A Erudição É Popular

Músicos como Serafina Steer quebram cada vez mais as fronteiras dos Clássicos, trazendo para seus devidos estilos elementos que aprenderam com o erudito

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Fotos: Felipe Pagani

Se há relativamente pouco tempo atrás a música popular se distanciava propositalmente da erudita, as duas forças tem entrado em um equilíbrio pacífico, harmônico e até mesmo interdependente nos últimos anos. Quando o Rock surgiu, e com ele toda uma indústria fonográfica, sendo a voz da juventude e uma nova proposta na maneira de se fazer e ouvir música, aquilo que era feito há séculos caiu no desgosto de quem se interessava em ouvir apenas o som dos instrumentos elétricos acompanhados de bateria.

Daí, ao longo das próximas décadas, os preconceitos foram diminuindo e, aos poucos, o “fazer Rock” (em um sentido bem amplo) foi deixando se influenciar mais e mais pela música feita aos moldes clássicos, com a única intuição de ser aproveitada por si só, sem aquele acompanhamento permitido pela repetição dos temas (como o modelo de estrofes e refrão que estamos tão acostumados). Se isso acontece por uma evolução estética natural, por uma questão até mesmo mercadológica ou seja lá o que for, é complicado afirmar. Independente disso, é inegável que a música popular (ou seja, a não erudita) tem apenas lucrado com sua mente aberta para aprender com os clássicos.

Serafina Steer – Night Before Mutiny

Os bons músicos eruditos são aqueles que sabem reproduzir com maior fidelidade a composição que está na partitura, com grande fluência em como tocar seu instrumento. Isso acontece não só com muito e muito treino, mas também com um conhecimento muito grande de como as notas dialogam logicamente (matematicamente) entre si dentro de uma melodia – o que permitiu, por exemplo, um gênero que quase fica no meio-termo entre a erudição e o popular, que é o jazz (e sua influência em nossa música é tão grande que vale um artigo por si só).

O artista que estuda música nesse nível acaba sendo alguém que sabe compor com uma fluência muito maior que aquele treinado apenas no “arroz e feijão” da música popular e, quando se arrisca nos gêneros que nós não-eruditos ouvimos, fica difícil não quebrar os limites estéticos que os estilos possuem. Esse perfeccionismo leva a uma ótima tendência a aproveitar ao máximo cada elemento disposto para a composição ou para a produção de uma faixa.

Mogwai – Friend of the Night

Quanto aos instrumentos usados, aí há duas vantagens. A primeira reside nessa mesma ambição de dominar seu instrumento – e se você já viu um bom instrumentista tocando uma música fraquinha sabe que a experiência é mais agradável do que ver alguém sofrível tentando interpretar uma composição brilhante. E a outra tem a ver justamente com os timbres que quem estuda música clássica acaba conhecendo e sabe incorporá-los ao Rock, Indie, Soul ou o gênero que for, ou, além disso, criar subgêneros e estilos próprios dessa influência, como o Post-Rock.

Lembro de um evento que participei promovido por uma rádio de música clássica há uma década, onde uma das autoridades dessa arte se mostrava surpreso em como as bandas “que os jovens ouvem hoje em dia” traziam instrumentos antes só usados em orquestras. Hoje, seria surpreendente alguém estranhar a presença de um desses timbres em uma boa produção.

SILVA – A Visita

Como música também é negócio (estamos falando de uma Indústria Fonográfica – ou, mesmo no caso dos artistas independentes, de uma profissão que precisa render algum trocado se o músico vive da arte), é natural que o mercado competitivo faça algumas tendências como essa acontecerem para que as obras mais fortes dominem as mais fracas e vençam a concorrência.

Com isso, a figura de quem é o músico que se dá bem tem mudado também hoje em dia. Por mais que alguns ainda valorizem aquele status de rockstar de uma era atrás, os artistas mais respeitados tem sido aqueles que mais entendem de música de verdade – seja ao tocar vários instrumentos, no domínio que tem de sua voz o em como sabe orquestrar os mais diversos elementos ao criar composições interessantes para os ouvidos de hoje, já tão cansados do básico.

Balmorhea – Days

A linha que divide a música clássica da popular não é assim tão tênue e, provavelmente, estará ali por um bom tempo ainda. Mesmo assim, a maneira com que os gêneros feitos fora da erudição tem se aproveitado dela cresce mais a cada dia e todos só tem lucrado com isso, principalmente o ouvinte.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.