A evolução do Electropop escandinavo

Do mainstream ao mundo alternativo: sete artistas que mantêm (e expandem) a tradição de unir o poder dos sintetizadores ao apelo Pop

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Fotos: Lin Agnholt

Para quem não se lembra das aulas de geografia, a Escandinávia é a região que abriga Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Islândia. Ou seja, clima frio, ótimos índices econômicos e baixa densidade populacional. Entre as mais diversas contribuições dos países nórdicos para o resto do mundo, seria impossível não notar a sua presença na música, especialmente no Pop. Mas, mesmo dentro deste estilo musical, há diversas nuances e possibilidades.

No século passado, nomes como ABBA, Ace of Base, The Cardigans e Neneh Cherry cravaram seus lugares no cenário do Pop mundial. Na virada do milênio, acompanhando a explosão do Electropop e do EDM pelo mundo todo, outros artistas ganharam projeção. Inclusive, há livros sobre a ascensão de compositores nórdicos na música Pop, como o Songs from Sweden: Shaping Pop Culture in a Globalized Music Industry (Geographies of Media, 2020), do professor americano Ola Johansson.

O tema foi assunto de um especial no jornal britânico The Independent, em 2017:”Por que a Escandinávia continua exportando estrelas Pop extremamente cool e influentes?”. “Algo cultural, há uma crescente de oportunidades aqui com escolas públicas de música, vários estúdios e programas do governo para crianças aprenderem a fazer música”, disse MY, cantora e compositora sueca, à reportagem.

As duas últimas décadas seguiram prolíficas: Robyn, MØ, Lykke Li, Icona Pop, Tove Lo, Zara Larsson e Tove Styrke mantiveram a tradição. No mundo dos DJS, nomes como Avicii (1989-2018), Swedish House Mafia e Alesso também contribuíram para a paisagem do Pop nórdico. E, um pouco mais distante do mainstream, os duos The Knife e Röyksopp se destacaram. Em 2020, o cenário continua em expansão e novos artistas incrementam as possibilidades do Electropop, unidos por uma paixão: os sintetizadores.

ALMA

Em 2013, aos 17 anos, ALMA, nome artístico de Alma-Sofia Miettinen, chegou ao quinto lugar do Idols, o programa de talentos da Finlândia. Nascida na cidade de Kuopio, a cantora e compositora é vista como a grande aposta do país na música Pop. “Quero ser a primeira a estourar no Reino Unido. Todo mundo na Finlândia espera que seja eu. Tenho cabelo verde e sou um pouco mais louca que todo mundo, mas as pessoas querem que eu tenha sucesso”, declarou ao Independent.

Seu primeiro single, “Dye My Hair”, saiu em 2016, e chamou a atenção da mídia gringa e de outros artistas. Desde então, vem colaborando com produtores de EDM, como Martin Solveig (“All Stars”) e Felix Jaehn (“Bonfire”), além de participar de músicas grandes ídolas da atualidade como Charli XCX (“Out of My Head”) e Tove Lo (“Bad as The Boys”). Com uma voz poderosa, ela se tornou também uma letrista de talento, e já compôs para Miley Cyrus (“Mother’s Daughter”) e Ariana Grande (“Don’t Call Me Angel”).

Desde o single debut, divulgou várias tracks soltas, para assim chegar a Have U Seen Her, primeiro disco lançado em maio deste ano. Conforme soltava novos sons, ALMA criou uma fan base de admiradores de seu estilo marcante e do ativismo queer, algo que influenciou o resultado do trabalho. “Comecei a viajar e vi que ser gay não é ok em todos os lugares. Falei com fãs LGBT e pensei: e se eu falar bem alto sobre amor e como eu me sinto sobre meninas, talvez isso vá mudar o mundo um pouco, talvez isso não seja mais um problema em lugar nenhum”, disse em entrevista à revista People.

Sigrid

Outra aposta nórdica no mundo Pop: Sigrid, cantora e compositora da pequena cidade de Ålesund, na Noruega. Nascida em 1996, sua estreia aconteceu em 2017 com o EP Don’t Kill My Vibe, título emprestado do hit de Kendrick Lamar. Logo na estreia, a voz potente da vocalista chama a atenção do ouvinte desavisado. Não demorou muito para cair nas graças da imprensa e, no ano seguinte, já foi reconhecida como aposta pela BBC e MTV. Logo vieram apresentações no Coachella e nos talk shows americanos de Jimmy Fallon e Stephen Colbert.

Ao mesmo tempo em que escrevia as músicas que viriam a ser seu primeiro disco, Sucker Punch, lançado em março de 2019, abria shows de George Ezra e Maroon 5. Seu grande hit, “Strangers”, foi descrito pelo The Guardian como “a continuação de Robyn”. A enérgica faixa narra um relacionamento que deu errado, ao mesmo tempo que conta com um refrão que explode aos ouvidos. Mais interessada em contar histórias, Sigrid tenta viajar para onde a música pede, sem amarras, como explicado em nota: “O disco tem baladas, músicas sobre amizade, ter um crush e negócios. O tema é não ter tema. O gênero pop é tão abrangente que tenho espaço e liberdade para fazer o que eu quiser”.

Anna of the North

Para se descobrir como Anna of the North, a cantora e compositora Anna Lotterud precisou ir até o outro lado do mundo a fim de se encontrar. No seu caso, viajou por diversos caminhos até voltar à música. Nascida no ano de 1989, em Gjøvik, na Noruega, ela decidiu estudar design gráfico em Melbourne, na Austrália, antes de mergulhar de vez em suas próprias composições. O tempo de maturação torna seu trabalho menos urgente, um Electropop suave, com belas linhas de voz e produção bem amarrada.

“Sway”, seu primeiro single, foi lançado em 2014 e ganhou remix dos The Chainsmokers. Aos poucos, foi abrindo shows de nomes como Kygo e Anderson .Paak, e ainda participou de duas músicas de Flower Boy (2017), quarto disco de Tyler The Creator – “Boredom” e “911/Mr. Lonely”. Tem dois álbuns lançados, Lovers (2017) e Dream Girl (2019), e acaba de lançar uma nova mixtape, intitulada Believe. “No meu trabalho, mesmo que as letras sejam melancólicas, a produção é feliz. O EP é uma chance de mostrar um lado diferente meu, mais parecido comigo”, explicou à MTV. O trabalho saiu no final de outubro, e foi produzindo ao longo dos meses de quarentena. A cantora estava em Los Angeles, mas não sabia se deveria voltar para Oslo –o jeito foi criar covers de suas canções e de hinos do coração.

Delicadas e Lo-Fi, as faixas trazem um aspecto familiar e são retratos do momento atual, como Anna escreveu em nota sobre o projeto: “Cada canção foi escolhida porque significam muito para mim. ‘Believe’ praticamente faz parte de mim. Eu e meus fãs dançamos essa música ao final de todos meus shows. Isso tudo é como uma retrospectiva e homenagem aos meus fãs. O que faz dele ainda mais especial é que gravei tudo em casa e meu pai quem tocou o piano. Tocando juntos, assim como nos velhos tempos. Antes de eu me mudar, antes mesmo de Anna of the North ser alguma coisa. No momento, tudo está um pouco estranho, eu só quero fechar os olhos, me deitar e lembrar de tempos diferentes”.

CHINAH

De Copenhagen, capital da Dinamarca, o trio formado por Fine Glindvad (voz), Simon Kjær (guitarrista) and Simon Andersson (sintetizadores), estudou junto no colegial, época em que dividiram inspirações musicais. A vocalista e o guitarrista estudaram composição e se dedicavam à música Folk, fato que levou aos primeiros experimentos do grupo em 2014. Misturando Synth Pop e R&B, a banda pontua na bio: “música que vem do quarto da banda com a inspiração de criar algo simples que ainda assim ultrapasse os limites da música Pop”.

Conhecidos como “o som da nova Copenhagen cool“, segundo a revista i-d, seu som vem sendo expandido desde o EP Once The Lights Are On (2016). A meia década de banda levou os integrantes a explorarem novas possibilidades. “Vimos bons exemplos de bandas que são capazes de fazer música Pop de uma maneira legal ou que têm a sua própria interpretação, acho que fazemos parte dessa cena. Espero que isso inspire mais pessoas e que outras pessoas inspirem umas às outras a pegar algo popular e fazer de uma forma diferente, mas ainda comercial”, comenta o guitarrista à revista The Line of Best Fit. O primeiro disco veio em 2018: ANYONE traz flertes com Hip Hop e Trip Hop, tudo bem costurado pelos sintetizadores de Andersson e vocais suaves de Glindvard.

Erika de Casier

A cantora e produtora também participa da cena de Pop Alternativo da capital dinamarquesa. Nascida em Portugal, mas criada em Copenhagen, lançou o primeiro – e elogiado – disco Essentials no ano passado, e apresentou um novo single no final de outubro. Em “No Butterflies, No Nothing”, flerta mais com os ritmos contemporâneos de FKA Twigs, do que com seu característico R&B eletrônico à la anos 2000, trabalhado ao longo do álbum debute. “Qualquer músico tem bagagem. Então quando estou com um sintetizador, vou atrás dos sons que eu gosto. Às vezes, esses sons são da mesma família e me despertam um tipo de emoção que me faz escrever a letra. Não é só falar: ‘ok, vou fazer uma música de G-funk”, comentou sobre seu processo criativo em entrevista à The Fader. Segundo a própria, seu universo afetivo musical está recheado de músicas de grupos como Destiny’s Child, TLC e N.E.R.D., e da cantora Erykah Badu.

Sassy 009

Antes de assumir o projeto como um trabalho solo em 2019, a compositora e multi-instrumentista Sunni Lingaard apresentava Sassy 009 como um trio, ao lado das amigas de infância Teodora Georgijevic e Johanna Scheie Orellana. Nascida em Estocolmo, na Suécia, é filha de pais músicos de orquestra, cresceu rodeada de arte. Quando os pais se separaram, foi morar em Oslo, na Noruega, onde aprendeu a produzir tracks no computador quando estava na oitava série. Na época, sua inspiração se baseava em nomes como Grimes e outras produtoras do mundo do Soundcloud.

O primeiro single veio em 2017: em “Pretty Baby”, Sunni dá um primeiro gostinho do que vem pela frente. Logo veio o primeiro trabalho “oficial”, Do You Mind EP (2017), cujo destaque é “Are You Leaving”, um Techno-Pop suave e minimalista. Já nesse momento, o projeto recebia atenção de sobra dos veículos especializados em música eletrônica. A revista Dazed chama o trabalho de “Pop Eletrônico hipnótico”. A própria artista já declarou buscar sons “eletrônicos, sinfônicos, poéticos e hipnotizantes”.

Na fase solo, lançou o disco KILL SASSY 009 (2019), um passo além no quesito produção. Mais experimental, o repertório viaja para universos que vão do Pop Alternativo de M.I.A, ao Eletrônico de Crystal Castles e o Pós-Punk do Joy Division. Em entrevista à i-d, Sunni explica o trabalho: “Enigmático, não há nada muito óbvio, bem Noise e cheio de camadas – não apenas de sons mais emoções”. No mesmo ano, apresentou a faixa “Lara” com colaboração e vocais de Clairo, uma ode Indie-Eletrônica à Lara Croft. Em 2020, Sunni assinou o remix da faixa “Helio”, da cantora Charlotte Dos Santos, filha de pai brasileiro e mãe norueguesa.

Smerz

Depois de quase dois anos sem lançar novidades, o duo dinamarquês formado por Catharina Stoltenberg e Henriette Motzfeldt apresentou quatro “faixas” inéditas em outubro deste ano. Bem experimentais, “I don’t talk about that much/ Hva hvis” e “The Favourite/ Rap interlude” exploram novas sonoridades dentro da identidade da dupla, que conta com dois EPs longos, Okey (2017) e Have fun (2018). Todos os trabalhos saíram pela gravadora XL Recordings, casa de nomes como FKA Twigs, Adele e Arca. Segundo informado pela assessoria, “The Favourite” será a trilha sonora de um projeto audiovisual novo das artistas, o filme Believe.

Durante o tempo sem tracks “oficiais”, elas se apresentaram em grandes festivais e até mesmo no Moma PS1. Possuem um programa mensal na NTS Radio, no qual costumam selecionar faixas de R&B eletrônico, Techno e House. Para a Pitchfork, o som da dupla pode ser definido como “R&B moderno com Techno atmosférico”

Os climas e atmosferas são importantes no trabalho das produtoras e DJs, que se conheceram no Ensino Médio. Ambas possuem background em coral de igreja, mas decidiram produzir juntas na faculdade, muito inspiradas pelo trabalho de nomes como Jamie XX, DJ Rashad e Jessy Lanza. Aos poucos, elas entenderam como como somar o que cada uma pode trazer, como Catharina explica à revista Office: “Nossa música é baseada em beats e melodia, então quando escutamos algo, Henrietta foca na melodia e eu fico com os beats”.

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