5pra1: Maria Bethânia

Do drama à leveza, da simplicidade à grandiloquência: uma seleção para desvendar os mistérios de um ícone incomparável

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Fotos: Thereza Eugenia

A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.

 

Para começar a falar sobre Maria Bethânia podemos pensar em inúmeras citações sobre seu nome. Poetas, críticos, ensaístas e cronistas já escreveram sobre ela e em belas palavras. Por outro lado, dá para se pensar em diversos pequenos detalhes que formam sua figura e seu cotidiano:

– Bethânia gosta de cerveja gelada ao lado dos amigos, seja em casa ou em mesas de plástico pelas ruas de Santo Amaro. Uma das suas parceiras de copo e samba é a cantora Alcione.

– Bethânia leva sua comidinha de casa para os camarins antes do show, num tupperware das mais comuns.

– Bethânia gostava de passear de moto pelo Rio de Janeiro nos anos 1970, numa moto chamada Honey Baby, até que Mãe Menininha do Gantois lhe aconselhou a deixar a moto de lado.

– Bethânia lê HQs pra dormir, de Turma da Mônica a Marvel.

– Ela corta o próprio cabelo em casa e nunca passou nenhum tipo de tintura em seus cabelos; mas, em oposição, ela também já fez cirurgia plástica nos seios, para “colocar tudo no lugar”, segundo ela.

São detalhes quase banais que formam essa Bethânia comum, simples, brejeira, interiorana, como ela gosta de dizer. Quando no palco, Bethânia é rígida, dada ao perfeccionismo e respeita, acima de tudo, o palco em que pisa e o público que a espera. Seu respeito se estende aos poetas que canta e aos músicos que a acompanham, dando ar solene às suas apresentações e a cada canção que ela entoa. Esse híbrido misturado a sua intensa religiosidade criam essa figura quase mítica de Bethânia: a cantora que corre da fã que quer lhe beijar os pés, a artista que cria seus rituais místicos antes de entrar no palco e aquela que Clarice Lispector definiu como uma cantora que “solta faíscas no palco”.

Bethânia é essa espécie de mistério, essa pessoa que parece ao mesmo tempo tão simples e tão nossa, do tipo que chegaríamos na sua casa, abriríamos a geladeira, pegaríamos latinhas de cerveja no freezer (Bethânia gosta de chamá-las de “piriguetes”, o nome baiano das latas de 250 ml) e ela pediria “vira o disco para mim”, enquanto prepara o almoço. Ao mesmo tempo, ela guarda o segredo de uma artista séria, que entende a força e a importância de seu ofício em um país no qual a cultura é tratada como artigo de categoria mais baixa.

E essas figuras se mesclam na obra de Bethânia. Há discos que são considerados obtusos, complexos e que se tornaram cult com o tempo; há outros que foram sucesso de venda, na casa dos milhões, e que viraram hits de rádios, motéis e amantes. Entre tudo isso há uma sábia coerência: a artista trata tudo com o mesmo respeito e o mesmo cuidado. Há canções e há momentos –  aqueles de canções dolorosas e políticas, aqueles de sacanas canções de amor ou aqueles em que ela canta o Brasil como ninguém. E nisso ela é realmente a abelha rainha, como chamam os seus fãs.

Maria Bethânia tem um olhar único sobre o Brasil e transforma isso em discos que recontam o nosso país de forma única. Bethânia é intérprete e sabe, como poucos, escolher canções e fazê-las suas. Em seus discos e shows, ela cria colchas de retalhos entre canções populares, desconhecidas e novas, entre textos e leituras, em uma formatação que ela própria aprendeu a desenhar ao lado de Fauzi Arap, diretor que foi seu parceiro de trabalho nos anos 1970. Com isso, ela consegue passear entre autores, poetas e compositores nacionais que cantam e contam o nosso país de múltiplas formas, com olhares que falam do Brasil de dentro e que reforçam a sua defesa do brasileiro, desde os povos originários até os ribeirinhos, os trabalhadores rurais e todos aqueles que gostam de suar no samba de suas canções.

Esse texto inicial não trouxe muitas informações práticas, não nos repetimos falando de Caetano Veloso, Dona Canô ou de “Carcará”, Opinião e Nara Leão. Já temos excelentes documentários que dão conta dessas histórias outras de Bethânia: Pedrinha de Aruanda (Andrucha Waddington, 2006), Música é Perfume (Georges Gachot, 2005) e Fevereiros (Marcio Debellian, 2019) são excelentes caminhos para entender Bethânia, suas histórias e seus mistérios. Aqui, nós ficamos nas canções e passamos por 5 discos que apresentam diferentes facetas de Bethânia, indo do drama à leveza, da simplicidade à grandiloquência. Aproveitem!

A Tua Presença (1971)

DJ Zé Pedro, um apaixonado e um estudioso de Bethânia, brinca que nos anos 1970 a cantora era a musa dos estranhos, “dos loucos e do lazarentos”. E os dois primeiros discos escolhidos nesse 5pra1 dão um pouco desse tom. A Tua Presença… é o quinto disco de Maria Bethânia e traz na capa seu nome completo: Maria Bethânia Viana Telles Veloso.

Logo ao dar play, somos levados por “Janelas Abertas Nº2”, composição de Caetano Veloso que é uma espécie de resposta lúgubre a “Janelas Abertas”, de Vinicius De Moraes e Tom Jobim. Com produção orquestrada, Bethânia canta “sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília / e em cada um matar um membro da família / até que a plenitude e a morte coincidissem um dia / o que aconteceria de qualquer jeito / mas eu prefiro abrir a janela / pra que entrem todos os insetos”. E na sequência um coro de vozes a entoar “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, para então Bethânia ser acompanhada de uma guitarra forte e uma bateria marcada. Uma versão roqueira de “Jesus Cristo”.

A Tua Presença… é um disco estranho, obtuso e confuso como eram os idos de 1971: Caetano e Gil estavam no exílio, o Brasil era uma incógnita política e Bethânia estava à flor da pele. “Mano Caetano”, cantada com Jorge Ben, é uma ode ao retorno de Caetano ao Brasil; já “Rosa dos Ventos”, de Chico Buarque, é o resumo poético de todas as tensões ditatoriais daquele momento.

“Rosa dos Ventos” acabou virando o nome do show do álbum, com o subtítulo “O Show Encantado”, ganhando edição em disco. Com direção de Fauzi Arap, o registro é um dos mais importantes trabalhos de Bethânia nos anos 1970 – por isso vale a pena ouvir o disco de estúdio e depois embarcar no show.

Destaques: “Janelas Abertas nº2”, “A Tua Presença Morena”, “Rosa dos Ventos”

Drama – Anjo Exterminado (1972)

Drama – Anjo Exterminado surge logo após o espetáculo “Rosa dos Ventos” e segue a mesma logística meio embasbacante do trabalho anterior: Bethânia estranha, cantando altíssimo, com uma produção arrojada e grandiosa. O trabalho abre com um ponto religioso intitulado tão somente “Ponto”, em que ela praticamente declama “Sou eu que me deito tarde / Sou eu que levanto cedo / Sou eu que realço tudo / Sou eu que não tenho medo”.

“Esse cara”, “Bom dia”, “Volta por cima”, “Drama”, “Estácio Holly Estácio” e a clássica “Iansã”: um repertório de canções que se tornaram presença frequente nas apresentações de Bethânia. E aqui há a mistura entre o estranhamento e o romance: “Anjo Exterminado”, de Jards Macalé e Wally Salomão, é como um resumo tanto do disco quanto de Bethânia, a falar sobre uma paixão fulminante, sobre essa entrega intensa, essa tensão entre o amor e o drama.

Drama foi formatado como um espetáculo, por isso é construído em dois atos: o primeiro é composto pelas seis primeiras faixas, o segundo ato é composto pelas seis faixas restantes. Por isso, o espetáculo Drama acabou por ser conhecido como o “3º ato”. Drama 3º ato – Luz da Noite virou disco duplo e traz as canções intercaladas por leituras de textos de nomes como Clarice Lispector, Fernando Pessoa e Antônio Bivar. Novamente, faça o movimento de ouvir o disco de estúdio e depois mergulhe no ao vivo.

Destaques: “Bom dia”, “Iansã”, “Negror Dos Tempos”

 

Mel (1979)

Em 1978, Bethânia lançou Álibi, excelente disco que é um dos seus maiores sucessos comerciais: esse foi o primeiro álbum de uma cantora brasileira a ultrapassar a marca de 1 milhão de cópias vendidas. E aí, o que se faz depois de um sucesso desse tamanho? Maria Bethânia construiu logo no ano seguinte Mel, disco romântico, apaixonado, sexual – e mais uma vez um sucesso.

Aqui, a cantora canta o amor com leveza e despudor em faixas que se tornaram clássicas como “Mel”, “Cheiro de Amor”, “Grito de Alerta”, “Amando sobre os jornais” e “Loucura”. O repertório conta com canções de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Wally Salomão e Gonzaguinha, além de, uma novata à época, Angela Ro Ro. É de Ro Ro que vem um dos maiores clássicos da MPB apaixonada e exagerada: “Gota de Sangue”, uma faixa até hoje presente no repertório tanto de Bethânia quanto de Angela.

Duas canções têm histórias curiosas e merecem destaque. “Cheiro de Amor” originalmente era o jingle de um motel baiano, criado pelo publicitário Duda Mendonça. Bethânia ouviu a canção no rádio e queria gravar, porém a faixa era curtinha demais, por isso ela e Duda chamaram os compositores Jota Moraes e Paulo Sérgio Valle para criar uma segunda parte para a canção e assim nascia um hit emblemático dessa fase da carreira de Bethânia.

Já “Grito de Alerta” foi escrita por Gonzaguinha tendo como inspiração uma história de seu amigo Agnaldo Timóteo. Na época, Timóteo vivia um relacionamento conturbado com Paulo Cesar Souza, ele até compôs uma canção chamada “A bolsa do Posto Três” para Paulinho, como ele carinhosamente o chamava. O ponto é que Gonzaguinha soube da história pelo próprio Timóteo e isso foi a inspiração de “Grito de Alerta”, uma canção sobre idas e vindas e dúvidas de amor, porém ele deu a faixa diretamente para Bethânia gravar. A canção entrou na trilha da novela Água Viva, virou um hit clássico e, obviamente, Timóteo ficou fulo da vida com Gonzaguinha.

Destaques: “Mel”, “Cheiro de Amor”, “Grito de Alerta”

 

Ciclo (1983)

Quando se pensa na MPB dos anos 1980, há uma estética muito específica: o teclado eletrônico e os sopros eram presença essencial em todas as bandas, assim como os ritmos eletrônicos estavam em ascensão. Os produtores Sullivan & Massadas dominou as rádios, indo das músicas de Xuxa e Roupa Nova a Gal Costa e Tim Maia. Bethânia era uma das maiores artistas femininas – em números – do país naquele momento e, ao invés de surfar na onda, ela decidiu ir na contramão e fazer um disco acústico. Assim nasce Ciclo, um dos álbuns que ela mais se orgulha de ter feito.

“Ciclo” tem uma delicadeza que prioriza a voz de Bethânia – límpida, nítida, segura e que surge acompanhada sempre de poucos instrumentos. É quase como um prelúdio da moda de acústicos que surgiria por aqui nos anos 1990, em função do formato apresentado na MTV. Porém, o disco de Bethânia tem um refinamento de produção que poucos discos posteriores teriam e isso fez com que Ciclo tenha envelhecido maravilhosamente bem.

Com canções de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ângela Ro Ro, Moraes Moreira, Gonzaguinha, entre outros, Ciclo é um trabalho que marca o tom de muito do que ela faria dali em diante, tanto na própria década de 1980, como no disco A Beira e o Mar, quanto nos anos 1990, em A Força que Nunca Seca. Dê play em “Motriz” e você entenderá a atemporalidade desse disco.

Destaques: “Motriz”, “Filosofia Pura”, “A Notícia”

Âmbar (1996)

Âmbar é o 20º disco da carreira de Bethânia e chega dois anos depois de As Canções Que Você Fez pra Mim (1994), álbum clássico em que ela regrava canções de Roberto e Erasmo Carlos. As Canções… vendeu mais de um milhão de cópias, se transformou no disco mais vendido de Bethânia e ganhou até uma versão em espanhol, “Las Canciones que Hiciste pra Mí”. Nesse cenário, Bethânia decide produzir um disco grandioso, arrojado e moderno, e assim surge Âmbar.

O disco foi gravado em sete estúdios diferentes e mixado em outros três, entre as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Beverly Hills, Bruxelas, Londres, Santa Mônica e Los Angeles. Toda essa produção cria um disco cheio de camadas, com delicada produção orquestral, percussão e um interessante uso de coros e backing vocals. Romântico e mais urbano que o usual, Âmbar marca um novo encontro de Bethânia: os compositores jovens que estavam em ascensão nos anos 1990.

Adriana Calcanhotto, Carlinhos Brown, Chico César e Arnaldo Antunes apresentam aqui canções que se tornaram clássicas no repertório de Bethânia – e os quatro se tornaram compositores frequentes nos discos posteriores da artista. De Calcanhotto, veio a faixa-título do disco e a excelente “Uns versos”; de Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, a misteriosa “Lua Vermelha”, além de “Allez Y”, assinada apenas por Brown; e de Chico César vem a forte “Invocação”, cantada com o acompanhamento da linda voz de Virgínia Rodrigues. Chico também é o autor daquele que talvez seja o maior sucesso do disco: “Onde Estará o Meu Amor”, que recentemente voltou a chamar atenção na novela Amor de Mãe.

É curioso como Bethânia costura essas canções modernas com autores clássicos da música popular, como Ary Barroso, Sílvio Caldas, Orestes Barbosa, bem como ainda sobra um espaço para parceiros mais habituais: Caetano Veloso, Antonio Cicero, Orlando Morais, Sueli Costa. Âmbar talvez seja uma excelente apresentação dessa Bethânia que segue “atenta ao tempo”. É um disco moderno, belo e cheio de nuances, que puxa o ouvinte com facilidade para o seu universo.

Destaques: “Âmbar”, “Onde Estará o Meu Amor”, “Invocação”

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