A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.
“Eu preciso mudar. É como uma maldição”, declarou Miles Davis em entrevista ao Washington Post, em 1969. Essa é possivelmente a frase que melhor define a carreira do trompetista nascido em Alton, Illinois. Por mais de quatro décadas, ele foi uma das maiores estrelas do jazz. Mas sua influência vai muito além do circuito do jazzístico ou da música instrumental. Muitos artistas são celebrados por terem mudado os rumos da arte. Miles fez isto não apenas uma, mas diversas vezes. Ele esteve à frente do cool jazz (que desacelerou o ritmo frenético de seus antecessores do bebop), depois capitaneou a revolução minimalista do jazz modal no fim dos anos 1950 e consagrou o cruzamento definitivo entre jazz, rock, música eletrônica, funk e soul nos anos 1970, tornando-se uma referência para um vasto leque de artistas, que vai de Gilberto Gil a Damon Albarn, de Karlheinz Stockhausen a Mos Def.
Um 5pra1 de Miles Davis é uma introdução não só a carreira deste músico em específico (considerado diversas vezes um dos maiores artistas do século 20), mas também uma introdução às múltiplas possibilidades do jazz, sem medo de romper com os dogmas que foram imputados ao estilo. Diversas vezes Miles foi questionado — e até acusado — de não estar fazendo jazz. “É música, e eu gosto”, respondia ele. Foi seu apetite pela transformação e seu ímpeto pelo movimento que o tornaram eterno.
Kind of Blue (1959)
Quando Kind of Blue chegou às lojas em 1959, Miles Davis já era figura conhecida no mundo do jazz. Mas aquele disco, de capa sóbria e atmosfera meditativa, não era apenas mais um capítulo em sua trajetória: era um novo começo. O trompetista havia passado pelo ritmo acelerado do bebop ao lado de Charlie Parker, esfriado o gênero com o cool jazz de Birth of Cool (1957) e liderado um quinteto brilhante nos anos 1950 com nomes como John Coltrane (sax), Red Garland (piano) e Philly Joe Jones (bateria). Ainda assim, ele se sentia preso às amarras harmônicas do jazz tradicional. Em busca de novas possibilidades, mergulhou no jazz modal, influenciado pelas ideias do teórico George Russell e pela linguagem musical impressionista do pianista e arranjador Bill Evans e de compositores clássicos como Béla Bartók e Maurice Ravel. Kind of Blue foi o terreno onde essa revolução silenciosa se concretizou.
O passo mais significativo na direção de Kind of Blue foi dado na primavera de 1949, quando Miles, então aos 22 anos, esteve pela primeira vez em Paris. Em meio a uma curta turnê europeia, ele foi convidado a gravar a trilha sonora do filme Ascensor para o Cadafalso (1958), de Louis Malle. Livre da necessidade de produzir apresentações completas e do convencional formato tema-solo-tema das composições de jazz, Miles encontrou uma oportunidade para mudar a abordagem conceitual do seu trabalho. Ele se reuniu com seus músicos em uma sala escura no estúdio e, junto, foram improvisando sob os pequenos fragmentos musicais escritos pelo trompetista para a sessão enquanto o filme era projetado. “Tudo era mais ou menos um esforço de espontaneidade coletiva”, narrou o saxofonista Barney Wilen.
Miles estava interessando-se por formas musicais mais abertas à liberdade de improvisação e foi gradativamente chegando ao jazz modal, que parte de uma lógica distinta das composições tradicionais: em vez de progredir rapidamente por acordes complexos, como no bebop, ele se ancora em modos — escalas específicas que criam campos harmônicos mais abertos e repetitivos. Isso libera o músico de obrigações harmônicas rígidas e permite uma escuta mais contemplativa, menos agitada, mais espacial. O álbum foi gravado em apenas duas sessões. Miles chegou ao estúdio com indicações mínimas, desenhos modais esboçados, e deixou que os músicos reagissem ali, no momento.
Miles buscava uma música em que cada nota respirasse. A intenção era escapar do virtuosismo pelo virtuosismo e encontrar uma beleza melancólica, quase zen. “Antes de Kind of Blue havia o jazz lento, o jazz melancolico, o jazz romântico, o jazz austero. Mas nunca houve nada antes que cultivasse, de forma tão cuidadosa e concentrada, a atmosfera de introspecção e reflexão em um nível tal que o clima por si só se transformou em uma obra de arte”, descreve o crítico e pesquisador Richard Williams no livro Kind of Blue: Miles Davis e o Álbum que Reinventou a Música Moderna.
Outra influência trazida de Paris foi o existencialismo — Miles foi bem introduzido à intelectualidade francesa, tendo conhecido pessoalmente o filósofo Jean Paul-Sartre e namorado a cantora e a atriz Juliette Gréco. A melancolia contida e a postura distante de Kind of Blue captava um senso de solidão e não-pertencimento típico do Pós-Segunda Guerra e das reflexões existencialistas. Na época do lançamento do álbum, o crítico Benny Green notou que nesta nova música de Miles não havia quaisquer traços da “alegria de viver despreocupada de Louis Armstrong” ou do “irreprimível bom humor” de Dizzy Gillespie. E sentenciou: “Com Miles Davis, a introspecção chega ao mundo do jazz”.
Kind of Blue virou um clássico instantâneo, mas não apenas por sua beleza: o disco libertou o jazz das amarras harmônicas e abriu caminho para toda uma geração de músicos que, como Miles, queriam mais espaço, mais ar, mais sensação. Seu impacto atravessa gêneros — do rock ao ambient, da música clássica à eletrônica. Miles não inventou o jazz modal, mas foi quem o fez soar definitivo.
Destaques: “Blue in Green”, “So What”, “Flamenco Sketches”
Sketches of Spain (1960)
Entre 1957 e 1960, Miles Davis e o arranjador canadense Gil Evans formaram uma parceria que rendeu três obras-primas: Miles Ahead (1957), a versão da famosa ópera Porgy and Bess (1958) e o sublime Sketches Of Spain, inspirado pelas sonoridades da Espanha e dos ciganos de Andalucía.
Em Kind of Blue, Miles havia dado um sinal de sua admiração pela música espanhola na faixa “Flamenco Sketches”. E o interesse só foi sendo aprofundado. A atriz Beverly Bentley lhe apresentou a beleza do violão de “Concierto de Aranjuez”, do compositor e pianista Joaquin Rodrigo. Por volta dessa época, sua esposa, Frances Taylor, levou-o para assistir a um concerto de flamenco. E, para completar o pacote, Gil Evans havia sido presenteado por amigos da sua gravadora com uma coleção de discos de flamenco dirigida pelo etnomusicologista Alan Lomax. Os sons ibéricos eram a trilha sonora do dia a dia de Miles e seus parceiros.
A espinha dorsal de Sketches Of Spain é uma versão estendida do adágio do “Concierto de Aranjuez”. Mas há também “Will O’ The Wisp”, balé do compositor modernista Manuel de Falla. “The Pan Piper”, por sua vez, é baseada em uma canção folclórica peruana, e “Solea”, em uma antiga melodia cigana. Todas são marcadas por uma orquestra refinada e elegante que prepara o cenário perfeito para os solos de Miles, carregados de drama, paixão e solitude como nunca antes.
Numa trama de música sinfônica, jazz e sons ibéricos, Miles conseguiu uma paisagem emocional sem igual em sua carreira. Respondendo a um repórter que sugeria que o álbum não era jazz o suficiente, ele respondeu: “É música, e eu gosto”.
Destaques: “Concierto de Aranjuez”, “Will o’ the Wisp”, “Solea”
In a Silent Way (1969)
Uma década após Kind of Blue, Miles Davis dá início a mais uma revolução musical. In a Silent Way marcou o início de sua fase elétrica, algo que vinha dando pistas nos álbuns anteriores, Miles in The Sky (1968) e Filles de Kiliimanjaro (1968). Com a colaboração de músicos como Joe Zawinul, John McLaughlin e Chick Corea, o álbum incorporou elementos do rock psicodélico e do funk, criados por uma banda estelar de oito músicos — incluindo os talentos promissores Wayne Shorter, Herbie Hancock, Chick Corea e Tony Williams, que logo se tornariam nomes sagrados do jazz, comprovando o tino descobridor de talento que Miles possuía.
Um ano antes de gravar In a Silent Way, Miles se casou com a explosiva cantora funk Betty Davis, que lhe mostrou o som ácido e provocativo de Jimi Hendrix, Sly & The Family Stone e James Brown — que se tornaram algumas das suas principais referências desde então. Apesar desse combustível criativo, o primeiro disco elétrico de Miles é silencioso, uma música imersiva que opera no contraste perfeito entre ondas de silêncio e ataques de eletricidade.
A crítica da época ficou dividida, mas hoje In a Silent Way é reconhecido como um marco do jazz fusion, influenciando uma geração de músicos e expandindo os horizontes do gênero. O crítico Lester Bangs, em sua resenha original para a Rolling Stone, descreveu o álbum como “uma nova música transcendental que elimina categorias” e destacou a “intensidade controlada” das performances dos músicos. “Este é o tipo de álbum que te dá esperança no futuro da música. Não é rock and roll, mas também não é nenhum estereótipo de jazz”.
In a Silent Way não apenas redefiniu o jazz com a incorporação de instrumentos elétricos, mas também abriu caminho para novas formas de expressão musical por conta de seu minimalismo extremo, influenciando diversos gêneros e artistas nas décadas seguintes. Brian Eno, pioneiro da ambient music, reconheceu a influência de In a Silent Way em seu trabalho, destacando como o álbum antecipou ideias que ele exploraria posteriormente. A abordagem atmosférica e a ênfase na textura sonora presentes no álbum de Davis ressoam com os princípios conceituais da ambient music que Eno viria a desenvolver em álbuns como Discreet Music (1975) e Music For Airports (1979). Baixista do álbum, Dave Holland diz que as inovações deste período definiram sua prática artística até os dias atuais. “As coisas que eu faço agora estão diretamente relacionadas àqueles experimentos. A música não soa a mesma, mas as experiências me permitiram ir onde eu fui”.
Destaque: “In a Silent Way”
Bitches Brew (1970)
As sessões de gravação de Bitches Brew começaram na manhã do dia 18 de agosto de 1969, poucas horas depois de Jimi Hendrix executar uma versão demolidora, cheia de distorções e ruídos, de “Star Spangled Banner”, o hino nacional americano, no festival de Woodstock — e é seu ímpeto incendiário que inspira este álbum, considerado por muitos um dos maiores discos do século 20, inaugurando o jazz rock.
Então aos 43 anos, Miles vivia uma crise de meia idade e queria ser uma voz relevante para a juventude dos anos 1960, que estava à frente de lutas sociais e raciais. Hendrix era sua maior referência. O trompetista queria incorporar a sonoridade ácida do rock psicodélico e recriar as jam sessions descontraídas de Electric Ladyland — é possível encontrar algumas menções ao álbum de Hendrix, como “Miles Runs The Voodoo Down”, uma citação sutil a “Voodoo Chile”. Mas Davis levou a experiência a níveis ainda maiores.
A banda de Hendrix era composta por guitarra e baixo elétrico, bateria e dois percussionistas. Em Bitches Brew, Miles estava acompanhado por tudo isso mais um segundo baterista, dois tecladistas, baixista acústico, trompetista, saxofonista e clarinetista. Uma grande orquestra elétrica, com Miles ao centro, controlando as entradas e saídas. E sua forma de comandar era ainda mais aberta. Ele oferecia apenas um ponto de partida, com muito espaço a ser trabalhado com feeling e improvisação.
Bitches Brew também instituiu um novo método de composição e gravação. As faixas não são composições ou jams, mas sim colagens. O disco foi todo construído na sala de edição. “Eu não parava os tapes como fazia antigamente. Os tapes rolavam até a banda terminar de tocar. Daí a gente parava, escutava tudo e decidia o que seria feito na edição. Era uma rotina de procurar e achar. Estava tudo lá, era apenas uma questão de juntar os pedaços”, conta o produtor Teo Macero, que ao lado de Miles conduziu um minucioso trabalho de edição, muitas vezes combinando gravação distintas através de cortes, colagens e processamento de efeitos sonoros. É um marco do produtor como criador e do estúdio como instrumento — uma ideia fundamental que Miles desdobrou do rock pós-Sgt Peppers dos Beatles.
Com 20 minutos de extensão, a faixa de abertura “Pharaoh’s Dance” é uma boa mostra das inovações de Miles. O seu trompete é processado por efeitos de eco e conversa com riffs de guitarras e teclados elétricos, acompanhado por percussões viajadas. O ritmo é conduzido por levadas de rock e R&B, que imprimem ímpeto e vigor à paisagem musical fraturada. O jazz nunca foi tão psicodélico — e isso se refletiu nas vendas. Bitches Brew vendeu 400 mil cópias nos Estados Unidos, chegando ao topo das paradas de jazz e de R&B da Billboard e até mesmo numa respeitada 35ª posição na parada pop. “O pessoal da nossa banda estava acostumado a tocar em pequenos clubes, tendo mais gente no palco do que na plateia. De repente a gente estava diante de 600 mil pessoas [no festival] na Ilha de Wight e todo mundo estava dançando aquilo”, comentou o baterista Jack DeJohnette. Miles descrevia seus músicos da época como “a maior banda de rock de todos os tempos”. E talvez estivesse mesmo certo.
Destaques: “Miles Runs The Voodoo Down”, “Pharaoh’s Dance”, “Sanctuary”
On The Corner (1972)
“Foi com On The Corner e Big Fun que eu realmente fiz um esforço para que minha música chegasse à juventude negra”, confessa Miles Davis em sua Autobiografia. “Eram eles que compravam discos e iam a shows e eu tinha começado a pensar em construir um novo público para o futuro”. Mas, diferente de Bitches Brew, a aposta de Miles não vingou e o disco foi um fracasso comercial — que ele atribui a Columbia Records, por ainda promover o álbum como um disco de jazz convencional. Anos depois, On The Corner foi reavaliado, tornando-se um dos trabalhos mais influentes do músico norte-americano.
Se Hendrix era a bússola pra Bitches Brew, o funk de James Brown e Sly & The Family Stone é a diretriz de On The Corner — as palmas de mão de “Black Satin” vieram diretamente de “I Want to Take You Higher”. Mas há outro elemento nos estudos para o álbum: os experimentos eletrônicos do compositor alemão Karlheinz Stockhausen, cujas composições entrelaçavam blocos de gravação de campo e batidas geradas eletronicamente, com momentos que surgiam e desapareciam. Miles estava particularmente estimulado pelo efeito “circular” das obras do alemão. “Através de Stockhausen, eu entendi a música como um processo de eliminação e adição”, escreveu o trompetista. “Eu estava experimentando muito. Por exemplo, dizia à banda para tocar um ritmo, segurá-lo e não reagir ao que acontecia. Deixe que eu reajo”.
Com quatro longas jams (uma em cada lado do vinil duplo), On The Corner é um exercício de desenvolvimento rítmico intenso. A música mantém o pulso firme enquanto diferentes solos e atmosferas se revezam: trompete com wah-wah, saxofone soprano, guitarras cortantes, tablas indianas — por vezes soando todos como uma mesma coisa, um organismo só. A abordagem em camadas, definida pelas colagens e mixagens afinadas do produtor Teo Macero, cria uma espécie de forma aberta de samples que serviria de base para o rap e a música eletrônica nas décadas seguintes — não por acaso, Stockhausen viria a adicionar sons de trompetes processados em Ceylon / Bird Of Passage (1975). Os grooves espirais de On The Corner também foram inspiração direta para Gilberto Gil criar “Essa é Pra Tocar no Rádio”, um dos momentos mais desafiadores do álbum Refazenda (1975). “Miles Davis quebrou todas as regras impostas pela patrulha do jazz”, definiu o crítico John Szwed. “E, no entanto, hoje ouvimos que ele estava lançando as bases para o drum ‘n’ bass, o trip hop, o jungle e todas as outras músicas da repetição que ainda viriam a surgir.”
Destaques: “On The Corner”, “Black Satin”
![]()
