A assinatura de Daniel Lopatin em “Dawn FM”

Como a habilidade com sintetizadores e as memórias afetivas do produtor americano foram decisivas para o mais recente disco de The Weeknd

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Fotos: Lauren Lancaster/The New York Times

Desde que a crítica musical é crítica musical, é praticamente inevitável analisar tendências dentro da música pop, apontando que, se variados artistas bebem de certa influência ou linguagem, há algo como uma corrente, um momento, uma fase que é capaz de definir determinado contexto. Na música do século 21, um termo usual para entender “momentos” do pop é o revival. Estéticas de décadas passadas são revistas à luz de elementos mais contemporâneos e, a isso, é atribuído um nome que destaca esta relação algo anacrônica entre tempos distintos – seja colocando o sufixo revival (disco revival, emo revival) ou acrescentando um prefixo que remeta à novidade (neo soul, nu – ou new – metal).

Pode parecer apenas uma escolha semântica ou uma influência musical, mas esse revival muitas vezes reflete a história de vida de produtores. Além da regra não oficial de que o pop se volta a sons de 30 anos antes – e não faz o mesmo com relação à década imediatamente anterior –, há produtores atuais que simplesmente se cercam de referências que ouviram durante a juventude. O revival pode ser uma predileção natural – e até autoral.

Entre os períodos mais referenciados no pop atual estão os anos 1980 e toda a diversidade musical abrigada nele. Os hitmakers da atualidade traduzem a riqueza ímpar – sonora, estética e emotiva – e a fonte inesgotável dessa (injustiçada) década. Um dos exemplos recentes desse movimento é o novo disco de The Weeknd, Dawn FM (2022)

Está tudo lá: a ode pela cultura de rádio, sintetizadores intensos, sequenciadores martelando graves com toda potência, interlúdios que ambientam o ouvinte, além de  melodias Pop que apenas The Weekend saberia escrever. Entretanto, o disco soa estranho e o termo aqui não é utilizado de forma pejorativa, mas como uma característica propositalmente estética. Parece que estamos lidando com uma releitura muito particular da década de 1980, muito diferente dos artistas da primeira metade dos anos 2010, como FM-84, Mitch Murder e Kavinsky. Estes nomes procuravam fazer releituras fidedignas de trilhas sonoras de filmes de ação, porém com uma tecnologia atualizada – o chamado retrowave. Em Dawn FM, os sons são familiares, mas não ecoam exatamente o estereótipo dos anos 1980 estereotipados que o retrowave (ou synthwave, para alguns) trouxe de volta. Há uma aura muito específica e misteriosa ao redor das 16 faixas do disco e, apesar dessa direção ter um grande peso por conta do nome de The Weeknd, há certamente um fator a ser considerado nestas observações: o produtor por trás deste disco. Estamos falando de Daniel Lopatin, importante figura da música dos 2010 e que, agora, imprime todo seu imaginário criativo produzindo canções Pop.

Uma passagem rápida pela infância de Lopatin revela que os anos 1980 sempre foram referência essencial para a construção de sua persona artística – para além do acaso de ter nascido nesta década. Muito antes de se tornar um produtor profissional, a década em questão influenciava Lopatin de uma maneira muito forte. Seu pai, grande apreciador de jazz/fusion, possuía um sintetizador Juno-60 e, volta e meia, deixava o pequeno Lopatin brincar de fazer diferentes timbres. O instrumento é responsável por moldar sons icônicos dos hits da década de 1980. A partir de então, o produtor procurou levar estes diferentes sons para seus projetos musicais. E nem sempre era bem recebido – como mencionado na entrevista para Musicradar, em que ele conta que foi dispensado de um teste, porque a banda procurava por um baixista que tocasse baixo, não um nerdola dos sintetizadores. Muito tempo se passou desde esse primeiro encanto com os sintetizadores – mas a magia por trás desse som se perpetua até hoje nas faixas que Lopatin produz. Isto é algo que fica muito claro nos dois singles de Dawn FM, “Sacrifice” e “Take My Breath”.

Entretanto, ainda não está explicada a particularidade estranha de Dawn FM. De onde Lopatin tirou a inspiração para criar uma atmosfera que é, ao mesmo tempo, nostálgica e fantasmagórica? Algo que parece ser atual ou ao menos referencial, mas também distante, que nos escapa. Para começar a delinear alguma resposta é preciso voltar ao Lopatin do começo dos anos 2010, quando surge um gênero chave (e polêmico): o vaporwave. Ao produtor é atribuída uma parcela de responsabilidade por ter criado as bases desse gênero em seu disco Eccojams Vol. 1 (2010) – sob o nome de Chuck Person. A sonoridade deste trabalho aponta algumas relações com o trabalho de The Weeknd, pois aqui é formada uma das principais características de sua estética: a relação com a memória. Ouvir esses samples cheios de reverb, com tonalidades abaixadas e que parecem ter sido retirados diretamente de uma fita cassete com hits de supermercados dos anos 1980, constrói um jogo sinestésico entre o som e a memória. O apelo deste proto-vaporwave, por assim dizer, é justamente trazer o ouvinte para este terreno impreciso em que as lembranças não são delimitadas precisamente, mas evocam uma sensação indecifrável e de constante dúvida a respeito de suas reais origens. E essa abordagem está dispersa pela obra de Lopatin, principalmente em seu projeto experimental Oneohtrix Point Never.

Começamos assim a compreender o universo de Dawn FM. Apesar dos elementos clássicos oitentistas estarem todos lá, a fusão entre as melodias chicletes de The Weeknd e a aura misteriosa de Daniel Lopatin é decisiva para uma experiência que transcende o mero estereótipo nostálgico – e que ainda é incrementada pela voz de Jim Carrey, narrador escolhido para interlúdios e vinhetas pelo repertório. O rádio, inclusive, é elemento afetivo fundamental para Lopatin e está presente em outras produções de sua carreira – a ambientação composta por interlúdios/vinhetas faz parte de um de seus mais recentes trabalhos, Magic Oneohtrix Point Never (2020), título em homenagem ao programa de rádio Magic 106.7, um dos preferidos do produtor, transmitido pela estação WMJX Boston. Dawn FM tem seu teor enigmático intensificado pelas ondas do rádio: há sempre um mistério (maior) sobre o que vem por aí – seja uma balada romântica em “Out Of Time”, um dueto com Tyler, The Creator ou uma narração de Quincy Jones.

Ao mudarmos o foco de Dawn FM de The Weeknd para Daniel Lopatin, descobrimos um universo de referências e dinâmicas criativas que justificam parte dessa aura estranha e, ao mesmo tempo, tão pop. O passado do produtor, misturado a referências particulares, gêneros fantasmas e ao uso da memória como instrumento fundamental são alguns dos elementos que elevam o nível do disco e o desviam do mero saudosismo. Apesar de ter grande vínculo com os anos 1980, Daniel Lopatin não traz essas referências apenas pela nostalgia, ele as utiliza como linguagem intrusiva e estranha – o que torna o passeio noturno ainda mais intenso e marcante.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.