5pra1: Nina Simone

Uma viagem por cinco discos que manifestam a efervescência musical e a singular voz política de uma lenda

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Fotos: Jack Robinson / Hulton Archive

A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.

 

Piano arrebatador, voz inconfundível e mudanças de tom/timbre/alcance no meio das músicas compõem a vasta discografia de Nina Simone. Tematicamente, a jazzista é uma das artistas mais marcantes da história da revolta preta – por direitos civis, por amor, por acolhimento, por respeito –, tanto que, por vezes, nos perdemos na líder emblemática e esquecemos de voltar nosso olhar para a poderosa interpretação, a inigualável composição e o domínio instrumental colossal de Nina.

Dona de um dos repertórios mais sampleados da história do Hip Hop, Nina é fonte inesgotável de inspiração. Cada audição revela mais uma camada de sua obra: o contexto político-social do lançamento do disco, os altos e baixos da sua vida conjugal e as batalhas para manter sua saúde mental. Escolher cinco álbuns entre as cinco décadas de trabalho é uma tarefa desafiadora, mas separamos uma seleção que explora seu brilhantismo e versatilidade durante os anos 1960 e prioriza os momentos em que ela apresenta de forma mais contundente sua maior ambição profissional: ser, sobretudo, pianista de música clássica.

O Pop, Blues, Jazz sempre pareceram triviais para a Nina perante o mundo da música erudita. Arrisco dizer que um dos poucos momentos de sua carreira em que ela encontrou verdadeiro sentido nos gêneros populares foi durante a luta por direitos civis nos Estados Unidos, quando abraça a ideia de música como arma política. Apesar disso, existe em seus discos o DNA de uma musicista elevada, altamente instruída e talentosa, que manipula o piano com maestria. Na nossa seleção, ao mesmo tempo em que isso é nítido, a característica coexiste, magistralmente, com gêneros populares: Nina brinca com o poder de consonância e dissonância. Alguns ouros ficaram de fora – indico fortemente que você vá atrás das contribuições de Simone ao Soul, High Priestess of Soul (1966); ao Folk e ao Blues, Folksy Nina (1964), Nina Simone Sings the Blues (1967) e Fodder on My Wings (1982); além do trabalho ao vivo que marcou sua volta à ativa depois de um autoexílio, Live at Montreux (1976), e de sua definitiva volta com inéditas, A Single Woman (1993). Aqui, vamos mergulhar em uma espécie de “fase de ouro”, a época em que o mundo foi presentado com a efervescência musical e a singular voz política de Nina Simone

Little Girl Blue (1959)

Disco de estreia, começa com a faixa “Mood Indigo”, de Duke Ellington, completamente repaginada, em uma velocidade incrível conduzida pela voz densa de Nina entoando os versos de 1930. É a apresentação da artista ao mundo. Logo, ao mostrar a excelência como musicista, ela, digamos, não se arrisca tematicamente: todas as músicas são baladas de amor e de paixões devotas – às vezes não correspondidas. “Love Me or Leave Me” é carregadamente swingada, com um mood ousado de Nina, e perfeita para dançar marcando o ritmo no estalo dos dedos.

“I Loves You Porgy” foi a consagração da artista no mainstream, com 15 semanas no Hot 100 da Billboard, chegando até a posição 18. Apesar de não tão reconhecida, “Good Bait” é uma sequência progressiva de um solo de piano por mais de 5 minutos, em diferentes formas. Uma verdadeira escalada dramática, que poderia tranquilamente ser acompanhada de uma orquestra. Um fato curioso sobre esse álbum clássico é que “My Baby Just Cares for Me” virou canção tema de uma campanha da Chanel quase 30 anos depois, em 1987.

Destaques: “Love Me or Leave Me”, “Good Bait”, “I Loves You Porgy”

In Concert (1964)

Como o nome anuncia, In Concert é um disco ao vivo da Nina Simone, resultado da gravação de três apresentações da artista no prestigiado Carnegie Hall. Primeiro da série de discos da artista pela Philips, foi considerado o marco zero de Nina como voz política. Das sete faixas, quatro se debruçam sobre a tensão racial dos Estados Unidos.

“Pirate Jenny” é uma releitura de uma das músicas da peça alemã The Threepenny Opera (1928), crítica socialista que conta a história de uma pirata mantida em um hotel como camareira e faxineira, sendo constantemente humilhada. Ela planeja sua vingança, esperando o momento em que seu navio vier lhe resgatar. Em outra apresentação ao vivo, muitos anos depois, Nina diz que, ao interpretar essa canção, faz o paralelo de transportar Jenny para a Carolina do Sul. Particularmente, a voz da cantora interpretando Jenny é a combinação ideal. Pode tirar a prova.

O disco segue com uma lírica contundente em “Old Jim Crow”, sobre a o fim das leis de segregação racial nos Estados Unidos, lembrando que Nina cresceu na Carolina do Norte ainda dividida. Na realidade, as leis Jim Crow só foram completamente extinguidas um ano após o lançamento desse álbum. Para a gente imaginar esse contexto, é bom lembrar que a desobediência civil idealizada por Rosa Parks, a de se recusar a dar seu lugar no ônibus a uma pessoa branca, tinha acontecido apenas 10 anos antes da produção do disco. Se discutimos a herança severa dessas leis e do período colonial ainda hoje, à época, o debate estava nas manchetes dos jornais, e Nina Simone performar “Old Jim Crow” no Carnegie Hall era ardente, arriscado para sua carreira e completamente revolucionário.

“Go Limp” é uma sátira afiadíssima e a performance mais livre de Nina: ela ri, debocha, interage com o público, pede para que cantem junto, o que não é muito a cara dela, já conhecida na época por querer “disciplinar” o público do Pop. Ela usa a melodia e refrão de um Folk chamado “Sweet Betsy from Pike” para criar um diálogo entre mãe e filha sobre ir a uma marcha da NAACP, movimento negro organizado dos EUA. Ela faz construções sagazes e, ao mesmo tempo em que pontua a campanha do desarmamento nuclear, fala sobre o medo de abuso sexual. No fim, vem o verso mais doloroso “And if i have a great concert/ Maybe i won’t have to sing those folk songs again.” Ela só queria tocar, mas não era isso. Ela estava no Carnegie Hall, mas cantando Folk.

Para fechar o álbum, uma das canções mais icônicas da sua carreira: “Mississippi Goddam”. O tema é pungente e o piano acompanha essa urgência durante a faixa inteira. Somente no refrão – “Alabama’s got me so upset, Tennessee’s made me lose my rest, and everybody knows about Mississippi goddam” –  podemos esboçar a tensão racial do momento: o bombardeio de uma igreja batista no Alabama que assassinou quatro crianças negras, o atentado à casa de um dos advogados dos direitos civis no Tennessee e o assassinato do ativista da NAACP Medgar Evans no Mississippi. Todos esses foram atos de organizações brancas, supremacistas. Nina explora o medo, a revolta pela impunidade e a angústia.

“Mississippi Goddam” é cirúrgica ao capturar a dor e a agitação perante esse contexto social – cada linha dos quase 5 minutos de música é um mergulho agonizante. É curioso pontuar que, como a ideologia de supremacia branca é comum aos países colonizados, muitos versos podem ser relacionados ao Brasil atual, com um jovem negro morto a cada 23 minutos. Como não se reconhecer em “Cães de caça farejando meu caminho / Crianças em idade escolar sentadas na prisão / Um gato preto cruza o meu caminho / Eu acho que todo dia vai ser o meu último”?

Destaques: “Pirate Jenny”, “Old Jim Crow”, “Mississippi Goddam”

I Put a Spell On You (1965)

Definitivamente um dos discos mais populares da carreira de Nina Simone, I Put a Spell on You, entregue ao groove do Jazz, é o primeiro álbum da artista com que a maioria das pessoas tem contato. Para mim, também foi assim – durante uma busca, ainda menina, para ouvir uma de suas faixas mais conhecidas, “Feeling Good”, que também é digna de orquestração. Hoje, refazer a audição envolve também a deliciosa surpresa de encontrar o sample de “Caminhos do Destino”, de Black Alien, em “Take Care of Business”.

Outra curiosidade é que a faixa título é uma versão do Screamin Jay Hawkins, de 1957. Mais densa, com um piano derretido (uma experiência interessantíssima é ouvir a original e a da Nina logo em seguida). Álbum menos político, Nina não escreveu nenhuma das letras, recorrendo a compositores famosos. Ele é cheio de covers: além da primeira música, “Ne Me Quitte Pas” foi gravada originalmente em 1959 por Jacques Brel (Lauryn Hill fez um cover lindíssimo da versão de Simone) e “Tomorrow is My Turn” é inspirada na canção homônima de Honor Blackman, lançada no ano anterior

“Marriage is for Old Folks” é deliciosa, jovial, atrevida; “You’ve Got to Learn” é mais dura, quando ela parece se cobrar para ter a postura de uma mulher crescida. Produzido por Hal Mooney, que já havia trabalhado com jazzistas como Dinah Washington e Sarah Vaughan, I Put a Spell On You parece ter sido pensado para ser altamente vendável, acessível, sem deixar, entretanto, de explorar a potência de Nina Simone. O disco por completo tem esse perfil de uma grande formação de Jazz que gravita em torno da impecável performance vocal da Nina.

Destaques: “I Put a Spell On You”, “Feeling Good”, “Take Care of Business”

Wild Is The Wind (1966)

Conhecido pelo clássico “Four Women”, sampleado no Boom Bap arrasador “Story Of OJ”, de JAY Z – no já clássico 4:44 (2017) – Wild Is The Wind é uma sequência de inéditas, entre baladas de amor e músicas explosivas. E ainda há espaço para sonoridades experimentais, como “Why Keep On Breaking My Heart”. É um grande álbum para constatar, já em 1966, a versatilidade de Nina. Um grande destaque é “Break Down and Let It All Out”, que, apesar de não ter sido escrita por ela, para mim, define muito bem a energia característica dos trabalhos de Nina Simone.

Apesar disso, esse é um álbum com muitas faixas melancólicas, como a própria “Wild Is the Wind”, que explora lindamente o piano clássico de Simone e sua abrangência vocal durante seus sete minutos. Ou “Lilac Wine”, releitura da canção homônima de 1953 de Eartha Kitt, além da groovada “Either Way I Lose”. “Black is the Color of my True Love’s Hair” fora abraçada como uma música de orgulho negro, embora seja um Folk escocês que ficou conhecido nos Estados Unidos. Logicamente, os versos interpretados por Nina Simone ganham outra dimensão.

“Four Women” é uma das canções mais contundentes sobre o lugar da mulher negra em um sistema racista, com Nina dando vida a quatro mulheres negras, quatro pesados estereótipos da sociedade. Aunt Sarah representa a negra a serviço dos brancos, herança escravocrata; Saffronia é o fruto da miscigenação, do abuso sexual do homem branco com a escrava negra – ela é lancinante ao descrever a dor do constante despertencimento dessa mulher no mundo –; “Sweet Thing” é a personagem que representa a hiperssexualização da mulher negra, que não precisa nem de nome e a quem restou se tornar trabalhadora sexual; e, por fim, Peaches, a mulher negra raivosa, que grita seu nome no final da música:  “I’m awfully bitter these days / because my parents were slaves.”

Destaques: “Four Women”, “Break Down and Let it All Out”, “Either Way I Lose”.

‘Nuf Said! (1968)

Esse disco foi gravado três dias após o assassinato de Martin Luther King Jr. e é uma apresentação ao vivo que foi parte de um programa em homenagem à vida do incrível líder e ativista político – um disco clássico em propósito e execução. A presença de Nina como ativista política está em chamas. A amargura do contexto social é presente em cada faixa e, por vezes, sua voz se embarga ao segurar o choro. ‘Nuff Said! é sensível, sincero e direto.

O disco tem uma sequência inacreditável de mais de uma hora, incluindo “The Blacklash Blues”, “Why? (The King of Love Is Dead)”, “Ain’t Got No – I Got Life” e “Don’t Let Me Be Misunderstood” – sampleada lindamente em “Misunderstood”, de Common, em 2007. Outro destaque do disco reverenciado por rappers de Chicago, “Do What You Gotta Do” ficou por cinco semanas no Hot 100 da Billboard e foi sampleada por Kanye West em “Famous”, um dos singles de The Life Of Pablo (2016)

Na época do assassinato de King, Simone estava completamente envolvida com a luta antirracista e sua voz e sua música haviam se tornado uma poderosa arma política. Há, portanto, uma dualidade muito dolorosa que se traduz nesse e em outros trabalhos dos anos 1960: foi o momento de maior inspiração de sua carreira e também um grande período de luto e perdas em vidas de seus companheiros, além de prisões políticas e visíveis e incessantes tentativas de desarticular o povo.

O orgulho preto era (e ainda é) revolucionário. É por isso que “Ain’t Got No – I Got Life” virou um escudo para jovens negros, assim como “Young, Gifted and Black” (de Little Girl Blue). É como se Nina perguntasse: o que você tem? Use. Ela usou tudo o que tinha para resistir. Ainda assim, contra todo orgulho preto, amor preto e desobediência civil, a supremacia branca tem as estruturas sociais, heranças coloniais e formas de ataque. É um embate profundo e complexo, latente 52 anos depois. Durante os quase 13 minutos da música “Why? (The King of Love Is Dead)”, Nina começa a conversar com a plateia: “vocês tem noção de quantos já perdemos? (…) Nos últimos dois anos, ainda temos Monk, Miles…” e alguém grita “Nina”. Ela ri e continua “Não dá para perder mais ninguém, eles estão matando a gente a tiros, um a um”.

Destaques: “Why? (The King of Love is Dead)”, “Ain’t Got No – I Got Life”, “Don’t Let Me Be Misunderstood”.

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ARTISTA: Nina Simone