5pra1: Weezer

Entre rupturas criativas e retornos inesperados, os álbuns que melhor traduzem a instabilidade e o fascínio da banda californiana

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Fotos: Paul Natkin

A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.

 

 

Poucas bandas conseguiram encapsular a neurose da juventude pós-moderna como o Weezer. Fruto da fervilhante Los Angeles do início dos anos 1990, o grupo não tardou a ser alçado à condição de símbolo máximo do nerd-rock: um subgênero mais estético do que sonoro, que só pode emergir de um colapso entre as camadas mais íntimas da melancolia suburbana e o fetiche por distorção das guitarras power pop. Se os emos choravam a céu aberto e os punks vociferavam em fúria, Rivers Cuomo, cérebro e espelho da banda, aprendeu cedo que os piores sentimentos se processam em silêncio, entre quatro paredes, e depois vazam em forma de riffs colossais, harmonias absurdamente bem compostas e letras que flertam com a auto-humilhação como quem lê poesia confessional em pé no trem lotado. A beleza desconcertante do Weezer é que, mesmo quando soa trivial, é abissal. Mesmo quando parece uma paródia de si, talvez esteja rindo por último. E, no caso deles, nunca se sabe exatamente de quê.

Desde o lançamento do célebre Blue Album em 1994, a trajetória da banda se desenha como um gráfico de cardiograma — picos de euforia crítica e comercial intercalados com vales de incompreensão, boicotes internos, crises de identidade e giros estéticos ora fascinantes, ora embaraçosos. Mas há algo de sublime nesse caos. O Weezer nunca pareceu realmente interessado em consolidar uma identidade fixa. Pelo contrário, sua discografia desafia qualquer tentativa de linearidade ou coerência programática. É como se cada disco fosse um fragmento da psique de Cuomo, às vezes inspirado por filosofias orientais e práticas meditativas; às vezes perdido no labirinto do ego inflado e da busca incessante por fórmulas matemáticas de composição pop; às vezes entregue a pastiches nostálgicos de uma adolescência eterna; outras vezes encenando uma guerra declarada contra tudo isso.

Num mundo em que o rock foi lentamente se tornando uma caricatura de si, o Weezer parece ter encontrado conforto em ser uma caricatura da caricatura. Mas o que parece piada de tiozão em 2005 pode, na verdade, esconder uma das operações estéticas mais complexas do pop recente, um jogo de disfarces no qual a ironia coexiste com a sinceridade em estado bruto. O exemplo mais célebre talvez seja Pinkerton (1996), disco massacrado em seu lançamento por sua crueza e vulnerabilidade, e que hoje figura entre os mais cultuados da história do rock alternativo. Ali, Cuomo transforma sua experiência de isolamento, dor física e rejeição em narrativa operística e grotesca, entre cartas de fãs japonesas, obsessões edipianas e a sensação constante de ser inadequado até para o próprio corpo. Não por acaso, Pinkerton é onde muitos fãs encontram o coração pulsante do Weezer, mesmo que esse coração esteja deformado, coberto por cicatrizes e escondido atrás de uma parede de feedbacks.

Mas o Weezer não é só dor. Há também gozo, sarcasmo, hedonismo e, surpreendentemente, ternura. A banda é capaz de transitar entre o ensolarado otimismo de faixas como “Island in the Sun” e a autoironia quase niilista de “Pork and Beans”, sem parecer incoerente. Isso porque, no fundo, todos esses momentos pertencem a um mesmo universo psíquico: o de um sujeito dividido entre a ânsia por reconhecimento e o desprezo por ele; entre a vontade de ser um rockstar e o impulso de fugir para um quarto escuro e escrever haicais em silêncio. Rivers Cuomo é um artista cuja sensibilidade se aproxima da figura do monge pop, ora enclausurado em Harvard com uma perna operada e um exemplar de Madama Butterfly nas mãos, ora estudando algoritmos para compor hits no estilo de Britney Spears. Tudo isso convivendo em um corpo franzino, de óculos, preso numa eterna adolescência emocional.

Essa é, talvez, a chave para se entender o Weezer, não se trata apenas de uma banda, mas de um projeto existencial. Um experimento em tempo real sobre como sobreviver à fama sem se destruir; sobre como encontrar sentido em riffs simples quando tudo ao redor soa ensurdecedoramente complexo. Em 30 anos de estrada, o grupo lançou mais de 15 discos, flertou com múltiplos gêneros (power pop, emo, new wave, metal, música de videogame, orquestrações barrocas, EDM e por aí vai), e mesmo nos momentos mais erráticos (ou principalmente neles) manteve acesa a fagulha de uma pergunta essencial: e se o pop também puder ser um lugar de fracasso, ambivalência e confissão? Esta lista com cinco discos do Weezer não pretende esgotar esse labirinto, mas pode te guiar por alguns de seus corredores mais estranhos, belos e doloridos.

 

Weezer (The Blue Album) (1994)

Se todo primeiro álbum é, no fundo, um tipo de manifesto, The Blue Album é um dos mais explícitos e relutantes deles. Em maio de 1994, um mês após a morte de Kurt Cobain, quando o rock alternativo tentava entender o próprio luto e recalibrar seu cinismo, surgem Rivers Cuomo, Matt Sharp, Patrick Wilson e Brian Bell vestindo camisas dickies vintages, tênis keds e uma melancolia geek. A partir de 10 canções que moldaram o vocabulário emocional de uma geração, o Weezer inaugurou, de forma involuntária e ruidosa, um novo tipo de masculinidade pop: frágil, obcecada, autoconsciente, capaz de transformar um riff de guitarra num gesto de autoironia.

Produzido por Ric Ocasek (The Cars) e gravado no lendário Electric Lady Studios, o álbum não esconde suas costuras. Ele é artesanal em sua obsessão por harmonia, mas também feroz em sua entrega emocional. Faixas como “No One Else” e “The World Has Turned and Left Me Here” são espelhos colocados frente a frente, refletindo o ego ferido de um narrador ciumento que, após perder o controle, se vê sozinho e confuso, buscando afeto em recordações sexuais e carteiras esquecidas. A sequência revela não só a construção de um personagem masculino disfuncional, mas a consciência disso – como se Cuomo soubesse que seu ressentimento é uma forma de autopunição.

Há algo profundamente psicanalítico em The Blue Album: o desejo reprimido, a nostalgia como trauma, o medo da repetição dos erros dos pais. “Say It Ain’t So” talvez seja o momento mais cru do disco, quando o simples gesto de abrir a geladeira se torna um gatilho para reviver ausências paternas, promessas quebradas e o silêncio espesso das feridas não verbalizadas. A canção cresce em volume e em dor, como se a catarse estivesse escondida num solo de guitarra, e não num divã. O Weezer entende que o barulho pode ser remédio, e que o refrão, quando bem colocado, é uma forma de purgar angústias silenciosas.

Mas o disco também oferece refúgio. “In the Garage” transforma o espaço marginal em santuário, o lugar onde se pode venerar pôsteres do Kiss, colecionar dados de RPG e escrever canções sobre a inadequação sem ser interrompido. Já “Buddy Holly”, com seu videoclipe emulando Happy Days, coloca os desajustados no centro da cultura pop com humor e ternura. Entre o lúdico e o desesperado, o Weezer inaugurou aqui uma estética que hoje ressoa em nomes como Mitski, Car Seat Headrest e até no Drake mais introspectivo.

No fim, The Blue Album é uma equação estranha e perfeita: solos metálicos herdados do Kiss, arranjos vocais à la Beach Boys, letras que combinam o escárnio de si mesmo e vulnerabilidade, além de umaprodução que equilibra ingenuidade e inteligência formal. Não há faixas descartáveis. De “My Name Is Jonas” a “Only in Dreams” (esta última, um épico de oito minutos que deságua numa catarse instrumental), o álbum funciona como rito de passagem para quem já se sentiu deslocado demais para dançar, mas sensível demais para fingir que não dói.

Destaques: “The World Has Turned and Left Me Here”, “Say It Ain’t So”, “In The Garage”

 

Pinkerton (1996)

Se The Blue Album era o diário do nerd carismático, Pinkerton é o bilhete rasgado que ele deixou na porta antes de sumir do mapa. Lançado em setembro de 1996, o segundo disco do Weezer nasce do colapso entre o sonho pop e o trauma real — o que críticos apontam como a origem do emo. Inspirado pela ópera Madama Butterfly e concebido entre turnês exaustivas, uma graduação em Harvard, cirurgias e solidão, Pinkerton é um disco que abandona qualquer verniz de ironia. A produção é suja, os vocais são gritados no calor da hora e os riffs rangem como cicatrizes abertas. Na abertura, com “Tired of Sex”, Cuomo já despeja seu esgotamento existencial-sexual-afetivo. O álbum segue como uma montanha-russa emocional, “Getchoo”, que fala sobre abuso relacional, “No Other One” encena o medo de ficar sozinho mesmo diante do tóxico, e “Across the Sea” flerta com o voyeurismo mais desconfortável.

Tudo isso embalado por uma sonoridade que parece sempre à beira do colapso entre solos imperfeitos, timbres abrasivos, dinâmicas que alternam delicadeza e fúria. Em “El Scorcho”, Cuomo cita wrestlers, operetas e diários de colegas como se tentasse organizar sua própria psique pela escrita, e falhasse lindamente. Já “The Good Life” e “Falling for You” mostram a performance afiada da banda, em que cada batida e distorção é também uma tentativa de se manter de pé. E então vem “Butterfly”, acústica, delicada, devastadora, encerrando o disco com a culpa sussurrada de quem sabe o que fez, mas ainda não entendeu por quê.

Recebido com a estranheza dos fãs em seu lançamento, Pinkerton quase sepultou a banda — que só voltaria com novo álbum cinco anos depois. Mas o tempo agiu de forma curiosa, com a persona lírica do álbum sendo o catalisador para um resgate por novas gerações de fãs. Hoje o disco é cultuado como obra-prima, justamente por tudo que tem de falho. Em tempos de hipervigilância emocional, Pinkerton permanece sensível, necessário e dolorosamente humano.

Destaques: “Getchoo”, “The Good Life”, “Falling for You”

 

Maladroit (2002)

Ao contrário dos dois anteriores, Maladroit nunca chegou perto de ser o álbum preferido, e tudo bem. Porque ele também nunca se propôs a ser agradável. Lançado em 2002, com menos de um ano de distância do polido Green Album, o disco é o retrato de uma banda em curto-circuito criativo, imersa em contradições estéticas, ruídos internos e riffs que martelam mais que seduzem. O título, que em francês significa “desajeitado”, antecipa a natureza fragmentada do álbum: guitarras espessas, letras curtas, melodias trôpegas — como se o rock nerd estivesse tentando soar musculoso sem deixar de parecer sensível.

Mas o caos é calculado. Rivers Cuomo parece menos interessado em agradar e mais em sobreviver à própria neurose. O álbum foi produzido pela própria banda e moldado em tempo real com seus fãs, através de demos lançadas na internet antes do disco chegar às prateleiras. O resultado é um disco ambíguo, por vezes frenético (“Dope Nose”, “Fall Together”), por vezes introspectivo e claudicante (“Slob”, “Death and Destruction”), mas sempre honesto.

É também o primeiro álbum com Scott Shriner no baixo. A nova formação entrega momentos de tensão harmônica que escapam da previsibilidade radiofônica e flertam com o hard rock e o metal sem perder o tino pop. A bateria de Patrick Wilson, firme e expansiva, sustenta os arroubos de guitarra com um groove quase glam em faixas como “Keep Fishin’”. E se o vocal de Cuomo continua a gaguejar entre o desajeito romântico e a autoironia, há aqui uma crueza emocional que o Green Album cuidadosamente evitou.

Hoje, Maladroit é um daqueles discos que crescem com o tempo. Revisitado nos palcos, revalorizado por fãs, ele parece mais coerente com sua época do que se supunha em 2002.

Destaques: “Keep Fishin'”, “Fall Together”, “Possibilities”

 

Everything Will Be Alright in the End (2014)

A arte de voltar atrás exige mais coragem do que ousadia. Com Everything Will Be Alright in the End, o Weezer confronta o próprio espelho, não para reviver glórias passadas, mas para escutar, de novo, o que pulsa sob as distorções. Em 42 minutos de música, Rivers Cuomo retoma a caneta com honestidade, às vezes teatral, às vezes patética, para elaborar um álbum que carrega o DNA do Blue Album e o rancor de Pinkerton, mas com a maturidade de quem já não quer ser herói de ninguém, nem mesmo de si próprio.

Produzido por Ric Ocasek (o mesmo das eras azuis e verdes), o disco caminha com vigor entre o power pop e o rock nerd, numa tracklist que faz jus à mística do título. “Back to the Shack” é confissão e provocação, a banda se despe da cafonice autoconsciente dos anos 2000 e ensaia um retorno à essência. “Eulogy for a Rock Band” e “Cleopatra” dramatizam as ruínas do rock com solos de guitarra que soam como gritos juvenis ensaiados ao espelho. Já “Da Vinci” e “Go Away” (esta com Bethany Cosentino, do Best Coast) diluem o peso emocional em melodias doces e refrões colantes — um Weezer que reconhece seus limites e brilha dentro deles.

O dilema entre voltar às raízes e se reinventar ganha destaque em “Futurescope Trilogy”, um épico instrumental que poderia servir tanto para fogos de artifício quanto para o encerramento de um ciclo: explosiva e progressiva, descaradamente exagerada. Entre dramas de paternidade (“Foolish Father”) e resgates de autoestima artística (“I’ve Had It Up to Here”), Everything Will Be Alright in the End soa como aquilo que sempre se quis ouvir de um Weezer maduro – uma carta de amor rabiscada por alguém que, mesmo vacilante, nunca deixou de acreditar que tudo vai ficar bem.

Destaques: “Back to the Shack”, “Go Away”, “Foolish Father”

 

Weezer (The White Album) (2016)

Se Pinkerton era um diário trancado, e The Blue Album um convite à garagem, The White Album é o som do Weezer descansando em uma casa à beira-mar. O disco, produzido por Jake Sinclair e lançado em 2016, recupera a verve pop ensolarada da banda, mas tempera a doçura californiana com um certo existencialismo de meia-idade. Rivers Cuomo está menos niilista, mais pop, mas ainda esquisito, e é exatamente aí que o álbum ganha singularidade.

Musicalmente, o trabalho opera em uma espécie de fusão entre os riffs distorcidos do início da carreira e o lirismo inocente da música pop dos anos 1960, como se os Beach Boys tivessem passado por um filtro de autoironia nerd. “California Kids” abre o disco como uma miragem colorida de adolescência, enquanto “Do You Wanna Get High?” e “L.A. Girlz” desmontam os clichês românticos com melodias exuberantes e letras que ainda tropeçam nos afetos com a graça dos desajeitados. A produção é polida sem soar artificial, as harmonias vocais são ricas, os arranjos precisos, e há um equilíbrio raro entre energia juvenil e domínio técnico.

Celebrado por fãs e crítica como uma continuação do retorno inspirado de Everything Will Be Alright in the End, The White Album mostra que o Weezer, quando escuta o próprio passado sem nostalgia cega, consegue traduzir suas obsessões em pop inteligente e cheio de frescor.

Destaques: “Do You Wanna Get High?”, “King of the World”, “L.A. Girlz”

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ARTISTA: Weezer

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