A festa de Molusco apenas começou

Com influências que vão de Tears For Fears a Marília Mendonça, o roraimense Caíque Rodrigues fala sobre o EP “Fim de Festa”, dá sugestões para amenizar as angústias atuais e prova, como ele diz, que “o Norte é forte”

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Fotos: Caobe Rodrigues

    Os Moluscos impressionam pela diversidade de espécies. Com inúmeras formas de bichinhos invertebrados – do mar, da água doce ou da terra –, o filo é o segundo maior na miscelânea de formas, cores, funções na abundante natureza, perdendo só para os artrópodes. Inspirado por lulas, polvos, ostras, caramujos e animais disformes e luminosos da parte abissal do oceano, um rapaz de 25 anos se firma em sua diversidade cultural e sonora no seu mais novo trabalho, Fim de Festa. Apresento-lhes Caíque Rodrigues, o Molusco, nascido e criado em Boa Vista, Roraima – tão ao norte do Brasil que o fuso difere em uma hora do restante do país. As quatro músicas foram produzidas durante a quarentena, quando o roraimense acreditava, como muita gente, que o período compulsório em casa duraria pouco mais de um mês.

O codinome surgiu misterioso e úmido – no auge dos 15 anos de idade –, quando Molusco assinava no imperativo: “Salve Os Moluscos” era a alcunha que dava autoria a seus textos em redes sociais. Divagações norteadas por hormônios e reflexões de um adolescente que não se encaixava nos padrões heteronormativos da existência em sociedade. Impactado pelo clipe de “Every Single Night”, da genial Fiona Apple, o jovem Caíque ficou maravilhado com o impacto do tal bicho em movimento junto ao corpo da norte-americana e adotou o imperativo como veia artística que o guiou até aqui. Fim de Festa, do comecinho de maio, vem carregado de sintetizadores aliados a um Pop quente vindo do Norte brasileiro. O som de Molusco Parece pertencer a seara musical semelhante de nomes como Jaloo e NoPorn.

Por acaso ou não, outras duas obras homônimas e igualmente brilhantes vieram até mim (pouco antes e) durante a quarentena: a melancólica “Fim de Festa”, de Isso Vai Dar em Repercussão (2006), dos preciosos Naná Vasconcelos e Itamar Assumpção, e o longa do pernambucano Hilton Lacerda. O que aproxima a trinca é a festa como alegoria e a exploração de seu encerramento fim – na maioria das vezes, além de entorpecido, algo melancólico. Molusco diz não saber se é uma pessoa instintiva, mas compor e cantar, nesse momento, sobre o fim de uma celebração, serve de prova dos nove.

Web-recebida em um dia atípico – e em pleno mercúrio retrógrado – no quarto-estúdio de Caíque, frente a um grandioso desenho de tentáculos a seu redor, me impressionei com suas verdades a respeito de fazer arte. E com sua variedade de influências. De Marília Mendonça a Tears For Fears, são muitos os sons que fazem a cabeça do estudante de jornalismo que vestia uma camiseta preta e havia pintado delicadamente as bolsas dos olhos de vermelho. Molusco sorria quando chamou nosso papo de sessão de terapia e também quando vibrou: “Comemoro toda vitória do Norte, porque sinto que é uma vitória minha também.”

Qual foi primeiro disco que você ouviu ou o disco que mais marcou a sua vida?

Não é o primeiro disco que eu ouvi na minha vida, mas o que mais me marcou enquanto artista foi Born To Die da Lana Del Rey. Tinha uns 16 anos, ouvia bastante emo e também seguia uma linha musical um pouco diferente do que me imposto. Lembro que ‘Video Games” me deixou chocado, foi um marco zero. Fiquei muito impressionado porque a Lana falava de tristeza de uma forma tão aberta.

Meu pai trabalha como músico na noite, mas esse é um emprego complementar ao de professor. Meu tio é baterista e, mesmo que nem todos tenham seguido com exclusividade o caminho da música, na reunião familiar de domingo, eles formavam sempre uma grande banda. Violão e bateria davam a alegria do nosso domingo. Meu pai tinha uma banda de noite, e eu sempre ia com ele para o estúdio e ficava brincando com os fios. O meu irmão também canta. E todos eles ficaram em cima para eu seguir em frente de fazer o disco. Tem uma música que eu amava muito quando criança, a “Eu Sou Nuvem Passageira”, de Hermes Aquino.

Qual o look, o drink e o som perfeitos para uma festa?

Um look perfeito é o que eu me sinto confortável: um tênis, uma bermuda e uma camisa assim como essa que estou usando. O mais importante é estar confortável para não ter ansiedade social, essas coisas. Juro que não faço de propósito, mas a maioria do meu guarda-roupa é preto. [ri] Ah, tenho uma blusinha com estampa de ET que brilha no escuro e gosto muito. Uma caipirinha de limão na mão e “Dancing On My Own”, da Robyn tocando de fundo. Na real, poderia tocar o disco Body Talk todinho.

Uma saudade e uma coisa que você não sente falta em uma festa?

O que não pode faltar em uma festa: música. Tenho muita saudade do contato pessoal com os meus amigos numa festinha também. Ter que ficar falando por vídeo-chamada, essas coisas com tecnologia para mim são muito trabalhosas. Sou uma pessoa calorosa, de abraçar, de trocar ideia no bar. Sinto muita falta disso.

Quais são os sinais de que a noite é doida demais?

Eu e meus amigos temos um lema: nada de bom vai acontecer depois das três da manhã. Mas teve algo que aconteceu uma vez que me chocou demais. A gente estava tipo num barzinho, aí na frente desse bar tinha uma vala aberta. Lembro que uma pessoa de carro passou correndo por lá e entrou com o carro lá dentro. A gente só se entreolhou e concluiu: ‘Tá, agora o rolê foi para outro ponto’. A vala estava aberta, porque alguns bairros ainda estão em processo de obra [o estado de Roraima é novíssimo e data de 1943],, aí acontece muito de algumas valas estarem abertas por conta de saneamento básico e tudo mais. E a pessoa simplesmente jogou o carro lá dentro. Aí a gente logo concluiu que a partir dali a noite não melhoraria e fomos para casa. De loucura noturna que vi, acho que essa foi a maior.

“A noite é princesa caída por mim”, mas também um tico soturna, né? 

Os lados soturnos da noite são pequenos quando comparados com os bons. As minhas melhores experiências com amigos foram de noite.

O seu som é muito de atmosfera, né? Imagino algumas músicas do seu disco tocando  numa festinha bem produzida com luzes coloridas, EVA brilhante na parede, bebida e astral aos montes, os amigos dançando sem muita vergonha, temáticos dos anos 1980, o synth-pop da sua música eletrônica. Como é a atmosfera da sua festa? 

As festas que eu vou são sempre atmosféricas. Na maioria das vezes, são nas casas dos meus amigos. Alguns enfeitinhos discretos dão o tom, luzes brilhantes também. Mas eu uso no meu disco mais a festa como alegoria, do que a festa física propriamente dita. Porque, quando a gente pensa no significado literal de “fim de festa”, vem um sentimento de tristeza. Usei esse nome como alegoria e até como um spoiler do que está por vir: todas as músicas que fiz nesse disco falam sobre términos, os rompimentos de ciclos são assuntos recorrentes no meu trabalho e resolvi colocar tudo isso numa alegoria. E Fim de Festa versa sobre uma ansiedade social que acabou. Se eu fosse ambientar o meu disco, seria no meu quarto, em uma festa num quarto pequeno, com três ou quatro pessoas, uns enfeitinhos e um frigobar. Tinha comprado o ingresso e não queria estar lá, mas eu fui. E é uma posição muito ansiosa você estar num lugar onde não quer estar. Nada de bom pode acontecer, né? Se você faz o que não quer fazer também, a tendência é dar tudo errado. Quando eu estou com o espírito de ir, de estar verdadeiramente, aí é mais sossegado e eu gosto de ir. Não é que a gente queira acabar com a noite das pessoas, é uma questão de mood, mas por não querer estar lá, acabei com a noite das pessoas mesmo sem querer.

Mas ir ou não e ter essa percepção de se deveria estar ou não são escolhas instintivas também. Você se considera uma pessoa instintiva?

Não sei se sou uma pessoa instintiva, talvez seja mais reflexivo sobre as coisas do que instintivo propriamente dito. Não sei se cabe a mim falar sobre isso, cabe às pessoas que convivem comigo. A real é que penso mais do que deveria.

Do que a festa acabou?

Um bom motivo para a festa acabar é já ter dado o que tinha que dar. Aqui em Boa Vista, temos um problema que é a falta de festas e de cena LGBTQ+. Então as festas que vou são festas de casa, organizado pelos meus próprios amigos. A galera que eu ando também tem a cultura de festas universitárias. O meu tipo de festa é aquela bem Pop, com muita Lady Gaga e performances de drag queens.

“Os lados soturnos da noite são pequenos quando comparados com os bons. As minhas melhores experiências com amigos foram de noite”

Em “Expectativas” a gente percebe uma sofrência parecida com a da Marília Mendonça, mas com outra roupagem. Se você sofre, tem alguma coisa que lateja? Me conta o que dói?

Eu amo a Marília Mendonça e fico muito feliz que você tenha feito a conexão. Ela é uma compositora e uma performer perfeita. Para mim, a sofrência sertaneja tem como o mote a conexão, que é justamente isso, conta coisas que geram identificação, que as pessoas já passaram e por isso é tão forte. Falar sobre a dor é algo muito forte. E é um elitismo cultural muito pedante desconsiderar o sertanejo. Essas coisas são maravilhosas e a gente tem que deixar adentrar no nosso ser. Nada é em vão, a música é e sempre vai ser um retrato do que a gente está vivendo. E se tem sofrência, é porque a gente está sofrendo muito. “Expectativas” conta sobre a falta de expectativas, a falta de esperança.”

Você também fala sobre procurar o seu lugar nesse som. Onde, quando e com quem seria esse lugar?

Quando falo sobre o meu lugar, não estou falando de um lugar físico, mas espiritual mesmo. Sobre encontrar a paz de espírito comigo mesmo. A paz de espírito vem para mim quando estou trabalhando com o que gosto. Se for pensar num lugar físico talvez seja morando onde eu quero, com a pessoa que gosto. É um lugar de você ver que as suas expectativas foram supridas.

Você fez o disco durante o isolamento social? Como têm sido seus dias dentro de casa?

Tenho sido bem produtivo, trabalhado muito a minha criatividade e isso tem me ajudado muito. O disco foi feito todo na quarentena. Na realidade, quase todo, as músicas foram compostas antes. Algumas eu só tinha a ideia, mas, com a chegada da quarentena, as aulas da faculdade foram interrompidas e estava com muito tempo livre. Aí pensei em produzir o EP. Algumas pontas estavam muito soltas, tive que juntar, fui trabalhando na produção. Fiz tudo sozinho, produzi os beats, tudo. Comecei a estudar produção musical pela internet em 2019 por hobby.

Aí voltando para esse ano, surgiu a quarentena, e eu já tinha uma bagagem maior de conhecimento, comparado com o ano passado. O Fim de Festa surge comigo como uma emancipação dos instrumentos orgânicos. É um EP eletrônico, mas não necessariamente dançante, uma ressignificação disso.

Moro numa casa com muitas pessoas, a minha família é grande. E sou uma pessoa mais noturna, então trabalho de madrugada. Troquei o dia pela noite no disco e ainda trabalhava um tico de dia. De dia, me debruçava nos beats e samples e, de noite, gravava a voz. Como não gravei nenhum instrumento, a falta de isolamento acústico não foi um problema tão grande. Para gravar a voz, precisava de silêncio e eu faço tudo no quarto, né? Ele não foi desenhado para ser um estúdio com isolamento, acho até que deixei passar um grilo na gravação. Usei o Froot Loop Studio. Mas é isso, a madrugada é meu habitat natural, acho até que sou um grande morcegão. [ri]

Me conta um pouco sobre seu primeiro disco, Nota Mental

Antes tinha essa nóia de gravar instrumentos orgânicos e eles saíam estourados. Esse EP é mais de ideias mesmo, tem algumas legais, é um começo de um estudo que fiz. Mas hoje me sinto muito mais próximo dessa sonoridade, porque me contempla muito mais.”

Fala sobre suas maiores referências…

Sou completamente apaixonado por synthpop. Uma das minhas maiores referências é o Songs from the Big Chair (1985), dos fantásticos Tears For Fears. Aquilo para mim é o synthpop perfeito, esculpido. Mudou a minha visão de Pop e saltou meus olhos para as boas ideias. Blue Monday (1983), do New Order, também. Honey, da Robyn, também amo de paixão. Tem duas músicas que acho muito especiais nesse disco: “Baby Forgive Me” e ‘Ever Again”. O novo disco da Dua Lipa é super sincero e divertido. Consigo ver muita sinceridade em alguns artistas e acho isso o máximo, porque passo muita sinceridade no meu trabalho, isso que conecta as pessoas. Quando lanço uma música, é como se tivesse vazado uma nude minha. Porque me coloco de uma forma tão vulnerável, que parece que estou pelado. O autor morre um pouco depois que lança uma música, porque ela passa a gente, transcende o criador. Isso faz com que a gente se desprenda da música, que agora é também de quem ouve, de quem se identifica. É o meu diário. A música “Seeds Of Love”, também do Tears For Fears, é um exemplo. Ela é uma jornada e traz as respostas que a gente precisa. Uma das minhas maiores influências é o Jaloo também. Ele, assim como eu, também veio do Norte e tem esse estilo DIY de fazer as coisas. Conseguiu ser nacionalmente conhecido e é muito grande que ele permaneça fazendo seu trampo, sem perder sua essência.

Tem um sample esperto em “Expectativas”. Me conta qual é e como você chegou nele?

Os samples são conversas em áudio de amigos meus. Arthur, Lucas e Gabriel aparecem tentando abrir uma garrafa de champanhe no Réveillon de 2016 para 2017 em “Fim de Festa” e a faixa “Expectativas” traz a Julhy e o Pink falando. Em “O Mundo Vai Acabar (Mas Estou Tranquilo)” pedi para um amigo que é professor de inglês gravar um trechinho.

O Carmo, um artista da minha terra, Sorocaba (SP), tem uma música que chama “Navegar”, que fala um pouco sobre a busca por si mesmo. Para você, quais são os sinais de que a gente tá perto ou longe na busca de se encontrar consigo mesmo?

Quando você começa a se sentir satisfeito com como você está, já é um sinal de encontro. A gente tem que ir para os lugares de satisfação interior e exterior. A satisfação é um dos sentimentos mais bonitos e legais e onde estamos satisfeitos é o nosso lugar. Você ter o reconhecimento das pessoas, isso é um bom indicativo de que você está seguindo um caminho legal. Tenho recebido ótimos feedbacks do meu trabalho e acho que posso me dizer satisfeito com isso. O Jaloo ouviu meu som via live e foi meio que uma prova de fogo que passei. Pensa, uma pessoa que vejo como influência, e ainda mais do Norte, celebrar a minha música é algo muito forte. Comemoro toda vitória do Norte, porque sinto que é uma vitória minha também. Quem tá no Sudeste não se liga na fritação cultural que acontece aqui. O Norte é forte.

Um bom motivo para a festa acabar é já ter dado o que tinha que dar. Em Boa Vista, temos um problema que é a falta de festas e de cena LGBTQ+. Então as festas que vou são festas de casa, organizado pelos meus próprios amigos. A galera que eu ando também tem a cultura de festas universitárias. O meu tipo de festa é aquela bem Pop, com muita Lady Gaga e performances de drag queens.

Por que molusco?

Não tem nenhum conceito legal por trás deste nome. Atualizava um Tumblr em 2016 e, como discreto e fora do meio que sou, não queria me revelar. Assinava ‘Salve Os Moluscos’ também como referência ao clipe “Every Single Night”.

Te encanta o fundo do mar? Por quê?

O fundo do mar é misterioso, a gente não conhece tanto. Se eu for aplicar essa metáfora na minha vida seria ir no fundo de mim mesmo para me descobrir. O mar tem essa mesma filosofia. Meu trabalho é um estudo de mim mesmo, enquanto artista, enquanto pessoa.

Se você, de fato, fosse um molusco, quais seriam suas características físicas, predatórias e de defesa? 

Tenho muita coisa de molusco comigo, preciso realmente de oito braços para manejar e fazer tudo porque faço tudo sozinho. Tenho o exemplo do polvo também que só se encontra com o outro para acasalar, é um bicho solitário, vivem sozinhos. Acredito também que coisas muito sentimentais acabam sendo molengas, me sinto um pouco assim. Vermelho e preto é a minha combinação de cor favorita. Os olhos pintados de vermelho representam quem eu sou, como eu gostaria que me vissem.”

Na terceira música, você afirma que o mundo vai acabar logo no título, mas que está tranquilo. O que te tranquiliza neste fim?

Essa música veio para mim através de um sonho que toda vez que eu conto as pessoas me acham doido. No sonho, estava no terminal da minha cidade, tudo estava embaçado e eu via apenas uma figura nítida. E ela me perguntava porque eu conseguiria sair daquele sonho e ela não. Então, acordei. Desde então, reflito muito sobre as pessoas que gostariam de sair do mundo das ideias, por isso digo que a realidade é uma prisão. A gente vai, em algum momento, deixar de existir num mundo físico e existir só em um mundo espiritual.

Ao mesmo tempo que eu mantenho o meu ceticismo, acredito que essa música fala de uma busca espiritual e trata o fim do mundo como uma alegoria. Faz muito tempo que sonhei isso, mas esse sonho ficou comigo, quando busco alcançar um estado de espírito maior, penso sempre nele. O som também é uma referência à música “It’s the End of the World as We Know It”, do R.E.M. E acredito totalmente na existência de outros mundos, acho mais fácil a gente deixar de existir inclusive do que não existirem alienígenas. Acho muito egoísmo da humanidade pensar que só a gente pode existir. O universo é infinito, totalmente plausível. Gosto de alienígenas mais da forma estética do que pela tecnologia propriamente. Acho interessante ver vacas sendo abduzidas.

Como a realidade te aprisiona? E o que fazer para se libertar?

A realidade te aprisiona no real, no palpável, enquanto que os sonhos libertam. Na música, o verso ‘reality is a prison, our dream is a prism’ bate forte porque o prisma dos sonhos é um arco-íris de várias possibilidades

Me conta como Roraima pulsa em você?

Tenho muito orgulho do meu estado, de nascer onde nasci, de fazer a arte aqui da forma como faço. Culturalmente, temos a influência da cultura indígena. Não sou muito entusiasta da culinária roraimense, tenho o paladar infantil. Um prato típico daqui é a Damorinda, um ensopado de peixe e pimenta. Como a nossa formação como unidade de estado é recente, ainda não criamos a nossa própria forma de ver a cultura, mas estamos caminhando. Aqui, a gente tem um movimento cultural chamado Roraimeira. Ele caminha pelas artes plásticas, poesia, e vai além, na música. Começou nos anos 1980 e foi maravilhoso para nos firmarmos enquanto pessoas culturais, pensantes. Amo muito esse movimento. Nele, existem três nomes essenciais: o poeta Eliakin Rufino e os músicos Zeca Preto e Neuber Uchôa. É de uma riqueza sem tamanho e investiga muito o lavrado, a nossa fauna, as áreas planas. É muito lindo e retrata bem Roraima.

E mesmo que a gente ainda não tenha uma cena LGBTQ+ organizada e, sim, fragmentada, acredito que estamos num caminho promissor. Mas é sintomático não ter representatividade nenhuma no estado mais perigoso para pessoas gays, lésbicas, trans e queer no Brasil. Me sinto muito solitário no meu trabalho por conta disso, mas parte disso é lutar para abrir nossos próprios caminhos. Essa é a minha maior motivação para continuar: fazer a minha voz ser ouvida. Aqui ainda é muito conservador. Roraima foi feita por militares, gente que tem no alicerce já o conservadorismo. E fico feliz que estejamos nos reafirmando como um lugar de cultura de liberdade e extroversão. A cultura aqui é muito livre, mas ainda falta muito.

“Nada de Novo” fala sobre relações pessoais de uma forma bastante bonita. Me conta mais sobre esse som?

A música fala sobre rompimentos de relações pessoais. Sobre aquele amigo, aquele namorado, aquela pessoa especial que você não quer ou não pode estar mais em contato. Quando falo que não há nada de novo, é porque esses rompimentos acontecem com muita facilidade, por N motivos. As pessoas saem e entram na minha vida com bastante facilidade, isso me deixa um pouco encucado, pensando se o problema sou eu, mas isso já é papo para levar para a terapia.

Sendo assim, “Tudo de Novo” seria o que para você?

O início de um novo ciclo.

Achei interessante o lance de você pintar debaixo dos olhos de vermelho. o vermelho é uma cor forte, usada por muita gente massa da música como a Letrux, a YMA, a Marina Lima etc. Você pinta os olhos de vermelho para mostrar o quê?

Durante a produção deste EP, tive uma experiência meio sinestésica e percebi que todas as músicas tinham tonalidades e variações de vermelho pela intensidade da cor. Ela me remete ao forte, ao sangue. Então, quis trazer o elemento do vermelho em algum lugar da minha imagem e também porque ficaria legal no filtro do Instagram [ri].

Qual sua maior fome e seu maior medo?

Meu maior medo é não encontrar o meu lugar, o meu caminho, de estar num caminho errado. Mas isso aí sou eu sofrendo por antecedência, porque seguir um caminho é justamente curtir o durante. A minha maior fome é por criatividade, quero crescer criando, o tempo todo, seja música, seja texto, seja poesia. Minha fome é por arte.

Se o seu disco tivesse um gosto e um cheiro, quais seriam e por quê?

Teria gosto de café, porque pra mim ele foi criado com muito café pra aguentar a madrugada toda acordado e produzindo. O cheiro… Sabe que me fizeram essa mesma pergunta e me toquei que o olfato é um sentido que não valorizo como deveria valorizar. Nunca penso no conceito do cheiro, vou pensar melhor sobre isso, mas não sei responder por agora.

“Não é a primeira nem a última vez, acontece comigo quase todo mês” é aquela sofrência de arrastar os chifres no chão até ficarem brilhantes, né? Qual meme de sofrência mais te faz rir quando, na real, a gente tava chorando uns meses atrás pelo mesmo motivo?

Qualquer meme gado me faz rir, qualquer meme com boi eu já fico gargalhando demais. Rindo, mas com todo respeito a todas as pessoas que foram cornas até porque uma pessoa sem chifre é uma pessoa desprotegida, né? [ri].

“Essa é a minha maior motivação para continuar: fazer a minha voz ser ouvida. Aqui ainda é muito conservador. Roraima foi feita por militares, gente que tem no alicerce já o conservadorismo. E fico feliz que estejamos nos reafirmando como um lugar de cultura de liberdade e extroversão. A cultura aqui é muito livre, mas ainda falta muito”

No começo do ano vi Fim de Festa, um filme nacional chiquérrimo sobre o fim da maior festa popular brasileira, ou uma das, o Carnaval. É a terceira vez que esse nome me tromba pelo caminho. Nele, o Irandhir Santos, reflete sobre a tristeza ser um lugar confortável. Você sente conforto na tristeza?

A tristeza é uma questão de perspectiva, a gente tira lições com a tristeza. O lance é o que fazer ou produzir com a tristeza depois que a gente passou. Depende também de qual é o grau da tristeza, de como ela bate na pessoa, porque pra mim pelo menos não me sinto confortável. Quando penso em conforto, penso em uma situação de total relaxamento. Agora, pensar que sempre vou tirar lições da tristeza me deixa confortável com a minha caminhada.

Me conta três coisas que você anda fazendo para encontrar a paz e outras três que está fazendo para extravasar na quarentena?

Olha, sorte de quem está se alienando nesses tempos. porque é cada lapada que a gente recebe que olha… Mas o que eu estou fazendo muito para extravasar é criar. Fim de Festa foi lançando e continuo compondo, continuo trabalhando em músicas, textos e autorreflexões. Porque criar é importante para a gente manter a saúde mental. Existir tem sido bem complicado para qualquer pessoa que tenha o mínimo de pensamento crítico. Tem gente perdendo ente querido no meio desse caos e estou querendo extrair alguma coisa boa de mim mesmo para não sentir ainda mais dor, e para encontrar a minha paz. Estou ressignificando o caos.

O novo normal nos amedronta e causa ansiedade. Para nostalgias futuras, nossas duas únicas verdades vêm claras: tudo vai passar e haverá festa com o que restar. Uma playlist de Molusco:

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ARTISTA: Molusco