A dança particular de SANDRO

No meio do caminho entre Reginaldo Rossi e Mac DeMarco, músico gaúcho lança disco especial para a quarentena e tenta se adaptar a ideia de lives

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Fotos: Bruno Queiroz / Renan Queiroz

“Tô mais lascado que vampiro no nascer do sol / Mas decidi sair”, proclama SANDRO, em seu single “Dança”. O verso vai de encontro ao sentimento inquietante que nos assola durante a quarentena. Um dos grupos mais prejudicados no período é o de quem trabalha com música, já que shows, eventos e festivais foram cancelados ou adiados. A essa altura, no entanto, muitos artistas já estão se movimentando e criando maneiras de manter a proximidade com o público, seja por meio de lives nas redes sociais, ou com novos lançamentos.

Lançado no dia 2 de abril, Músicas que nunca seriam lançadas não fosse a quarentena (2020), como o próprio o título já entrega, trata-se de um disco não planejado pelo gaúcho Sandro Silveira. São treze faixas que estavam engavetadas, entre versões cruas de singles já lançados e música inéditas, com arranjos diferentes e letras inacabadas. As gravações da coletânea datam de 2016 e 2017 e foram feitas no próprio quarto de SANDRO, em São Paulo (SP) – logo após se mudar de Gravataí (RS), sua cidade natal –, revelando uma atmosfera muito particular do processo criativo do artista.

A ideia surgiu, em parte, para suprir o adiamento do lançamento de seu primeiro álbum de estúdio, cuja gravação estava em andamento antes da quarentena. Ao mesmo tempo, foi a forma encontrada pelo músico para mostrar outra faceta de sua figura artística ao público durante o momento de isolamento social. Liberar esse trabalho para o mundo, contudo, não foi uma decisão fácil. “No começo fiquei meio receoso. Demorei um pouco a tratar esse lance da imagem com mais leveza, pois sempre levei muito a sério. Mas acredito que, para quem realmente se interessa pelo que produzo, seja curioso conhecer esse lado inacabado e imperfeito. Adoraria ver algum de meus ídolos errando ao vivo, isso humaniza o artista”, conta. A inspiração para a coletânea veio da mixtape Soul Trash (2019), lançada por Toro y Moi, uma de suas principais referências musicais.

Assim como no registro de Chaz Bundick, as faixas de Música que nunca… têm os títulos exatamente idênticos ao que SANDRO deu para os arquivos das gravações salvos em seu PC. Algumas são primeiras versões de singles e canções do EP Love Dance Cafe (2019): “linear com toledo v1”, primeiro registro de “Linear”, com bateria gravada por Pedro Toledo, do grupo Supercombo; “Batom celular”, gravação das ideias de acordes para “Batom” feita com o celular; e “qépv1”, protótipo de “Quando É Pra Valer”. Esta última também está presente no disco em uma de suas versões finais, intitulada “Quando é pra valer valendo”. Mesmo caso de “Dança”, reapresentada como “dança pré”, e “1989”, com o título “1989 para tuyo ouvir”, além de “SEA boy”, advinda de “Boy”.

Brega Cool: Pavement, Chitãozinho & Xororó e Napoleon Dynamite também entram na salada de influências de SANDRO

“O brega é aquela coisa clichê, porque é popular e todo mundo conhece. Eternamente, quando tocar ‘Garçom’, todo mundo vai reconhecer, cantar junto e se divertir”

Outras faixas são curiosas, como “projeto sexo agora 19b”, que é provavelmente a décima nona versão da “parte b” de “Sexo Agora”, que SANDRO compôs em três partes (a, b e c) direto no computador. Já “vc é” é uma das versões de “Dança” com versos trocados. “Eu andava com ‘Tô mais lascado que vampiro vendo o pôr-do-sol’ todo dia na cabeça e acabou entrando para essa versão. Até que me alertaram que não fazia sentido algum! E aí eu troquei para ‘vampiro no nascer do sol’”, lembra. Entram no disco também “prasemprefrida”, “troca” e “por favor”, três versões de faixas que o músico gravou com sua banda de Gravataí, a Frida.

Foi com o grupo, influenciado principalmente pelos britânicos do Travis, e também com a Tapete Persa, banda punk, que SANDRO deu os primeiros passos na cena independente – enquanto construía seu networking fazendo direção de palco e iluminação de shows. Enquanto bebia da fonte do Rock Indie dos anos 1980 e 1990, como Pavement e Flaming Lips, e da MPB de Caetano e Bethânia, Sandro mantinha bem claro seu objetivo de um dia tocar no radinho de pilha, aquele que cresceu escutando de Chitãozinho e Xororó a Paralamas do Sucesso com sua família. Nesse sentido, ele não só entende, como gosta quando seu público o classifica como “brega cool” ou o associa a nomes como Mac DeMarco, Donny Benét, Cola Boyy e até o rei Reginaldo Rossi. “O brega é aquela coisa clichê porque é popular e todo mundo conhece. Eternamente, quando tocar ‘Garçom’, todo mundo vai reconhecer, cantar junto e se divertir”, explica.

A estética “trash” está presente nos clipes de SANDRO no estilo vintage das roupas e acessórios, como moletons de personagens – principalmente o do Ursinho Pooh, seu preferido –, corta-ventos, dad shoes e óculos retrô. A inspiração vem de clipes de outros artistas e filme desses períodos, como no de “Linear”, por exemplo, que tem referências ao (já) clássico filme Napoleon Dynamite (2004). Também é frequente para SANDRO se aventurar como ator nos próprios vídeos. “Na minha adolescência eu só assistia a clipes na MTV. Eu pirava nos vídeos do Travis, principalmente, que seguiam uma narrativa e os próprios membros da banda eram personagens. Eu gosto de atuar, então decidi aplicar essa ideia nos meus também”, conta.

Se por um lado, durante a quarentena, SANDRO decidiu jogar sua faceta mais verdadeira para o mundo por meio de um disco, por outro ele diz que ainda não se acostumou a dar as caras nas lives das redes sociais. “Na primeira eu preparei vários equipamentos para transmitir a melhor qualidade de som possível, mas o resultado foi péssimo. Ontem fiz uma só com violão usando o microfone e fone de ouvido e deu mais certo”, conta. Sobre o primeiro disco de estúdio, o cantor diz que reservará o lançamento para depois da crise do coronavírus, mas adianta que as novas músicas estão bem diferentes do que vem fazendo até o momento. Nesse meio tempo, ele tem alguns outros planos: “Acho que vou lançar uma versão totalmente acústica da coletânea. Estava pensando no banho hoje: por que não uma em espanhol?”.

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ARTISTA: Sandro

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