargura”), música de Paulinho da Viola que integra o repertório do álbum, que fez o LP virar Na Fonte. O título faz jus ao espírito do álbum, que mergulha na alma da música popular, combinando músicas da velha guarda do samba (de compositores como Argemiro Patrocínio e Casquinha, autores da sublime “A Chuva Cai Lá Fora”, e Nelson Cavaquinho, que aparece dando uma mini entrevista sobre seu inigualável estilo de tocar violão na inédita “Deus me Fez Assim”) aos contemporâneos Martinho da Vila e a turma do Cacique. “Virada”, composta por Noca da Portela, tornou-se não apenas um dos hits do álbum como música hino das Diretas Já. E ainda há uma grata surpresa: “Alpendre da Saudade”, uma toada sertaneja de João Pacífico e Edmundo Souto Neto, que encerra o álbum. “O fundamental é minha ideologia cultural: cantar música brasileira é um ato político”, cravou a madrinha do samba.
Destaques: “Deus Me Fez Assim”, “É, Pois É”, “Morrendo de Saudade”, “Tendência”
Beth Carvalho Canta o Samba de São Paulo (1993)
Irritado com o público que conversava em voz alta e atrapalhava o show de Johnny Alf na Boate Cave, em São Paulo, Vinicius de Moraes teria proferido uma frase que entrou para a história: “São Paulo é o túmulo do samba”. Mas Beth Carvalho não acreditava no folclore do diagnóstico atribuído ao poeta. “Não acredito que ele tenha dito isso, mesmo porque é uma frase de mau gosto. São Paulo tem grandes sambistas e características próprias”, contou ela à Folha de S. Paulo às vésperas do show de lançamento de Beth Carvalho Canta o Samba de São Paulo, seu 25º álbum em 25 anos de carreira, gravado ao vivo.
Nos anos 1990, Beth teve de se adequar a um novo mercado fonográfico. Este foi o início de uma fase pautada por regravações de sucessos e discos ao vivo — durante toda essa década, seu único álbum de inéditas foi Brasileira da Gema (1996). Mas Canta o Samba de São Paulo destaca-se como um álbum com identidade forte.
Para Beth, o samba de paulistas como Geraldo Filme, Sílvio Modesto, Paulo Vanzolini e Adoniran Barbosa tinha um ritmo mais lento e uma temática mais melancólica, por vezes até trágica ou tragicômica. “É um samba mais urbano e disperso do que o do Rio. Os negros paulistanos de raiz trabalharam na roça e guardam características rurais”, explicou. A sua interpretação delicada dos versos resignados de “Meu Lirismo” e o seu lamento da visceral crônica da desigualdade social “Despejo na Favela”, combinadas com o calor efusivo de “Tradição” e “À Luta, Vai-Vai”, mostram mais uma vez porque Beth Carvalho entrou no rol das maiores cantoras da música brasileira, capaz de caminhar com esmero por diversas nuances sentimentais.
Destaques: “Meu Lirismo”, “Despejo na Favela”, “Tradição”
![]()
