A trilha sinestésica de Ananda

Com inspirações diversas e forte influência da sonoplastia, produtora carioca acaba de lançar “Retratos de Comutação”, seu álbum de estreia; ela conta sobre o processo do trabalho com exclusividade para o Monkeybuzz

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Fotos: Mariah Leal

Prince, David Bowie, Depeche Mode, Talking Heads, passando por Maria Bethânia, Caetano Veloso e, por que não, Brian Eno. Esses artistas compõem as primeiras lembranças musicais da carioca Ananda Nobre. Aos 12 anos de idade, ela revirou e ouviu a estante completa de discos e CDs de seu pai – foi paixão à primeira audição. Quatro anos depois, começou a frequentar uma festa no Rio de Janeiro chamada Bunker, onde acontecia uma noite de Techno semanal da qual ela ainda tem na lembrança. Apesar do contato precoce com música eletrônica, sua carreira não começou de fato pela necessidade de trabalhar para pagar seus estudos e ajudar em casa. “Quando me mudei para São Paulo, me vi mergulhada em um mundo corporativo e careta. Mesmo sendo bem-sucedida estava muito infeliz, aquele não era meu lugar e, a partir daí, comecei a estudar música”, conta. “Eventualmente, entendi que trabalhar com música foi algo pelo qual tive que lutar e buscar. Isso realmente me completa e me faz feliz”.

Produtora musical há seis anos, Ananda construiu – e constrói – sua identidade sonora com o passar o tempo e o interesse por várias vertentes distintas da música eletrônica contribui para o cuidado durante esse processo. Contudo, seu amor pelo estudo de trilhas e sonoplastia de filmes serviu como norte para concretizar o álbum Retratos de Comutação (2020). “Me aprofundei nesse mundo um pouco antes de iniciar esse disco e me trouxe novos horizontes, principalmente na hora de produzir música eletrônica que não é voltada para pista”.

Retratos de Comutação revela o grande amadurecimento de Ananda e foi lançado hoje, 11 de dezembro, pelo selo carioca Domina. Aqui, você confere uma entrevista com a DJ e produtora, na qual ela destrincha o processo do projeto cuja dica é dada logo de cara: “o álbum pede para ressoar ao ar livre”.

01. Séance – 4’21”

A faixa “Séance” é uma das que mais se aproximam da estética de trilha sonora. Ela usa uma bateria de algo que lembra uma perseguição ou alguém correndo, muito usada em filmes. Fala sobre meu fascínio – e, ao mesmo tempo, medo – pelo espiritismo e ocultismo.

02. Sono REM – 4’53”

“Sono REM” talvez seja a track mais pista do disco. Usei elementos tribais de samples e fiz minhas sequências para compor a bateria. O baixo, por exemplo, é feito de tambores. Sono REM é a fase do sono em que mais sonhamos, e eu quis explorar isso.

03. Na Trilha Da Revolta – 3’26”

“Na Trilha da Revolta”, inicialmente, tinha uns samples de gritos de uma manifestação feminista que eu fui e gravei. Acabei não usando porque os vocais não estavam claros o suficiente, mas a música foi construída em torno disso. Tentei reproduzir aquele momento de manifestação e revolta.

04. Lembra De Respirar – 4’37”

Fala sobre minha ansiedade. Tem alguns anos que sofro com crises de pânico e durante algum tempo isso me impossibilitou de fazer muitas coisas. Aprender a respirar foi a forma que consegui controlar isso. Ela mistura elementos mais duros e marcados na parte da bateria, que é basicamente construída com diferentes sequenciamentos de metais, com a parte mais suave que é a melodia e que representa o momento em que aprendi a controlar minha ansiedade através da respiração.

05. Transmissão Pro Fim Do Mundo – 4’51”

“Transmissão Pro Fim do Mundo” constrói um cenário distópico do fim de uma era digital. Eu usei alguns elementos com glitch para dar esse efeito de rádio ou transmissão. Essa track foi feita a 80 BPM e, em alguns momentos, a bateria tem a velocidade dobrada. Isso foi algo que eu quis explorar nesse disco – usar desde BPMs bem baixos até mais altos. Essa faixa é a que tem o maior trabalho em synths e todos foram feitos usando VSTs da arturia.

06. Quando Chove No Vale – 4’58”

“Quando Chove No Vale” é uma faixa que tem um grande apelo emocional para mim e a última a ser concluída. Quando eu estava na metade do processo do disco, pensei que gostaria de ter uma faixa mais Ambient. Um pouco antes de voltar da casa da minha mãe no vale, caiu uma chuva linda depois de meses de seca e queimadas na região, ficamos um tempo admirando a chuva, foi um momento simples e especial que eu quis eternizar.

Esse é o seu primeiro álbum oficialmente lançado. Qual é a sensação?

 Uma mistura de realização com desapego. Praticar o desapego foi o mais importante para entregar esse trabalho porque eu sempre fui muito reservada ao dividir minhas coisas, nunca achava nada bom. Entender que é uma evolução constante e que compartilhar faz parte desse processo.

 Como funciona o seu método de produção? Quanto tempo durou o processo?

 A única máquina que eu tenho é uma Elektron Analog Rytm. Usei ela tanto para fazer sons quanto como sampleadora. Como foi meu primeiro disco, experimentei muito até encontrar um caminho sonoro para seguir. O processo todo demorou pouco mais de um ano e trabalhei nele praticamente todos os dias, várias horas por dia até terminar. Retratos de Comutação não é necessariamente um disco voltado para a pista. Acho que algumas tracks até funcionam, mas sua construção não seguiu esse propósito de música para dançar ou ser DJ friendly.

As músicas foram feitas para dividir sensações, sentimentos e momentos que causaram transformações ou tiveram impacto na minha vida, é uma abordagem bem íntima. Cada track é uma espécie de trilha em que eu procurei explorar musicalmente como eu me senti. Chamei o disco de “retratos” porque quis dar uma característica visual ao trabalho, uma trilha tem essa sinestesia. “Comutação” diz respeito às transformações sobre as quais ele me fala, sobre o lugar onde foi feito e sobre as mudanças na minha relação com a música que ele trouxe.

Qual lado da música eletrônica você mais gosta de explorar? Por quê?

 Uma das coisas que eu mais amo em música eletrônica são as diferentes possibilidades de ritmos e nuances. Gosto desde coisas mais aceleradas a coisas com BPM mais baixo, de coisas mais alegres e para cima ao mesmo tempo mais obscuras e introspectivas. Os sets e artistas que mais curto hoje em dia são os que misturam gêneros, BPM e moods diferentes. Nem sempre é fácil de fazer, mas quando bem feito acho mais interessante do que os lineares. Fora isso, o que tenho mais procurado explorar é música eletrônica feita na América Latina, independente de gênero, tem muita coisa boa.

Indique cinco artistas latino-americanos…

Vou citar apenas artistas de fora país, porque aqui no Brasil eu gosto de vários.

Verraco da Colômbia, ele tem uma label chamada Insurgentes que está com uns lançamentos incríveis. Lançou um álbum tem pouco tempo que tá muito bom e eu toco bastante. Tenho curtido muito os sets da Julianna também da Colômbia. O meninos do LPZ que tem um live incrível e a Victoria Mussi do Paraguai. Pobvio do Uruguai e Nick Leon, que se não me engano, também é colombiano.

Como é movimentar, produzir e promover a cena musical independente do Rio de Janeiro?

Movimentar música independente é difícil em qualquer lugar, claro que tem lugares com maiores dificuldades devido ao tamanho do público e recursos financeiros. No Rio de Janeiro, vivíamos uma fase muito boa de renovação nos últimos três/quatro anos com coletivos novos e engajados, além de uma busca em profissionalizar mais a cena alternativa da cidade criando oportunidades melhores para artistas e produtores. Musicalmente, o RJ tem uma cultura muito diversa, não só na música eletrônica. A cena alternativa estava começando um movimento de aproximação com diferentes nichos e de olhar mais para dentro da própria cidade. Espero que a gente siga nessa busca por mais inclusão e diversidade pós pandemia.

Quais são os pontos positivos e negativos de contribuir com a cena do RJ?

Os pontos positivos são de estar em um lugar com tanta diversidade musical e de se sentir ativamente construindo algo por ser uma cena pequena ainda. A maioria dos desafios são os financeiros, reflexo de uma cidade que nos últimos anos foi completamente abandonada pelo Estado, principalmente no âmbito cultural e social.

Como surgiu sua relação com o selo Domina?

 Domina é um selo carioca pelo qual eu sempre tive muita admiração. O primeiro trabalho que fiz com eles foi um remix pro disco do A_hank que saiu esse ano. Quando me convidaram para lançar meu primeiro disco, fiquei muito emocionada, eles me deram muito apoio e liberdade durante todo o processo. Eu não poderia ter escolhido um selo melhor para minha estreia.

Esse disco fala sobre lugares, momentos e encontros que transformam. Quais foram os seus?

 Cada faixa tem sua história, mas algo fundamental nesse disco é o lugar onde a maioria das tracks foram feitas, o vale. O Vale é um lugar na serra do Rio de Janeiro onde minha mãe construiu uma casa com sua companheira há uns anos. Minha mãe sempre quis morar no mato e esse lugar se tornou um sonho realizado, um lugar mágico para minha família, onde tudo que passamos, de repente, fez sentido. Um lugar onde eu ressignifiquei os encontros com minha mãe e minha família. Esse disco é um trabalho muito íntimo e esse é o principal motivo. Para a arte da capa a Kakubo usou a tipografia dessa região. Eu amei demais o resultado.

 Sonoramente, “Retratos de Comutação” explora os sentidos de trilha sonora. Como é sua relação com esse estudo? De que forma a sonoplastia transformou sua música?

Desde pequena eu sou fascinada por trilhas e sonoplastia de filmes, principalmente os de terror. Depois de alguns anos produzindo, resolvi começar a estudar através de cursos online e livros. Isso abriu muito meus horizontes, eu passei a enxergar a música de uma forma mais visual e entender o quanto ela é responsável na construção de uma narrativa. Tecnicamente, passei a entender mais de composição musical e a conseguir traduzir melhor sentimentos. Acho que essa compreensão também me tirou o compromisso de produzir algo voltado inteiramente para a pista e me trouxe maior liberdade criativa.

Qual filme você acha que tem uma trilha sonora perfeita?

Eu escolheria Star Wars pela sonoplastia e efeitos que revolucionaram o cinema. Por composições próprias gosto muito do Jon Brion, a trilha de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças é perfeita – e sua melhor obra na minha opinião. O filme mexicano Amores Brutos também tem um trilha com composições incríveis e é um dos meus preferidos. Pela escolha de músicas que compõem o filme eu curto muito os do Tarantino, especialmente Pulp Fiction e Kill Bill. Não posso deixar de citar também O Iluminado que foi o primeiro filme a despertar meu interesse no aspecto sonoro, a trilha desse filme é um dos principais personagens.

“O álbum pede para ressoar ao ar livre”. Se você pudesse escolher qualquer lugar no mundo para ouvir “Retratos de Comutação”, qual seria?

 O vale, com certeza.

A capa do disco foi feita pela Kakubo, release por Valesuchi, master pela Mari Herzer e ainda conta com um remix da KENYA20Hz. A união faz a força das mulheres na cena? Quais, na sua visão, são os principais desafios para que a cena seja menos masculinizada? Você sente que estamos evoluindo nesse sentido?

 Acredito que os avanços que tivemos nos últimos tempos foram conquistados porque cada vez mais mulheres estão presentes em todas as etapas de construção da cena, se tornando empreendedoras, produtoras, jornalistas, artistas e curadoras. Esse disco é um exemplo disso e assim vamos abrindo e criando espaços seguros para as demais. Esse posicionamento ativo foi fundamental para uma evolução que está em curso, mas acredito que os meios mais comerciais ainda não refletem mudanças de forma tão significativa. É preciso conquistarmos espaço em todas as esferas.

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