5pra1: Cat Power

No embalo do anúncio de “Covers”, previsto para o início de 2022, selecionamos cinco trabalhos que expressam a personalidade e a força de (re)interpretação de Chan Marshall

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Fotos: Eliot Lee Hazel

A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.

 

Cat Power anunciou um novo trabalho para 14 de janeiro de 2022: Covers contará com interpretações de 12 canções de outros artistas. No início de outubro, Chan Marshall lançou a sua versão de “Bad Religion”, de Frank Ocean, e “A Pair Of Brown Eyes”, da banda The Pogues. A artista assina a produção do álbum, que apresenta versões de nomes como Lana Del Rey (“White Mustang”), Iggy Pop (“Endless Sea”), Jackson Browne (“These Days”), Nick Cave (“I Had a Dream Joe”) e The Replacements (“Here Comes A Regular”).

O trabalho será o seu 11º disco, além de fechar a trilogia de covers, que conta também com Jukebox (2008) e The Covers Record (2000). A escolha das músicas que Chan Marshall irá se debruçar faz parte de um processo totalmente pessoal e íntimo, desenvolvido a partir de experimentações despretensiosas, como diz o texto de apresentação de Covers.

A ideia de se aventurar por “Bad Religion” surgiu na turnê de 2018, quando ela revisitou os acordes de “In Your Face” – de Wanderer – para cantar os versos de Frank Ocean. “Essa música estava me deixando para baixo, então peguei a letra de ‘Bad Religion’, em vez de ficar super deprimida. Para mim, cantar covers é uma maneira agradável de fazer algo natural”, explicou em nota à imprensa.

A última faixa do disco, “I’ll Be Seeing You”, de Billie Holiday, é uma homenagem ao amigo e colaborador Philippe Zdar, produtor francês responsável pelo projeto Cassius, e falecido em 2019. “Quando as pessoas que você ama são tiradas de você, sempre há uma música que guarda a memória delas em sua mente. É uma conversa com as pessoas do outro lado e é muito importante, para mim, alcançar as pessoas dessa forma”, diz.

O anúncio de Covers foi celebrado pelos fãs que aguardavam novidades desde 2018. Entretanto, no meio tempo, Cat Power apareceu na trilha sonora do documentário Echo in the Canyon (2019), ao lado de nomes como Fiona Apple e Neil Young. E no ano passado, lançou um cover de Cassius, “Toop Toop”, outra homenagem ao amigo e colaborador. Algo inegável em todos os projetos de Chan Marshall é que a artista imprime a sua identidade a qualquer canção que arriscar interpretar – ela encontra um jeito de torná-la única. Como influência, cita a infância no sul dos Estados Unidos, onde cresceu frequentando a igreja batista com a avó e consequentemente a Soul Music. “Hoje em dia, a ideia de fazer um cover é sobre criar alguma novidade ou truque de marketing. Mas na verdade, interpretar uma música faz parte da tradição. Todo mundo cantou a música de outras pessoas. Faz parte da arte”, disse em entrevista à revista Interview.

No embalo do anúncio do novo Covers, selecionamos cinco discos de Cat Power lançados após a trinca inicial (e excelente) do fim dos anos 1990. Assim, não incluímos aquele que é considerado por muitos seu clássico, Moon Pix (1998), o ápice da fase iniciada alguns anos antes, quando Chan teve contato com a cena de Rock alternativo de Nova York. Aqui, os discos expressam a Cat Power do novo milênio, pós-holofotes-do-Indie, quando sua personalidade única encontra vazão, também, a partir da capacidade de reimaginar criações a de outros artistas, em uma união entre singeleza Pop e experimentação. Uma mistura que seguiu influenciando novas gerações de artistas, de Angel Olsen a Mitski, de Lana Del Rey a Florence + The Machine.

The Covers Record (2000)

Nascida em Atlanta, Chan Marshall cresceu entre os estados da Carolina do Norte e Tennessee, e começou a lançar músicas em Nova York. Os seus dois primeiros trabalhos foram gravados em 1994 em sessões com Steve Shelley e Tim Foljahn – o EP Dear Sir (1995) e o disco Myra Lee (1996), que conta com covers Tom Waits e This Kind of Punishment. Em What Would The Community Think (1996), o primeiro pela Matador, há “Bathysphere”, do Smogs, e, na aclamada sequência, Moon Pix (1998), ela canta “Moonshiner”, canção Folk interpretada por Bob Dylan no Passado. Após essa rápida introdução, vale a pena mencionar que ao longo de toda a sua carreira, Cat Power batalhou com questões de saúde mental, então o sucesso de Moon Pix acabou causando um certo desconforto na artista e um estranhamento com os holofotes do show biz – mesmo que do universo Indie. A sua resposta foi revisitar o seu acervo de músicas preferidas para criar The Covers Record: “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones, “Sea of Love”, de Phil Phillips, lançada em 1959, “Troubled Waters”, de Duke Ellington, “Kingsport Town”, de Bob Dylan, “I Found a Reason”, do Velvet Underground, entre outras. Ela até incluiu uma nova versão de “In This Hole”, sua canção lançada no disco What Would The Community Think. O disco completou 20 anos, mas continua cativando ouvintes encantados com a magia da artista de reinventar (velhas) canções sob uma linguagem única, envolta em intensas camadas de voz, guitarra e piano.

Destaques: “Troubled Waters”, “Sweedeedee”, “Red Apples” e “Sea of Love”

 

You Are Free (2003)

O primeiro trabalho autoral em cinco anos contou com colaboradores estrelados: Dave Grohl na bateria e baixo de algumas músicas, e Eddie Vedder assumindo um backing vocal aqui e ali. O trabalho foi produzido por Cat Power, e gravado por Adam Kasper ao longo de um ano em diferentes lugares. Ao todo, eram mais de 40 músicas para selecionar 17 e fechar o disco. “A parte difícil foi finalizar porque a gente tinha muita liberdade”, lembrou a artista em entrevista à Pitchfork em 2003. Além de fazer trabalhos para Pearl Jam e Foo Fighters, Adam Kasper produz trabalhos para grandes empresas, então contava com estúdios e equipamentos de ponta. “Amplificadores incríveis, guitarras incríveis, microfones incríveis – a gente chegou a lugares orgânicos e interessantes. Mas eu sentia que estava tudo fora de lugar porque eu normalmente não faço assim. Coloco o amp no mesmo lugar e gravo o disco em três dias”, comparou Chan Marshall.

Destaques: “Free”, “Speak For Me”, “He War” e “Maybe Not”

Jukebox (2008)

A primeira década do novo milênio foi marcado por altos e baixos na carreira da artista. Ao mesmo tempo em que havia acabado de lançar um disco ótimo, The Greatest, em 2006, gravado em Memphis com membros da banda de Al Green, ela não conseguiu tocar as músicas em shows porque precisou abandonar os palcos para cuidar de uma depressão profunda. No ano seguinte, enquanto se preparava para voltar às apresentações, ensaiou alguns covers que sabia que queria tocar nos shows. “Quando estou no palco e não tenho mais músicas, faço covers por diversão. Preciso amar a música”, disse na época. O conceito de Jukebox era gravar um disco ao vivo de faixas do seu repertório, entre elas “Blue”, de Joni Mitchell, “Don’t Explain”, de Billie Holiday, e “I Believe in You”, do Bob Dylan. Em sua coluna no jornal The Guardian, Alan McGee questiona se Cat Power é uma artista torturada demais, e escreveu que “neste verão de 2008, vamos ver a artista acompanhada de sua banda maravilhosa se apresentar nos festivais. No final, ela, de uma nova iorquina notívaga, terá se transformado em uma superstar do soul sulista”.

Destaques:  “Ramblin’ (Wo)man”, “Metal Heart”, “I Believe In You” e “Blue”

 

Sun (2012)

Já haviam se passado seis anos quando Chan Marshall decidiu lançar o seu disco mais vibrante até então. Gravado entre Silver Lake, Malibu, Miami e Paris, Sun é o primeiro trabalho a contar com sintetizadores e Auto Tune e é brilhante em sua honestidade e produção musical, assinada pela própria artista. O processo de mixagem ficou nas mãos de Philippe Zdar – ele já havia colaborado com nomes como Kindness, Hot Chip, Justice e Phoenix. Em “Nothing’ But Time”, há vocais de apoio de Iggy Pop e uma referência a “Heroes”, de David Bowie. As guitarras estão lá, ao passo que a artista acena ao R&B contemporâneo, ela declarou em diversas ocasiões ser uma grande fã de Mary J.Blige.

 

Wanderer (2018)

No tempo entre Sun e Wanderer, Cat Power deu à luz o primeiro filho, se instalou em Miami e gravou 11 músicas. Quem mixou o trabalho foi Rob Schnapf, produtor de Elliott Smith, e esse é o seu primeiro trabalho com um empresário – Andy Slater, ex-presidente da Capitol Records. O que rolou na época do lançamento: esse foi o primeiro disco lançado pela gravadora Domino e, desde 1996, ela trabalhaa com a Matador. Em entrevista ao New York Times, Chan Marshall chegou a dizer que os executivos colocaram um disco da Adele para ela seguir como referência. O resultado, como a imprensa internacional apontou, é que ela nunca soou tanto quanto uma cantora de Folk. São 11 canções, muitas vezes na voz, guitarra ou piano, que trazem um resgate de suas raízes sulistas e a herança da música local. A jornalista Amanda Petrusch, da New Yorker, amarrou o trabalho como: “aquela condição complexa de deixar a casa para passar o resto da vida assombrado pela força invisível que tenta te puxar de volta”. O trabalho conta com um feat de Lana Del Rey em “Woman” e um cover de “Stay”, de Mikky Ekko, imortalizada na voz de Rihanna.

Destaques: “You Get”, “Black”, “Woman”, “Me Voy”

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ARTISTA: Cat Power

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