A Sensibilidade e Experimentação de St. Vincent

Annie Clark consegue expor sua complexidade de um jeito delicado, mas sempre surpreendente

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Quem já experimentou a discografia de Annie Clark em seu projeto St. Vincent deve estar com as expectativas mais do que altas para o que virá em seu quarto e autointitulado álbum. Tudo isso pois a evolução na complexidade de sua música durante sua obra é quase didática. Annie Clark começa entregando uma delicadeza extrema e melodias encantadoras em Marry Me (2007), mas em todas as faixas conseguia imprimir aquele mistério de que por trás daquilo tudo, havia uma musicista completa, cheia de vontades, mas se esforçando para parecer extremamente simples, assim como nós, que colocamos pra fora apenas nosso melhor ao conhecer alguém pela primeira vez.

A americana é uma multi-instrumentista que fez parte da banda The Polyphonic Spree e participou da banda de Sufjan Stevens, em 2006, na turnê de seu disco Illinois. Os créditos de seu primeiro álbum já revelam muito sobre o domínio que procura ter sobre sua própria música. Clark ficou responsável pela voz, guitarras, baixo, piano, sintetizador, clavieta, xilofone, vibrafone, dulcimer, bateria eltrônica, triângulo e percussão. Segundo a própria, sua música é extremamente autobiográfica, então nada mais justo do que querer ser responsável pela trilha de sua própria história.

Com tanto talento, fica difícil entender por que demorou tanto para embarcar em um projeto solo. Mas, investigando um pouquinho mais sua história, percebemos uma menina tímida quando criança, que encontra na música sua principal forma de expressão. Isso explica a evolução clara na experimentação de seus discos.

Na verdade, o que vemos não é uma evolução. St. Vincent não foi crescendo musicalmente da forma tradicional. Toda a complexidade que encontramos quatro anos depois, em seu terceiro disco, Strange Mercy, já estava lá desde o começo, ela apenas foi preparando o terreno, não quis arriscar logo de cara.

Uma de suas principais características é a harmonia entre a delicadeza representada por sua voz e melodias Pop e a experimentação de instrumentos e a estranheza que alguns elementos e viradas surpreendentes podem causar. Mas caso a trajetória de St. Vincent fosse diferente, lançando uma faixa como Chloe In The Afternoon em seu primeiro disco, talvez sua sensibilidade ficasse menos evidente, como acontece com Amber Coffman, do Dirty Projectors, em que essa sutileza só salta aos ouvidos depois de estarmos entorpecidos com as pirações da banda.

Marry Me introduziu seu Art-Rock delicado, Actor (2009) já deu sinais do que apareceria mais radicalmente dois anos depois, como na segunda metade angustiante, catártica e surpreendente da faixa Black Rainbow ou no início da fofa e aparentemente simples Laughing With A Mouth Of Blood que ganha personalidade com uma produção bem trabalhada e pouco óbvia.

Em 2011, com Strange Mercy, seu mais complexo, surpreendente e de certa forma esquisito disco, St. Vincent pareceu mais próxima de sua forma plena do que nunca. Pareceu ter chegado perto de conseguir se comunicar com seu público da maneira que sempre quis. Suas faixas são cheias de camadas, parece haver três ou quatro músicas tocando simultaneamente. Ela arrisca muito mais, mas é um risco calculado, de alguém que já entendeu como pode trabalhar sua criatividade plena.

Foi essa espontaneidade criativa que atraiu David Byrne para a parceria em 2012, no excelente disco Love This Giant. Nele, encontramos aquela Annie Clark mais delicada, já que a contraposição com a experimentação já é natural por estar com Byrne, sem precisar fazer grandes esforços para impressionar.

St. Vincent não é um dos lançamentos mais esperados do ano à toa. A musicista vem numa crescente criativa desde que começou o projeto e após lançar seus trabalhos sempre com um intervalo de dois anos, este veio com três. Pode parecer insignificante, mas com a velocidade que trabalha seu cérebro e seu coração, um ano é tempo de sobra para impressionar.

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ARTISTA: St. Vincent
MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.