A Ambient Music contemporânea em 10 discos

Selecionamos projetos recentes que apresentam novas possibilidades para um gênero que – é importante lembrar – vai muito, muito além de “música ambiente”

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Fotos: Jennifer Medina / New York Times

Da mesma forma que palavras como “saudade” encontram um impasse ao serem traduzidas para outras línguas, o termo Ambient Music passa por injustiças e imprecisões de linguagem. Por vezes, o gênero musical ganha a equivalência de “música ambiente” no português e, certamente, isso lhe tira toda a real complexidade e possibilidades que ele abarca. A partir dessa vaga tradução, parece que estamos lidando com uma música em segundo plano, que serve apenas como pano de fundo e não como protagonista de sua própria expressão. A verdadeira essência, no entanto, não poderia estar mais longe disso.

Desde sua origem, a Ambient Music tem encontrado novas formas de chamar atenção do ouvinte, negando uma escuta meramente passiva e pedindo total atenção para desvendar suas camadas. O início nas décadas de 1960 e 1970 e o “boom” no final dos anos 1980 e começo dos 1990, por vezes, nos força a olhar automaticamente para os grandes símbolos do gêneros, nos limitando a nomes como Brian Eno, Harold Budd, Tangerine Dream, Tomita e Yellow Magic Orchestra. Entretanto, sempre aliado ao experimentalismo e acompanhando as tecnologias musicais, o rumo que a Ambient Music tomou foi bastante diverso no novo milênio e, não raro, passamos batido por discos que redefiniram a forma com que esse gênero nos atinge. Formas essas que muitas vezes fogem daquele estereótipo típico da “música calminha para relaxar”.

Selecionamos 10 discos da última década que colocaram à mesa novas regras para o jogo. Trabalhos que propuseram novos caminhos para um gênero tão inovador em sua origem quanto em seus desdobramentos.

The Caretaker – An Empty Bliss Beyond This World (2011)

The Caretaker é um dos projetos mais misteriosos e ambiciosos da Ambient Music da última década. Idealizado e produzido pelo inglês James Leyland Kirby, sua música permeia um domínio da nostalgia, mas colocado de uma forma fantasmagórica e melancólica. A partir do recorte de faixas de baile dos anos 1920 e 1930, o produtor promove uma manipulação tão intensa dessas peças que eles parecem chegar até nós como que filtrados pela memória. Entretanto, uma memória deteriorada. Esse é um dos grandes temas de  An Empty Bliss Beyond This World: a perda da memória atravessada pelas psicopatologias. Muitas das narrativas construídas nos discos de The Caretaker são acometidas por algo como distúrbios sonoros que promovem um esquecimento – fato que levou a sites noticiarem que o próprio produtor estaria sofrendo de demência precoce. Assim, esse disco traz uma sensação extremamente antagônica para o ouvinte, pois ao mesmo tempo que evoca a nostalgia e o escapismo com texturas etéreas e suaves, o faz de uma forma tão intensa que a realidade vira meramente um resquício.

Oneohtrix Point Never – Replica (2011)

Daniel Lopatin é um dos nomes mais relevantes da música experimental da última década. Por meio da análise da discografia de Oneohtrix Point Never, um de seus principais projetos, é possível perceber como a insaciável sede do produtor por novas formas de expressão o levou a produzir discos tão diferentes entre si, mas iguais em qualidade. Um de seus primeiros registros sob esta alcunha foi Replica, um trabalho de colagens sonoras de diferentes propagandas audiovisuais dos anos 1980 e 1990. A conservação da textura oscilante dos sinais de televisão e VHS certamente dão um ar inconfundível e nostálgico para o registro. Mas um dos grandes destaques aqui é que, mesmo com a colagem brusca e repetitiva de sons, as faixas ganham um tom mais musical do que de um defeito propriamente dito. Daniel Lopatin tem um olhar muito criterioso e vê na limitação tecnológica, nas imprecisões dos formatos analógicos uma possibilidade de criação rica. Replica é considerado por muitos como uma espécie de antecessor espiritual do Vaporwave mais tradicional, principalmente pelo fato de tirar sua inspiração de comerciais e trilha sonora de canais meteorológicos. Um caminho inusitado e novo para a Ambient Music se alastrar.

Julianna Barwick – Nepenthe (2013)

Reunindo toda essência misteriosa que a Islândia parece proporcionar para música, Julianna Barwick colocou no mundo um disco construído sobre o gelo, mas que parece iluminar e esquentar cada canto de nossa cabeça. Gravado na terra natal de Björk, Nepenthe é um daqueles trabalhos no qual as palavras são quase desnecessárias. Apesar deste ser um dos poucos discos da lista que possuem letra, elas funcionam muito mais como um elemento que compõe o campo instrumental do que uma poesia explícita. É como se as palavras de Julianna encontrassem seu significado não no dicionário, mas por meio das texturas ensolaradas construídas pelo registro. Nepenthe traz também uma série de colaborações que somam ainda mais no significado das palavras instrumentais da artista. Nomes como Róbert Sturla Reynisson, da banda Múm, o quarteto de cordas Amiina e um coro de jovens adolescentes islandeses dão um acabamento refinado aos arranjos tocantes de Julianna Barwick.

Tim Hecker – Virgins (2013)

Ao contrário do minimalismo preciso de Brian Eno, Tim Hecker nunca pareceu ser um adepto fiel deste estilo de composição. Sua música traz uma sensação de grandeza desordenada, muito maior do que qualquer delimitação de gênero, tornando até mesmo Ambient Music um termo impreciso para defini-lo. Seu sétimo disco, Virgins, capta esta noção da expansão desenfreada com força e vigor. O termo “parede sonora” não seria apropriado para definir a extensão desta grandeza, pois o grande barato do disco é justamente a não-delimitação das formas de Tim Hecker. No pequeno texto que acompanha o disco, Tim Hecker aborda que o projeto é uma tentativa de explorar campos pelos quais a música eletrônica/digital não é normalmente conhecida: o “fora do tempo, fora do tom e fora de fase”. Entretanto, o disco não se revela como uma composição atonal e, apesar rejeitar a rigidez das estruturas, tudo parece estranhamente alinhado sob um mesmo eixo central. Virgins talvez seja um dos trabalhos mais ambiciosos de Tim Hecker, além de certamente um ponto importante na Ambient Music da última década.

The Haxan Cloak – Excavation (2013)

A Ambient Music tem mostrado que a “música calminha” nem sempre dá conta de expressar a totalidade do que o artista deseja retratar. Apesar de o produtor Bobby Krlic se aventurar por diversas vertentes do Pop, foi em seu projeto The Haxan Cloak  que ele encontrou um lugar propício para expressar toda a escuridão e tenebrosidade dentro de si. Excavation é um daqueles trabalhos cuja intenção já se declara no título. Por meio de sonoridades intensas, macabras, ásperas e sombrias, Bobby Krlic escava pelos limites do desagradável. Diferente de artistas como Pharmakon, seu intuito não é o de suscitar a repulsa nos ouvintes, mas de tentar se aproximar, o máximo possível, de uma expressão que contemple tanto um sentimento orgânico e leve quanto texturas mais tensas e desconfortáveis. É um grande e minucioso trabalho de mosaico, na qual o produtor encontra, em diferentes timbres, encaixes inusitados que provocam sentimentos mistos. Talvez por isso, Bobby Krlic tenha sido convidado para produzir a trilha sonora do filme de terror psicológico Midsommar (2019).

Grouper – Ruins (2014)

Enquanto alguns compositores procuram nos excessos a ferramenta ideal para representar seus anseios, a compositora Grouper parece encontrar na introspecção e solidão a matéria prima para seus discos tão sinceros. Ruins é o seu nono disco e, talvez, o que mais toca o ouvinte em seu âmago. Segundo a compositora, ele é um “processo de digestão de raiva política e lixo emocional”, gravado inteiramente no piano de cauda da Galeria Zé dos Bois, em Portugal. Ao ouvir o registro, notamos a presença solitária dela e é incrível como a sentimos a tão presente e próxima apenas por meio de frágeis acordes de piano e sua voz. A crueza da produção também é um ponto chave deste trabalho, um que encontra seu ápice em uma das faixas na qual o gravador de áudio está com a bateria por acabar e emite um som estridente, que a artista não quis eliminar na pós-produção. Grouper deixa suas fragilidades à mostra e são nesses percalços que o aspecto grandioso do disco se funda.

2814 –  新しい日の誕生/Birth of a New Day (2015)

Em seu surgimento, o Vaporwave foi encarado com relativa incerteza: não se sabia se era produto irônico ou uma proposta artística séria e solidificada. Talvez tenha sido este espaço entre os extremos que proporcionou obras tão interessantes e misteriosas como  新しい日の誕生/Birth of a New Day. O disco é uma colaboração de dois nomes de destaque do gênero: Hong Kong Express, conhecido pela exploração das interferências de sinais digitais como texturas sonoras, e  t e l e p a t h テレパシー能力者, um dos nomes mais prolíficos do Vaporwave. O produto desta parceria colocou não só o Vaporwave em um novo patamar, mas mostrou nvoas possibilidades para a Ambient Music. Ele traz uma construção sonora que evoca a noção de futuro dos anos 1980, algo entre Blade Runner e Ghost In The Shell. Construção que vai em outro sentido e não encontra a fonte de seu samples no capitalismo americano. Aqui, a fonte está em um futuro que nunca existiu e que assume também uma característica de passado. Uma viagem no tempo mais doida que a série Dark.

Emily A. Sprague – Mount Vision (2018)

Emily Sprague tornou-se conhecida por seu projeto Florist, uma banda que toca um Folk intimista no melhor estilo singer-songwriter. Entretanto, sua experiência musical não se limita à banda. Ela vem atuando como produtora em diversos projetos e um de seus discos mais intrigantes é Mount Vision. Na superfície, ele poderia ser encarado facilmente como um disco de meditação, devido às texturas e sintetizadores que ele apresenta, quase como um mantra constante. Contudo, as escolhas particulares de Emily, juntamente a um trabalho de mixagem pontual, tomam emprestado toda a delicadeza adquirida de sua banda Folk e a espalham por entre as diferentes camadas. Cada faixa ganha o nome dos timbres em que foram compostos, uma espécie de homenagem às ferramentas que a ajudaram a compor o trabalho. A grande lição que fica deste disco é que a Ambient Music não precisa ser pretensiosa ou composta em estúdios audiófilos Hi-Fi. Basta uma intenção sincera para construir um universo tocante e grandioso.

Ana Roxane – ˜˜˜ (2019)

Um dos aspectos mais significativos da Ambient Music é como ela é capaz de abarcar tanto elementos diferentes sob um mesmo escopo criativo. Não interessa o quão mirabolante é sua ideia, sempre haverá espaço. É justamente deste aspecto que Ana Roxane, artista sul-asiática e criada em Los Angeles, se valeu para compor seu disco de estreia, ~~~. Sua infância foi permeada por divas R&B dos anos 1980 e 1990. Já a sua adolescência foi marcada por uma presença católica forte, permitindo-a cantar nos coros da igreja. Em sua idade adulta, ela pode viajar para a Índia para estudar técnicas vocais, aperfeiçoando sua principal ferramenta. Tudo isso está sintetizado neste disco, desde a ternura dos gêneros mais populares até a espiritualidade dos universos mais religiosos. Uma amálgama de referências que deixa o ouvinte quieto até que possa refletir sobre o que acabou de ouvir. Este é um trabalho que relembra a importância do silêncio na Ambient Music. Enquanto outros artistas experimentam com os limites do barulho, Ana Roxane encontra no silêncio palavras mais significativas para nos entregar uma experiência verdadeiramente única.

Ellen Arkbro – CHORDS (2019)

A simples premissa de CHORDS é uma materialização das fundações da Ambient Music. Composto pela musicista Ellen Arkbro, o disco traz duas faixas de 15 minutos cada, percorrendo diferentes e longos acordes – na primeira, o órgão é o protagonista e, na segunda, a guitarra. Ellen se escora na forma como a música ocupa muito mais espaço do que tempo, como se pensa. Ela não está preocupada em pensar que quinze minutos é demais para se ouvir um mesmo acorde. Seu intuito é de entender as diferentes sensações e intuitos de cada harmonia, compreendendo a natureza particular de cada um e entendendo suas relações com seus sucessores. Essa transposição do tempo para o espaço traz uma forma de se pensar na música como algo que ocupa parte de nós. A música funciona, portanto, não como algo a se escutar, mas como uma forma a se sentir e, principalmente, incorporar. É um trabalho bastante sinestésico, tornando-se uma experiência completa e que transcende o termo Music incorporado a Ambient.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.