A nova onda de BADSISTA

“Gueto Elegance”, aguardado disco de estreia da artista de Itaquera, conjuga, sem se prender, diversas sonoridades da música eletrônica e nos leva por uma história em que a pista é a invenção da felicidade – ainda que fugaz, só por uma noite

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Fotos: Pedro Pinho

Desde o lançamento do seu primeiro EP em 2016, BADSISTA vem trilhando uma carreira consistente e frutífera como produtora e diretora musical, assinando trabalhos para Lei di Dai, Jup do Bairro e Linn da Quebrada. Mas Gueto Elegance, que chega hoje às plataformas digitais, marca uma nova fase na sua trajetória. Em seu álbum de estreia, a artista de Itaquera, Zona Leste de São Paulo, sai de trás do computador e da mesa de som para assumir os holofotes e soltar a própria voz em um álbum que busca mostrar como a música das periferias também pode ser refinada entre tinturas do Pop e da Club Music internacional.

No início de seu envolvimento com a música, Rafaela Andrade (o nome de batismo de BADSISTA) cantava em barzinhos, no esquema voz e violão. Contudo, destacou-se na música pelo trabalho nos bastidores, o que a levou a se afastar do microfone. “Cantar sempre foi uma coisa que foi muito refúgio meu, sabe? E quando começou a rolar esses negócios de DJ e produtora foi meio louco porque, quando você é DJ, você pode ficar meio que recluso, na sua, sabe?”, conta ela. Por isso, a ideia de expor sua voz — e os seus versos, de próprio punho — de início provocaram um certo receio na musicista. “Quem é DJ ou produtor pode ficar mais escondido. Uma pessoa que canta, que rima, ela tem que botar a cara pra rolo, entendeu? Não dá pra ficar muito fazendo a misteriosa. E no começo eu ficava com muito medo de estar cantando porque eu ficava me perguntando: ‘como vou apresentar isso?”, pontua.

Para BADSISTA, o álbum marca o fim de uma fase e o início de uma outra, focada em um trabalho mais autoral, que dialoga com a pista mas que não está restrita a ela. Essa virada foi estimulada pela vontade de romper com expectativas alheias sobre o seu fazer artístico, de modo a criar os próprios caminhos com maior autonomia. “Assim como o barzinho me cansou, acho que aquela BADSISTA do Boiler Room foi me deixando de saco cheio também. Eu toco tanta coisa, sabe? Eu não gosto de sentir que tô sendo limitada a uma coisa só. Não gosto de ficar inerte, gosto do movimento”, explica. “Cheguei num momento em que eu tinha duas escolhas: ou eu continuava fazendo o que eu tava fazendo enquanto produtora e artista ou eu começava a ditar qual seria minha próxima onda. E se tem algo que percebi em todos esses anos na cena é que eu tenho que me antecipar nas coisas para que possar ser sempre necessária”.

“Uma pessoa que canta, que rima, ela tem que botar a cara pra rolo, entendeu? Não dá pra ficar muito fazendo a misteriosa”

A pandemia acabou forçando a devida pausa necessária para elaborar o processo de botar a cara no sol e a voz na rua. “Eu comecei a ficar em casa, voltei a ouvir sem ser música de fritação só para tocar na pista. Pude me dedicar a outras coisas que eu queria fazer também”, ressalta. Gueto Elegance toma a noite e as festas como arco narrativo, apresentando uma série de microeventos sob o olhar de quem vivenciou essa rotina intensamente e por muitos anos. É a noite sob a perspectiva de uma observadora perspicaz e íntima, que conhece bem os vários sentimentos envolvidos e seus personagens.

“Eu pensava: vou falar do quê? Vou escrever uma poesia super difícil? Não, eu vou falar das coisas que eu vivi, dar importância pra momentos corriqueiros e escrever do meu jeito, sem muita firula”, conta. “É por isso que o disco tem muito esse arco da festa. A ideia era fazer o começo, meio e fim da noite, com várias situações e tudo que pode acontecer dentro dessas 12 horas. Eu fiquei vivendo isso durante uns quatro anos assim loucamente saindo — aliás, trabalhando — todo o final de semana”.

Uma característica de BADSISTA (e que ela só descobriu na prática, enquanto preparava o álbum) é a de escrever descrevendo, construindo cenários com esmero e precisão. Essa habilidade nutre o primeiro bloco do disco, que em suas letras evoca uma energia incomensurável na qual o impacto visceral da música bombando nas caixas de som da festa (“Olha esse beat, mano/ Eu sou quente, mano”, canta desafiando na faixa de abertura “Chora na Minha Frente”) se combina e amplia a brisa das drogas e o calor do tesão. “Bandida”, com a participação da rapper baiana Cronista do Morro, detalha com maestria as o clima de sedução silenciosa, trocas de olhares e flertes: “Cheguei na festa, já tava a milhão/ Te catei de longe com copão na mão (…) Eu só me lembro dos nude na DM/ Pique Mister M foi fazendo a minha mente”. Em “Braba do Jaca”, a levada de ares House embala uma letra em que a onda da maconha e a os prazeres do sexo se cruzam, maconha e pente: “Tá batendo minha onda, eu tô batendo na sua bunda”.

No segmento final do álbum, o ambiente é outro: fim de festa, sol nascendo, solidão, romances, saudades… A música desacelera e faz palco para um desalento um tanto sublime e luminoso, que emerge da colisão abrupta entre o entusiasmo e efêmera euforia da noite com o inexorável constatação de que, fora da pista, depois que a onda passa, a vida permanece sendo como é. Com um tom confessional e delicado, “Sem Dar Tchau” é talvez a faixa mais surpreendente no escopo de trabalho de BADSISTA e encerra o álbum emoldurando com primor um sentimento dúbio de esplendor melancólico: “Baby, já passou das seis/ O que eu tinha já entreguei”. Gueto Elegance nos leva por uma história em que a pista é a invenção da felicidade — ainda que fugaz, só por uma noite. Mas ainda assim, vale a pena imaginá-la e desejá-la, empurrando as despedidas para depois. Em um dos refrãos mais tocantes do disco, BADSISTA convoca a amplificar o agora, um convite a felicidade oscilante: “Hoje eu quero brilhar”.

Do Reggaeton ao novo Rap de Uganda, passando pelo Funk, pelo House, pelas experimentações da eletrônica africana do selo Nyege Nyege Tapes e pelo Pop de Rihanna e Beyoncé, as faixas de Gueto Elegance conjugam diversas sonoridades da música eletrônica sem no entanto deter-se a nenhuma delas. Os gêneros são utilizados mais como inspirações laterais, pulverizadas e difundidas numa miríade de sonoridades, do que como uma referência direta. Há também uma porção de faixas — como “Na Pista” e “Soca” — cuja classificação é incerta. Durante a entrevista, quando confesso a BADSISTA que não identifico os gêneros de boa parte das faixas, ela ri: “Eu também não!”

“Assim como o barzinho me cansou, acho que aquela BADSISTA do Boiler Room foi me deixando de saco cheio também. Eu tinha duas escolhas: ou continuava fazendo o que tava fazendo enquanto produtora e artista ou começava a ditar qual seria minha próxima onda”

Para amarrar essa rede de sons, contou com a colaboração de artistas de periferia do Brasil e da África, como MC Yallah (Quênia), Rey Sapienz (Congo) e Lord Spikeheart (Uganda), Ventura Profana (Bahia), Jup do Bairro, RHR, Ashira (São Paulo) e Lari BXD (Rio de Janeiro). “Acho que as pessoas estavam olhando muito para o Hemisfério Norte, para quem já tá nos Estados Unidos ou na Europa. E eu não queria isso. Eu quero que esse álbum seja uma provocação para todo mundo, tanto o público quanto as pessoas que fazem música, para levar o bagulho para frente”, afirma. Gueto Elegance é sua declaração para sentir as emoções de uma pista, mas também para repensar a própria ideia de elegância.

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ARTISTA: BADSISTA