5pra1: PJ Harvey

A sequência inicial arrasadora de uma das artistas mais singulares dos anos 1990

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Fotos: Maria Mochnacz

A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.

 

Se você gosta de rock, já esbarrou com o nome de Polly Jean Harvey em qualquer lista de melhores discos das últimas décadas ou o viu sendo citado como referência para outros músicos. O primeiro disco da artista, Dry (1992), era um dos favoritos de Kurt Cobain, que, no início dos anos 1990, teria até mesmo convidado PJ para fazer turnês com o Nirvana. E tem mais: reza a lenda que Courtney Love teria dito: “a única estrela do rock que me faz perceber que eu sou uma merda é Polly Harvey”. A admiração pela britânica também vem de lugares distantes do rock e até Madonna já se declarou fã do trabalho da pioneira do Indie.

A década de 1990 foi decisiva para o tipo de arte que Polly Jean imaginava para si mesma. Nascida em Dorset, pequena cidade no Sudoeste na Inglaterra – e criada em uma fazenda de ovelhas –, PJ sonhou em se tornar veterinária antes de escutar os discos de Blues dos pais. Estudou artes em uma faculdade local enquanto participava de diversos projetos musicais e se dedicou, durante oito anos, ao aprendizado de saxofone. Havia entrado na Central Saint Martins para estudar escultura, mesmo ofício da mãe, quando decidiu lançar músicas e a primeira canção foi “Dress”, divulgada como single pelo selo Too Pure. Se a empreitada desse errado, ela voltaria para a academia – plano que (felizmente) fracassou, porque tudo mudou de direção após a recepção efusiva do disco de estreia, Dry (1992), que lhe assegurou um contrato com a gravadora Island Records. Em vez da especialização, ela decidiu gravar o segundo trabalho, Rid of Me (1993), que contou com produção de Steve Albini, o responsável por Surfer Rosa (1988), estreia do Pixies – uma das referências de PJ. Figura celebrada do Rock Alternativo, o músico, engenheiro de áudio e produtor, trabalhou também em In Utero (1993) e soma quase 500 créditos em músicas desde o início dos anos 1980.

“Na época, desejava escrever músicas que chocassem. Quando estava na faculdade de arte, queria chocar as pessoas com minhas obras. Fiquei chocada com Rid of Me, então pensei que outras pessoas também ficariam”, disse PJ à Spin em 2013. O resultado foi um trabalho fundamental para a sonoridade da década de 1990, e motivo para apelidos como “madrinha do Grunge” recaírem sobre a artista.

Ao lado dos músicos Rob Ellis e Steve Vaughn, que não a acompanharam nos sete discos seguintes, os dois discos marcam o período em trio da carreira de PJ. Antes disso, na virada para os anos 1990, a multi-instrumentista fez parte da banda Automatic Dlamini, projeto com John Parish, parceria que ainda renderia Dance Hall at Louse Point (1996) e A Woman a Man Walked By (2009). Parish também é responsável por coproduzir e tocar em To Bring You My Love (1995), a estreia, digamos, efetivamente solo da britânica.

Os nove álbuns de PJ podem ser organizados por décadas: os anos Grunge, cheios de angústia se encerram em Stories from the city, Stories from the sea (2000), o início de sua era mais dada ao Pop, na qual se distancia do tom raivoso marcante dos primeiros trabalhos. Sua obra se manteve inventiva e consistente a cada lançamento, inclusive, o registro de 2000 lhe proporcionou o primeiro Mercury Prize – o segundo veio com Let England Shake (2011). Ela ainda foi indicada ao Grammy sete vezes, oito ao Brit Awards e é a recordista no Mercury Prize. Os discos “mais recentes, Let England Shake (2011) e The Hope Six Demolition Project (2016), são projeto conceituais, que meditam sobre a guerra moderna, e possuem grande influência do fotojornalista Seamus Murphy, conhecido por documentar zonas de conflito. A jornada artística, fotográfica e jornalística foi concebida em uma saga ao redor do mundo, passando por lugares como Kosovo, Afeganistão, além da cidade de Washington.

Um sintoma do sucesso e do prestígio da cantora no Reino Unido: THSDP foi gravado em uma instalação no meio do museu Somerset House em Londres, no clima literal de “a artista está presente”. A residência foi batizada de “Recording in Progress”, onde visitantes pagavam 15 libras para ver o disco sendo feito ao vivo. O resultado agradou tanto os fãs que o disco levou PJ, uma rainha Indie por excelência, pela primeira vez ao topo das paradas do Reino Unido. Além de uma prolífica carreira solo, a artista soma uma porção de colaboração em trilhas sonoras para filmes e séries. No ano passado, ela compôs 12 faixas instrumentais originais para a peça “All About Eve”, estrelada pelas atrizes Gillian Anderson e Lily James.

Ao mesmo tempo em que é estimada pela crítica e pelo público, a artista nunca de fato adentrou o mainstream, manteve-se alternativa e imprevisível. Sua poesia, cuja inspiração vai de observações cotidianas e contato com a natureza até história da arte, religião, relacionamentos e política, costuma ser comparada a de nomes como Patti Smith e Nick Cave. Inclusive, em 2015, ela lançou The Hollow Of The Hand, livro de poesia com colaboração de Seamus Murphy. Além de pintar, desenhar e esculpir, atualmente ela se dedica à produção de um próximo livro e – para alegria dos fãs – toda sua discografia será relançada em vinil nos próximos 12 meses.

Aqui, vamos mergulhar nos primeiros dez anos de carreira da singular PJ Harvey.

Dry (1992)

Aproveitando a campanha de relançamentos de sua obra em vinil, a artista resgatou as demos de sua estreia e também disponibilizou, nos serviços de streaming, as versões gravadas quando ainda estava na faculdade. Essas demos iniciais apareceram pela primeira vez como disco bônus de Dry, sob a alcunha de Demonstration. Ambos devem ser escutados com atenção. Este trabalho é fundamental para preparar o público para o que seria possível no futuro – e com o investimento de gravadora. Há também uma diferença entre a guitarrista PJ solo e a do registro acompanhada do baterista Rob Ellis e do baixista Steve Vaughn. As músicas em banda ressaltam elementos de gêneros contemporâneos da virada dos anos 1990, como Grunge e Stoner Rock, já a versão demo evidencia o jogo entre o som da guitarra e a voz da artista. Suas letras parecem ainda mais implacáveis. “Gosto de me humilhar e constranger o ouvinte”, disse à Spin em 1993.

Nascida na zona rural, PJ cresceu em uma fazenda escutando Blues, ao mesmo tempo em que tocava guitarra e sax em bandas da região. Além de precursores como Howlin Wolf, Muddy Waters, John Lee Hooker, ela também admira “tipos únicos” como Tom Waits, Nick Cave e Captain Beefheart. As referências se combinaram e geraram uma voz única já no primeiro registro. Ela já declarou em diversas entrevistas que se espelha no sentimentalismo e na aspereza para suas próprias composições e chegou a questionar na época, aos 22 anos, por que ser jovem significa falar sobre banalidades? Após a fase no Automatic Dlamini, Dry foi o momento de vomitar tudo o que ela precisava falar. Essas primeiras composições navegam por temas recorrentes de sua trajetória, desde imagens bíblicas (“O Stella”) a reflexões sobre feminino e masculino (“Dress”), e ainda evidenciam seu tom visceral (“Happy and Bleeding”), que apareceria muitas vezes durante a década.

Destaques: “Dress”, “Hair” e “Water”

Rid Of Me (1993)

“Sabia que queria trabalhar com Steve Albini ao escutar Pixies e o tipo de som que ele conseguia tirar, algo diferente do que eu ouvia no vinil. Queria aquele som muito real, era o que caberia nas músicas. Parece como tocar objetos ou sentir a textura da madeira. O som dele é assim para mim, muito tangível, como se você conseguisse sentir a sala”, PJ diz à Spin em 2013. Em Rid Of Me, o encontro entre Albini e Harvey foi certeiro e aprofundou a proposta intensa, agressiva e catártica. Ele tornou o som ainda mais original com a possibilidade de, sutilmente, agregar novos elementos, além de promover um arremate mais minucioso. O trio inglês ficou duas semanas enfurnado com o produtor em um estúdio no interior do Minnesota. Era inverno e eles estavam no meio do nada. A concentração absoluta e o ímpeto em acertar o alvo resultaram em 14 faixas que deram nome e sobrenome a uma artista fundamental do Rock Alternativo.

As letras do disco flutuam com facilidade por temas como violência, raiva, sexo, amor, da mesma forma que mantêm altas doses de ironia e descrições gráficas. Na faixa-título, a abertura do registro, ela pede para o amado lamber suas feridas e está destinada a fazê-lo se arrepender de a ter conhecido. De certa forma, se levarmos em conta a idade da autora, primeira metade dos 20 anos, muitas ânsias são relacionadas à necessidade de provar algo a alguém – seja um relacionamento ruim (“Rub ‘Til It Bleeds”) ou não ser levada a sério (“50 ft Queenie”). Aqui também se solidifica uma voz-referência para o o riot grrrl, movimento de bandas feministas de Washington, de onde sairiam nomes como Bikini Kill, Bratmobile e posteriormente Sleater Kinney. Quando o disco foi lançado, PJ instantaneamente se tornou a voz dessa sua geração de mulheres punks que podem ser sádicas ou vulneráveis e podem gritar sobre o que quiserem – a inglesa jogou gasolina em uma chama pronta para ser acesa do outro lado do Atlântico. Visionária, em “Man-Size”, ela já tirava sarro da masculinidade frágil – “Can you hear can you hear me now/ I’m man-sized”. Era apenas o segundo disco oficial de PJ Harvey e ela já havia lançado um clássico.

Destaques: “Legs”, “Yuri-G” e “Man-Size”

To Bring You My Love (1995)

Adeus aos parceiros Vaughn e Ellis: no terceiro disco, PJ opta por reformular a banda a fim de tocar menos guitarra e explorar sua faceta de vocalista. O release oficial do disco diz que “Harvey buscava explorar um lado mais teatral no palco”, aspecto que também se tornaria fundamental para o que viria nos próximos anos – figurinos, objetos de cena e detalhes que adicionariam ainda mais dramaticidade à performance. Esse trabalho marca a primeira grande mudança estética da britânica, a começar com os produtores. Há quem julgue TBYML como o mais acessível de sua discografia, e muito tem a ver com o som menos urgente e também com as camadas adicionais – teclados, flertes com Trip Hop e sons de orquestra. A atmosfera sombria de Dry e Rid of Me ainda permanece, mas, agora, atualizada em uma nova paleta de cores e equipada por uma recém-inaugurada gama de recursos musicais.

Quem assina a produção do registro ao lado de PJ e John Parish é o produtor britânico Flood, que havia trabalhado com Erasure, Smashing Pumpkin, Nine Inch Nails, Depeche Mode e U2. O engenheiro de áudio, que trabalhou com mais dezenas de bandas ao longo dos anos, também produziria, 21 anos depois, The Hope Six Demolition Project, da própria PJ. Com potentes riffs de guitarra, é comum vermos comentários de fãs pela web exaltando To Bring You My Love justamente por conta da energia e pungência, que são como doses sonoras de adrenalina. (Coisas como “Meet Ze Monsta” ou “Long Snake Moan” são capazes de levantar defunto ou servem de trilha sonora para executar vinganças)

São dez músicas que, de uma só vez, evocam a artista do passado e apontam para quem ela queria ser no futuro. Visualmente, ele também evolui do preto para o azul, reafirmando a metáfora de fluidez e profundidade que a água abarca, além do próprio Blues – também reverenciado ao longo do repertório. Inclusive, em “Down By The Water”, a mais tocada da artista no Spotify e um dos hinos dos anos 1990, há uma referência repaginada em “little fish, big fish swimming in the/ Come back here and give me my daughter”. A famosa versão de “Salty Dog Blues”, feita por Papa Charlie Jackson, traz a palavra “quarter” (moeda) em vez de “daughter”. A mudança pontual arremata a narrativa com destreza, alterando o significado da frase. Agora, no contexto da história da morte de uma filha, ela fala sobre outro tipo de tristeza.

Destaques: “Meet Ze Monsta”, “Working For The Man” e “Send His Love To Me”

Is This Desire? (1998)

To Bring You My Love foi necessário para sedimentar a evolução de compositora angustiada para frontwoman poderosa (os gringos costumam chamá-la de “Rainha Gótica”). Já Is This Desire? surge após um esgotamento do ritmo acelerado de promoção do trabalho anterior. A produção continua com a dobradinha entre Harvey e Flood, deixando a guitarra em segundo plano para dar destaque para a programação eletrônica, os timbres do teclado e a inclinação ao Trip Hop (“The Wind”). Há ainda contribuições marcantes como, por exemplo, “Angelene”, uma das mais soturnas, que traz assinatura de Mick Harvey, parceiro de longa data de Nick Cave.

A questão central do trabalho surge na reflexão do título: “o que é desejo?”. Será que é isso que estou vivendo? A confusão de sentimentos criou atmosferas etéreas com texturas sombrias, menos marcadas pelo timbre da guitarra, mas ainda assim com instrumental detalhista e destaque para o som das teclas. “Escrever em diferentes instrumentos muda o resultado da música. Costumava fazer na guitarra e elas saem fisicamente diferentes daquelas que fiz no teclado – que foi o processo de Is This Desire?”, explicou PJ, ao The Guardian, em 1999. As letras saem após sessões de terapia e investigações sobre si mesma e, nada interessada em apontar dedos, PJ batiza as canções com nomes femininos (“Catherine”, “A Perfect Day Elise”, “Joy”). São digressões, por meio de personagens, a respeito de experiências poucos usuais vividas por mulheres. A lupa da mídia da década de 1990 era implacável nas artistas, promovendo críticas e uma constante discussão sobre as supostas aparências que elas deveriam ter. O disco, além de explorar essa temática, reafirma a inclinação literária da autora, que cria, com maestria, projeções de si nas protagonistas dos universos criados nas canções.

Destaques: “A Perfect Day Elise”, “Catherine” e “The Garden”

Stories From The City, Stories From The Sea (2000)

Chegamos ao trabalho que mudaria tudo na história de PJ, que, naquele momento, aos 30 anos, buscava se reinventar. “Depois de experimentar alguns sons terríveis em Is This Desire? e To Bring You My Love – em que eu procurava por sons sombrios, perturbadores e nauseantes –  Stories From The City… foi a reação a isso. Pensei: ‘não, eu quero beleza absoluta’. Quero que este álbum cante, voe e seja cheio de reverberação e melodias exuberantes. Quero que seja minha bela, suntuosa e adorável obra”, disse à revista Q, em 2000. A capa, com ares cosmopolitas, onde é noite, mas as luzes da cidade saltam tão fortes aos olhos, já dá indícios da missão de PJ.

O registro, lido como Pop pela artista, rendeu seu primeiro Mercury Prize, além de indicações ao Grammy e ao Brit Awards. Houve quem sentisse falta da atmosfera tensa dos últimos trabalhos, mas, ao mesmo tempo, o disco encantou novos ouvintes. Este é o primeiro registro em que PJ divide os vocais e o escolhido foi ninguém menos do que Thom Yorke, àquela altura, já com status de lenda. As guitarras voltam gloriosas, especialmente em “The Whores Hustle And The Hustlers Whore” ou “This Mess We’re In”, e é o tipo de álbum que aparenta já nascer da vontade de ganhar os ouvintes à primeira audição.

Criado após uma imersão de seis meses em Nova York, Stories pode parecer mais inclinado ao Rock Alternativo e ao Folk americano, porém mesmo nesses momentos não soa comum. Os gritos de “Kamikaze” se contrapõem ao som marcante da guitarra agressiva com riffs sujos e toadas aceleradas, o tipo de receita que Polly Jean dominou após cinco discos cheios de nuances sonoras. Se no passado ela falou de amor e relacionamentos por meio de metáforas e simbolismos, neste trabalho, soa franca, direta, objetiva. Em “We Float”, ela reflete sem rodeios sobre as idas e vindas do amor: “This is kind of about you/ This is kind of about me/ We just kinda lost our way”. As dúvidas sobre a juventude, no lugar de criarem confusão, geram certezas, como ela reafirma em “This is Love”– sim, aquele sentimento era amor de verdade. Passando 17 semanas nas paradas britânicas, o quinto álbum de PJ Harvey foi o fechamento brilhante para um início brilhante.

Destaques: “Good Fortune”, “The Whores Hustle and The Hustlers Whore” e “Kamikaze”

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ARTISTA: PJ Harvey

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