A obra de Philip Glass ecoando na nova geração

Em seus mais de 50 anos de carreira, o músico já trabalhou e influenciou muita gente a criar sons interessantes que fogem do lugar comum

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Louco e gênio – Philip Glass já foi chamado dessas duas formas durante seus mais de 50 anos de carreira, mas o que realmente importa é que em todo esse tempo ele conseguiu fazer o que quis e, acima de tudo, produziu obras de valor inestimável. O prolífico compositor já esteve envolvido com os mais diversos projetos – desde trilhas para cinema até teatro de vanguarda – e pode ser considerado uma espécie de elo entre a música clássica e a contemporânea. Aos 75 anos, ele vê surgir artistas na nova cena que se inspiram em seu trabalho e que tentam, de alguma forma, recriar a genialidade de suas composições.

Tentando resumir brevemente a vida de Glass, vale ressaltar que ele é um filho de imigrantes lituanos, donos de uma loja de discos em Baltmore, e foi dos vinis que não saiam da loja de seus pais que ele retirou suas primeiras influências, que iam de Shostakovich a Schubert, desde o mais contemporâneo até o mais clássico. Iniciado muito cedo na música, aos 15 anos já havia estudado flauta em um conservatório e concluído o curso na Universidade de Chicago. Pouco tempo depois, foi para a Julliard School of Music, onde se especializou no piano (que até hoje é seu instrumento principal) e, durante esse tempo, se tornou amigo de outros grandes compositores modernos, como Steve Reich.

A partir daí, o criativo músico se envolveu com os mais diversos projetos e formas de arte, sempre dando seu toque a eles. Com o tempo, foi desenvolvendo um estilo bem próprio para suas obras, sempre se utilizando de um número reduzido de notas e de uma série de loops e camadas que faziam de sua música, de certa forma, a frente do seu tempo. Muitos o descrevem como “minimalista”, algo de que Glass sempre se distanciou, e em uma de suas obras, Music in 12 Parts, declarou o fim do estilo.

Durante os anos 70, ele esteve envolvido com músicos que se distanciavam bastante de suas obras eruditas. Ele esteve em contato com artistas como David Byrne, Paul Simon, Brian Eno, David Bowie e mais uma infinidade de outros que faziam música em cenas diferenciadas e que tinham um talento acima da média. Recentemente, Glass assinou uma parceria com Leonard Cohen e ainda outra com Woody Allen, no campo cinematográfico. Em uma de suas contribuições mais recentes, ainda no cinema, o Philip Glass Ensemble (um dos seus inúmeros projetos) participou da trilha sonora de Watchmen (2009).

Muita gente foi influenciada pela sua extensa obra. Zola Jesus é uma delas e traz muito do trabalho do músico para o seu. A cantora, que já foi professora de canto lírico, pega emprestado muito do tal chamado minimalismo (principalmente em seus primeiros discos) e, assim como Glass consegue, transmitir muito com pouco e fazer o complicado com certa simplicidade, além de conseguir trazer ao estilo um apelo mais popular.

Outro de seus discípulos, o músico Beck, consegue trazer novas ideias à música em uma inovação que é acessível e não em qualquer experimentação maluca – coisa que Glass sabe fazer muito bem. Beck, em uma recente entrevista, disse que vê qualidades do músico em projetos como os de Sufjan Stevens e Kanye West, e ressalta a importância do artista que, depois de tanto tempo, continua tão receptivo para a nova música e para as gerações que estão surgindo.

Por fim, Brian Degraw, do Gang Gang Dance, consegue traduzir muito bem a experiência de se ouvir as obras do compositor e a sensação “desconfortável” induzida pela viagem que se presencia em suas músicas. Brian descreve alguns trabalhos de Glass como uma experiência induzida pelo uso de LSD ou uma meditação – em ambos os casos, ocorrem vários estágios em que se misturam diversas sensações e repetições delas, o que também está presente nos loops e camadas usados pelo compositor. Brian tenta levar essa aura lisérgica, de como descreve o trabalho de Philip, para sua banda e mistura o minimalismo com uma vibe dançante, o que faz da Gang Gang Dance uma banda tão interessante.

Com tantos anos em uma carreira tão produtiva – e sempre com a qualidade de parecer a frente de sua época -, não é de se surpreender que tudo o que ele fez há tantos continue influenciando os artistas de hoje e certamente se manterá contemporâneo por ainda muitas décadas.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts