A Inserção da Música Eletrônica na Brasileira

MPB de hoje demonstra mais uma vez comportamento vanguardista trazendo batidas sintéticas em suas produções

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Gal Costa, uma das melhores vozes do Brasil, consolidou ainda mais seu nome quando teve que segurar a barra do Tropicalismo depois do exílio de Gil e Caetano. Rompeu com sua estética perfeccionista para poder mergulhar na nova proposta. A cantora conseguiu seu sucesso através da ousadia, da ausência do medo, do apoio ao dinamismo da música, tudo para chegar “do outro lado”. Esse lado em 2011 foi chamado de Recanto. Gal veio com uma estética (ou uma aposta?) mais experimental em seu novo trabalho e trouxe mutias discussões sobre o uso da música eletrônica na Música Popular Brasileira. Mal sabiam que ali seria um “re-canto”, uma “re-conquista”, uma nova forma de ver o som tupiniquim.

O álbum, vindo como um pré-Yeezus ou pós-Bjork, rasga a mesmice com que muitos caracterizam a MPB. O gênero, amplamente conhecido por seu caráter massivamente acústico, recebeu tratamento “superficial”. Caetano e Moreno, seu filho e grande potencial na “nova música brasileira”, produziram uma base completamente estética (e conceitual) pra Gal. E por conta desse tal caráter, criou-se uma plateia que se apoia basicamente no lirismo das faixas. Como explicar a todos esses fãs tantos sintetizadores distorcidos e samples?

No entanto, não é a primeira vez que se ouvem as batidas em som brasileiro. Fernanda Porto, Fernanda Abreu, e até alguns trabalhos Pop dos anos 2000 já se apropriavam fortemente também da cultura Drum’n’Bass. Jota Quest agora voltou às origens com Funky Funky Boom Boom, trazendo jam e swing além de uma modernização “Nu Disco” desse Funk. Há de se convir que a música no país vêm trazendo nova cara nos últimos anos. SILVA, Cícero, Lucas Santtana, Kelton, Cambriana, Club Silêncio, e até projetos já para o outro lado como o de Wado, já têm um pé no sintético, nos arranjos artificiais, numa melodia que distancia bem dos elementos orgânicos de 60 e 70. No entanto, somente um pé pisa nesse solo ainda desconhecido pela maioria. Percebe-se que a a música brasileira não entrou na música eletrônica e sim a música eletrônica que conseguiu o visto pro Brasil. A percussão de Imergir ou sintetizadores agudos de Moletom, ambos do cantor e produtor capixaba SILVA, denotam bem o que essa entrada diz de uma provável tendência. Entretanto, a inserção eletrônica, que até então era uma novidade, começou a ser reaplicada com diversos artistas sem muita pretensão pela originalidade. O ato demonstra que o “movimento” ainda engatinha e poucos perceberam como aproveitar bem essa empatia da nova cara do Brasil com a produção eletrônica.

Voltamos então com Recanto. Enquanto muitos têm uma ideia pessimista e até preconceituosa com a estética eletrônica – isso deve muito à associação errônea que brasileiros geralmente tem com “música eletrônica” e “ausência de lirismo inteligente” – , Caetano resolveu usar isso como desafio. Após um tempo na Europa e alguns goles na fonte de uma terra que tem sua música popular mais entrelaçada com as batidas sintéticas, a proposta fluiu como um grito de justiça em épocas de ditadura. Convidou sua amiga e pupilo para brincar com esses extremos. Gal Costa, com sua capacidade vocal incrível, canta a frieza em marcações sintéticas. O resultado disso é inesperado: uma força cabulosa no contexto das letras, a confirmação técnica vocal e, é claro, um espanto normal que surpreende. Ali tinha a poesia de nomes como Chico Buarque, Milton Nascimento e Nara Leão com a juventude de gente não só dos novos cariocas, paulistas e baianos, mas também independentes como Guri ou Godasadog, que experimentam muito, cada um em seu devido espaço.

Para os pessimistas que dizem que a boa música popular acabou, fica aqui somente a alma de todos os maiores movimentos musicais que passaram pelo nosso país: o vanguardismo. O que seria da música sem mistura ou cessões, ou o que seria da intelectual MPB sem o ímpeto de mudança? Após 50 anos, o significado das três letras que tanto falamos aqui veio exatamente da vontade incessante de fazer com que a tradição da música popular de nosso país não morresse. Sabemos que Recanto não tem intenção comercial direta, mas seja tímida como SILVA ou agressiva como Gal, a música eletrônica vem encontrando cada vez mais território nas produções brasileiras. Agora a lição de casa vai pros brasileiros. Ajudem esse bebê a crescer saudável.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King