A Escolha É Sua: Música pra Ser Vista

Produção de videoclipes hoje passa por uma época decisiva em sua relevância e qualidade

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Uma história que eu só conheço de ouvir falar é o impacto que houve quando decidiram produzir vídeos de música especialmente para a televisão e, poucos anos depois, uma emissora surgiu com uma programação dedicada apenas a isso. A partir dali, o que a indústria fonográfica produzia não era mais apenas para os ouvidos, não era mais algo para tocar ao fundo de alguma atividade. Você parava, sentava e via.

Outra história de um passado cada vez mais distante que eu conheci pessoalmente foi a de chegar em casa da escola e passar o dia inteiro assistindo aos programas da MTV, algo que meus pais nem sempre aprovaram, só que acabou me fazendo muito bem pra criatividade, já que ou as músicas me inspiravam, ou eu acabava aprendendo alguma coisa com os videoclipes, mesmo aqueles das bandas que eu não curtia.

A época a qual me refiro era a virada de década, século e milênio, o que era o fim dos anos 1990 e o início desta era que vivemos. Ter música passando na televisão já não era nenhuma surpresa e a estética começada nos videoclipes já estava muito consolidada, tanto é que o VMB (Video Music Brasil, premiação de clipes da MTV) já acontecia há uns anos. E é por isso que a produção ali já era muito rica, sempre disposta a surpreender o espectador com originalidade, principalmente por um caráter vanguardista que essa linguagem ainda possuía desde os anos 1980.

Entenda: Você sentava, ligava a TV e os clipes iam passando. É óbvio dizer isso, mas, como é muito diferente da nossa postura como espectador na Web hoje, é necessário reforçar que eu e nenhuma outra pessoa do público da MTV escolhíamos quais seriam os vídeos na programação. É claro que a gente manjava o que passaria no Disk MTV e no Top 20 Brasil, mas você ficava lá vendo (e sem smartphone pra se distrair) até passar algo que curtia. No meio tempo, os clipes se viravam pra prender sua atenção e você não mudar de canal.

E é por isso que eu tenho observado que os videoclipes hoje estão, sim, menos interessantes. Antes que você se incomode com a afirmação, preciso dizer que isso é natural, já que a produção hoje é extremamente maior (qualquer um pode ter uma câmera e software de edição), então são menos os vídeos que se destacam. Porém, aqueles que conseguem entrar em nosso imaginário, fazem isso com muitos louvores.

Eu não sou o único que tem essa impressão. O diretor Daniel Ferro também vê que a atenção dada aos clipes hoje é outra. Para ele, “a produção se divide entre os que entendem que um clipe é uma ferramenta de divulgação tão importante quanto um show e a galera que quer fazer o clipe só por fazer e riscar da lista de tarefas”. E isso não significa um investimento de dinheiro maior na gravação, mas também na vontade de explorar boas ideias e realizar algo criativo. Ferro afirma que vários clipes “tiveram muito orçamento e não ficaram legais, assim como o inverso também ocorre muito, do clipe sem grana ficar bem legal e resolvido”.

Para Jeremiah, que também dirige clipes e realiza vídeos para o site La Blogothèque, falta algo original. “Algo diferente”, explica, “mas também algo original no primeiro sentido da palavra, algo que volte às origens, algo autêntico”. Em uma época em que a grande maioria dos vídeos parece tentar seguir um só padrão (as mesmas lentes, o mesmo tratamento de cor, planos convencionais), o artista francês afirma que “pessoalmente, sempre busco algo simples e cru, improvisado, e sempre tento me distanciar das tendências estéticas”, justamente para tentar algo mais original.

“Hoje pra mim, os melhores diretores de clipes, são aqueles que tentam fugir do convencional”, comenta Daniel Ferro, “adicionar um elemento lúdico extra que vai além do que a própria música sugere”. Muitas bandas, no entanto, optam por trabalhos mais seguros, na ideia de que terá mais exposição ou agradará mais o público se fizer algo parecido com o que os outros fazem (e isso vale também para o nicho dito “alternativo”, mesmo para quem tem uma visão totalmente diferente na hora de compor). O resultado é sempre um trabalho de fotografia bonito, mas ordinário, do grupo tocando em uma locação bacana ou uma historinha que siga o clima da canção.

“Não existe mais prazer, pra um diretor de clipe, do que fazer um vídeo de uma música que tem seu valor”, afirma Ferro, “as coisas ficam mais fáceis. A edição flui, tem ritmo. As letras da canção se unem às imagens e criam uma nova percepção, tanto do vídeo quanto da música”. “É uma união do audiovisual completa”, conclui.

Os profissionais do audiovisual estão prontos para ousar e criar obras diferentes, mas não cabe somente às bandas saberem valorizar essa criatividade. É papel também dos meios de exibição, como a MTV já foi um dia majoritariamente e hoje permanece como um disseminador de clipes. “Agora você pode assistir a um mesmo clipe várias vezes, quando antes você tinha que esperar um canal transmiti-lo”, comenta Jeremiah, “e isso é muito paradoxal porque, mesmo tendo muias opções, a massa sempre vai atrás de uma mesma coisa, isso porque grandes canais, como YouTube e Vevo, empurram sempre os mesmos artistas sem alma, como a TV e o rádio fizeram por décadas”.

Se cabe ao público escolher ao que vai assistir em sua tela, também cabe a nós sabermos valorizar as melhores produções, aquelas que se destinam a criar algo novo e explorar a linguagem de traduzir uma música para o vídeo. Imagine o impacto que essa arte continuaria tendo para nossa cultura se te desse vontade hoje de chegar em casa e ficar horas só vendo videoclipes, mesmo sem curtir algumas das músicas. Por experiência própria, sei que vale a pena.

PS: Os clipes que ilustram a matéria são produções lançadas recentemente, aquelas que eu mencionei que se destacam tão facilmente, e que tem tudo para figurarem em exibições de videoclipes por ainda muitos anos. Elas fazem bem tanto pra quem gosta da música, quanto pra quem não ouviria essa banda em outra circunstância.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.