5pra1: JAY-Z

Do incontestável auge na virada do milênio ao álbum mais humano da carreira, cinco discos de um dos maiores rappers de todos os tempos

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Fotos: Jon Super

A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.

 

“Now, who’s the best MC?” – é definitivamente uma discussão apreciada pelos fãs mais fervorosos do esporte Rap. Desde que os MCs passaram a se diferenciar cada vez mais e encarnar personalidades – e habilidades – únicas, muitos nomes são ventilados para as posições mais altas e existe um específico que invariavelmente acaba aprecendo em pódios por aí: o God MC, him, Jay Hova. No fim dos anos 1980, o jovem Shawn Carter começara a migrar das esquinas para os palcos como Hypeman de Jaz-O. O tempo que JAY-Z passou no tráfico de drogas foi quando ele desenvolveu um talento que o definiria para sempre: o de compor letras mentalmente, já que o perigo da atividade no crime não o permitia distrações como parar para escrever no bloco de notas. Hoje, JAY-Z é o único rapper presente no Songwriters Hall of Fame. Em 1995, ele fundou a Roc-a-fella Records, gravadora independente que surgiu após receber negativas de labels já estabelecidas e, desde então, seu império não parou de expandir – Brooklyn Nets, marcas de champanhe e conhaque, Tidal e até um tom de azul registrado com o nome da filha. E arrematando tudo isso, sua relação com Beyoncé não redunda apenas em uma das uniões mais poderosas e influentes do show biz, mas em um dos casais mais marcantes da história da cultura pop.

A tentativa aqui é de encontrar uma intersecção entre os melhores discos de JAY-Z e aqueles que ajudam a contar a história com mais abrangência. Nessa missão, discos como Vol. 2 … Hard Knock Life (1998) que o próprio Jigga coloca no hall de seus clássicos tiveram de ficar de fora. No entanto, se após esse texto você ainda quer se aprofundar em matéria de Shawn Carter, é recomendável dar uma passadinha por lá e se dar o privilégio de ouvir músicas como “Hard Knock Life (Ghetto Anthem)” e “You Must Love Me”, do Vol. 1 da série. Watch The Throne (2011), aclamado por crítica e público, também fica de fora aqui por simplesmente não ser justo com a carreira de Hov. Apesar de ser realmente um grande disco, que resultou em uma turnê histórica e megalomaníaca com dois titãs do rap, Watch The Throne é mais um álbum de Kanye West com algumas rimas de JAY-Z do que um colaborativo – e que inclusive só viu a luz da vida graças à insistência de Ye em terminar o projeto.

Do precário Marcy Projects, no Brooklyn, ao trono do Rap, a carreira de JAY-Z é marcada pela constância. Pelo menos três de seus discos podem disputar a posição de melhor da discografia, além do recorde de 14 álbuns a ocuparem a primeira posição na Billboard, sem falar do prestígio no Grammy, com 23 gramofones na estante. A longevidade do rapper produzindo em alto nível é um fator decisivo para responder a pergunta que abre o texto. Do clássico e poderoso início na década de 1990 até o mais recente disco de 2017, selecionamos cinco álbuns para se aprofundar na vida e obra de Shawn Corey Carter, o JAY-Z.

Reasonable Doubt (1996)

Reasonable Doubt é um primor. Acompanhado de um pequeno grupo de amigos que se dividiam entre beatmakers e empresários e muita ambição, JAY-Z, aos 26 anos, dropou seu primeiro trabalho. Reasonable Doubt basicamente solidifica e incrementa o “mafia rap”: o artista narra a vida do crime em todas suas nuances e com a profundidade de quem viveu as esquinas. Seja no luxo intocável de “Feelin’ It” até as neuroses e arrependimentos, como em “D’evils” e “Regrets” – duas músicas que batem lá no fundo de qualquer negro verdadeiro.

Reasonable Doubt não possui esse nome ao acaso. JAY-Z tinha apenas um barulho no underground e, portanto, precisava se provar como rapper: ele queria que o público tirasse a dúvida por si mesmo. Essa necessidade resultou nos desfiles de habilidade lírica em “22 Two’s” e “Brooklyn’s Finest”, em parceria com Notorious B.I.G., algo como um padrinho musical de JAY-Z. Também rendeu “Bring It On”, por exemplo, música na qual Jigga ainda usa um flow pré-Reasonable, numa linha Fushnicks e DAS EFX, cena que já tendia ao declínio em 1996. No entanto, rimas como “I dabbled in crazy weight without rap, I was crazy straight / Partner, I’m still spendin’ money from ’88, what?” no clássico “Dead Presidents II” ou músicas como “Can I Live” e “Friend or Foe” já apontavam para o reconhecimento que ele inevitavelmente teria – inclusive, entre os beatmakers. Reasonable Doubt é, para muitos críticos e fãs, o melhor disco de JAY-Z e já reunia a honestidade narrativa, uma confiança imparável, além de toda a sagacidade que o consagrou nos anos seguintes.

Destaques: “Dead Presidents II”, “22 Two’s” e “Regrets”

The Blueprint (2001)

Se em 1996 havia dúvida, em 2001 era consenso: Jigga não apenas era o sucessor de B.I.G. no trono da cidade de Nova York, mas o melhor rapper do momento. Hits como “Big Pimpin”, “I Just Wanna Love U (Give It To Me)” – com produção de The Neptunes – e, claro, o hino “Hard Knock Life (Ghetto Anthem)” rapidamente retiraram qualquer ideia de “revelação” ou “promessa”, transformando-o em figura das mais sólidas na indústria. Grandes números, pódios na Billboard e o topo do jogo nas mãos. O disco abre com “Ruler’s Back” seguida da diss track “Takeover”, apontando a média de “1 álbum bom a cada 10 anos” de Nas, principal concorrente do rapper do Brooklyn pela coroa de NYC. Independente dos ataques, JAY-Z não fez uma “hot line”, ele fez uma “hot song” e esse é um mérito que segue por todo disco (e carreira): além de excelente rapper, Jigga sempre foi bom em simplesmente fazer música. Em Blueprint, ele trouxe não apenas Just Blaze, mas um jovem Kanye West fortemente obcecado por samples de Soul. Em “Izzo (H.O.V.A)”, grande hit do disco, Ye sample cirúrgica e brilhantemente “I Want You Back”, do Jackson 5. O terceiro single do trabalho, inclusive, fez com que o lançamento do trabalho fosse adiantado para evitar pirataria, devido ao enorme sucesso da faixa.

Kanye também assina “Heart of The City (Ain’t No Love)”, canção em que JAY-Z reflete sobre o curso natural da queda após a ascensão, e “Never Change” traz uma confissão sincera sobre ser o hustler incorrigível de sempre. Entre tantas boas canções, “Renegade”, com produção e participação de Eminem, é a única aparição de um rapper (também no auge, inclusive) no disco. A participação de Shady rendeu um famoso verso de Nas, mirando JAY Z, em “Ether”: Eminem murdered you on your own shit”. Ainda que uma parceria memorável, “Renegade” pode soar meio deslocada do resto do repertório, por parecer uma canção de Eminem que por um acaso foi parar em um disco de Hov. Mas isso, de maneira alguma, tira o brilhantismo de The Blueprint. Com um pouco mais de intenção e sensibilidade para hits, porém sem perder o estado mental filosófico inerente ao observador que é, JAY-Z criou um clássico que realmente foi o guia de “como fazer um disco de Rap” de vários outros artistas que vieram a seguir. It’s your boy!

Destaques: “Takeover”, “Heart of The City (Ain’t No Love)” e “Never Change”

The Black Album (2003)

“É o último álbum do JAY-Z, eu tenho que ter uma produção nesse disco!”, foram as palavras de Pharrell Williams, um dos últimos produtores a entrar no Monte Olimpo de beatmakers, escolhidos para aquele que, segundo Jigga, seria seu disco de aposentadoria. Como era de se esperar, promover o álbum a partir desse status gerou um grande buzz e até um documentário sobre o processo de criação e o histórico show no Madison Square Garden foi desenvolvido, além de, claro, ser um tema recorrente nas composições. “Treat my first like my last, and my last like my first / And my thirst is the same as when I came”. Em “What More Can I Say”, JAY-Z destrincha, como se estivesse diante de um tribunal, todos os motivos pelos quais ele deveria ser considerado o melhor de todos os tempos e reflete sobre como será o cenário sem ele. Se alguns argumentos soariam exageros na boca da maioria dos rappers, saindo dos lábios de Jigga são apenas fatos – distribuídos de maneira coerente em diversas músicas. Dá para discordar da rima “Flyer than a piece of paper bearin’ my name / Got the hottest chick in the game wearin’ my chain”, quando ele se refere ao relacionamento que estava começando com Beyoncé? Ele ainda traz Rick Rubin de volta ao game com “99 Problems”, com seu segundo verso lendário – um dos storytelling mais conhecidos da história do Rap.

The Black Album é o melhor de todos os universos Hovianos. Só sendo mesmo um MC de outro patamar, com extenso leque de flows e habilidades, se é capaz de fazer funcionar de forma coesa ideias de tantos beatmakers diferentes. “Dirt Off Your Shoulders” é a síntese do bounce de Timbaland, mostrando o JAY-Z ousado e alegre. “Threat” e “Public Service Announcement”, com respectivas produções de 9th Wonder e Just Blaze colocam Jigga para suar barra-a-barra e ele flutua como rimador como Muhammad Ali no ringue. “Lucifer” e “Encore” dão continuidade a combinação infalível entre Kanye West, Jigga e samples de Soul (ou de Reggae, como é o caso de Max Romeo, utilizado na primeira). “Quando ele fica emocional, é inacreditável. É como se ele se conectasse com vidas passadas”, disse Pharrell Williams quando produziu com Chad Hugo (The Neptunes) a batida de “Allure”. Aqui, JAY-Z retoma seu lado mais espirituoso como em “Dead Presidents II”, mas dessa vez mais Carlito’s Way do que Scarface. Uma digníssima e heróica maneira de – supostamente – se despedir.

Destaques: “99 Problems”, “Lucifer” e “Allure”

American Gangster (2007)

Inspirado no filme homônimo sobre a vida do mafioso Frank Lucas, American Gangster é o primeiro álbum do artista a ser amarrado a um conceito mais delimitado. Apesar de não ser um disco objetivamente narrativo, seguimos a história clássica do gângster: de seu início na pobreza até o crescimento das ambições, já como um traficante iniciante que atinge a glória no mais alto escalão do tráfico – e, enfim, a queda. Ainda que American Gangster não esteja no mesmo patamar dos outros desta lista, foi um trabalho de transição importante para mostrar que Jigga ainda tinha combustível para queimar – especialmente após a recepção dividida de Kingdom Come (2006). “Please don’t compare me to other rappers / Compare me to trappers, I’m more Frank Lucas than Ludacris”, ele brada em “No Hook”. O disco ainda tem outros destaques como “Roc Boys (And The Winner Is…)” e sua pomposa produção combinada aos clássicos versos de celebração de JAY-Z –  “this is black superhero music right here, baby!”. Além de “I Know” e “Blue Magic”, envelopadas, mais uma vez, pelo som espacial do The Neptunes, o disco traz outras boas músicas baseadas em samples dos anos 1970 – época de destaque de Frank Lucas –, como “Ignorant Shit”, uma resposta aos críticos, e “Fallin’”, com sample de “Fell For You”, do The Dramatics, que explora a queda do mafioso. “Damn, you fucked up like your favorite movie scene / Godfather, Goodfellas, Scarface, Casino / You seen what that last run did to De Niro in Heat”.

Apesar de acertadamente criticado pela repetição temática, American Gangster é subestimado. É um dos materiais mais interessantes e ousados que JAY-Z já criou, quando se leva em conta o momento instável da carreira após o retorno da aposentadoria em 2003. Este talvez pudesse ter sido realmente o trabalho de despedida de Hov, com bem menos glórias, entretanto, do que The Black Album.

Destaques: “No Hook”, “Ignorant Sh*t” e “Fallin’”

4:44 (2017)

Que grata surpresa foi esse trabalho. 12 discos depois de sua estreia e cerca de 15 anos após seu apogeu como MC, JAY-Z deixou de lado a imagem já saturada do hustler e tirou a capa de super-rapper para se apresentar como o Shawn Carter mais humano já visto. Afastado de Kanye West após diversos conflitos pessoais e profissionais, Jigga contou com No I.D., o sensei de Ye, para trazer a mesma simplicidade refinada das letras na produção do disco, que soa quase Lo-Fi, inclusive em mixagem e masterização. Tudo muito sofisticado e apurado, entretanto. Com samples de Reggae, Gospel, o Soul de sempre e até Rock progressivo, MC e beatmaker sempre em plena sintonia. “Kill JAY-Z, they will never love you, you will never be enough, let’s just keep it real, JAY-Z”. Seus erros no relacionamento com Beyoncé, a homossexualidade da mãe, o racismo sistêmico e as armadilhas do capitalismo – como na já clássica “The Story of O.J.” – formam um arrebatador pano de fundo temático, pintado pela coragem de Shawn Carter de se apresentar, pela primeira vez em sua carreira, como alguém vulnerável.

Essa vulnerabilidade permite uma conexão mais profunda com a pessoa por trás do rapper, que fez um disco confessando seus arrependimentos (além de se orientar sobre a necessidade de lidar com eles). E, de quebra, ele ainda compartilha suas lições mais profundas acerca de fidelidade, família e riqueza. Tudo isso sem deixar de lembrar, ainda que como subtemas, da importância de sua obra artística para a cultura Hip HOP. Se em “Kill JAY-Z” ele busca matar o próprio ego, em “Bam” ele volta a reconhecer sua importância com a esperteza e sagacidade irônica de sempre. Corajoso, humilde – no sentido mais puro da palavra –, sábio e, acima de tudo, humano.

Destaques: “Story of O.J.”, “4:44” e “Bam”

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ARTISTA: Jay Z