A Trilogia Pop do Vampire Weekend

Banda volta no próximo mês com seu terceiro disco amadurecendo sua técnica e influências para fechar o ciclo que começou em 2008

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Garotos do Brooklyn, grandes hits, turnês mundiais lotadas, mas ao mesmo tempo, nunca chegando completamente ao mainstream, liderando as paradas ou fechando um grande festival. Prestes a lançar seu terceiro álbum de estúdio, Modern Vampires of The City, oficialmente disponível no dia 14 de maio, a trajetória do Vampire Weekend pode ser considerada semelhante à de grande parte das bandas de hoje, mas, a cada novidade, os garotos de Nova York parecem mostrar que estão um passo à frente dessa multidão.

Em recente entrevista à revista Fact, Ezra afirmou que gosta de ver sua obra como uma trilogia, com Vampire Weekend (2008), Contra (2010) e Modern Vampires. Todos eles lançados com um intervalo mínimo de dois anos, perceptivelmente importantes para o amadurecimento deles como banda.

Um álbum libertador para muita gente, o homônimo disco de estreia da Vampire Weekend chegou na hora certa, da maneira certa e para o público certo. Muitos gostam de compará-lo à Is This It do Strokes ou Funeral do Arcade Fire, como discos fáceis de ouvir, fazendo teoricamente o simples, mas abrindo portas para muitas novidades em seus respectivos sub-gêneros.

Algo não muito racional estava por trás dos hits instantâneos e encantou ouvintes e críticos. Talvez seja a descompromissada incorporação de elementos africanos na percussão e na guitarra ou as letras ao mesmo tempo cotidianas e sem noção, como em “Is your bed made?/ Is your sweater on?/ Do you want to fuck?/ Like you know I do” e bizarras em outros momentos (o que o Peter Gabriel tem a ver com tudo isso?). No final, a mistura disso tudo com um vocal não muito tradicional de Ezra, tornam a banda boa, viciante, fácil de cantar junto, com músicas que não enjoam com o tempo e acima de tudo, até hoje, continuam com uma aura cool, não ficaram impregnadas em uma certa faixa etária, o que tem afastado naturalmente os fãs de muitas outras bandas. Nomes como Two Door Cinema Club ou The Killers por exemplo, parecem ter um prazo de validade e após uma busca musical mais aprofundada, deixam de ser interessantes, apesar de continuarem fazendo sentido para um determinado público. Já Ezra e companhia parecem envelhecer muito bem e incorporar elementos que fazem sua música soar contemporânea e livre de rótulos.

Outro fator claro na estreia, assim como de outras grandes bandas como as citadas no início, Vampire Weekend não esconde que são garotos experimentando coisas novas, fazendo aquilo com toda a seriedade que meninos com pouco mais de 20 anos conseguem ter. A banda já assumiu que em seu debut ainda pensava muito em como as faixas soariam ao vivo, por isso os ouvidos mais atentos conseguem facilmente imaginar cenas da banda em estúdio gravando, sem uma camada de produção que afaste o ouvinte da música.

A crueza dos instrumentos também colabora para essa sensação de reprodução ao vivo. Uma curiosidade é que nenhum instrumentista da banda toca seus instrumentos principais, aprendidos formalmente. O baterista Chris Tomson por exemplo, estudou guitarra e nunca aprendeu percussão, portanto não é difícil perceber algumas porradas exageradas na bateria que acabaram no final contribuindo para as faixas bastante ritmadas da banda.

Uma das críticas mais absurdas a eles e que em muitos surte o efeito contrário é o histórico de cada um. Todos se conheceram na universidade de Columbia, em Nova York, uma das mais respeitadas do mundo. Além de nenhum deles fazer muito o tipo “descolado”, ou “alternativo”, o que passa uma sensação de um som mais orgânico, menos forçado, sem querer provar nada para ninguém, ou parecer algo que não são, apenas comunicando-se pela música. Não se assuste portanto se vê-los com camisas polo, golas rolê e sapatênis por aí.

A estreia da banda, portanto, funciona bem como início de uma trilogia, em que não havia história contada antes daquilo, sendo necessário apresentar o enredo e os personagens a um novo público. Ao mesmo tempo, fica aquela sensação de que para as próximas duas obras, os erros serão consertados, novas influências serão incorporadas e aquela trama irá se desenvolver.

Se Vampire Weekend foi o momento de experimentação e descoberta de uma identidade sonora, Contra foi um momento de amadurecimento dessas ideias, incluindo algumas texturas, letras ainda mais misteriosas (Horchata?) e um domínio maior dos instrumentos.

O segundo álbum mostrou todos os benefícios que ser uma banda de fato, conviver junto, ter aquelas pessoas como seus melhores amigos pode trazer. Faixas como California English ou Cousins tem uma complexidade que apenas uma mente pensando sozinha – como é o caso do Dirty Projectors por exemplo – ou muitas pensando em total sintonia conseguem trazer. Em Horchata ou Run, percebemos que as batidas africanas ainda estão lá, mas esse não é o foco, como muitos passaram a descrever e sim apenas mais um elemento na colcha de retalhos da banda.

Ao mesmo tempo em que Contra agradou menos alguns fãs do primeiro disco, conseguiu atrair novos. Muitos que não haviam gostado da estreia ou olhavam para eles como apenas mais um grupo Pop, ouviram duas vezes e prestaram atenção na ousadia dos rapazes em executar aquilo da maneira com que faziam, soando extremamente agradável e maduros, conscientes do som que produzem. As maiores experimentações e cuidados com produção foram reflexo também da mudança de postura que tiveram em relação às faixas ao vivo. Eles continuaram se preocupando muito com os shows e como tudo aquilo ficaria no palco, mas essa era uma segunda etapa, a primeira era gravar a melhor versão de estúdio possível, seja ela viável ou não de ser reproduzida com fidelidade em uma apresentação.

O disco, portanto, agrada e deixa aquela ponta de curiosidade em relação aos caminhos que escolherão seguir nos próximos lançamentos, seja continuando a explorar mais a fundo o que já descobriram, ou se tentarão desbravar novos territórios e não se apoiar em nenhuma possível expectativa dos fãs de ouvirem o que lhes soa familiar.

A resposta parece que será dada em Modern Vampires Of The City, que a cada dia dá sinais de estar ainda mais encantador que as obras anteriores. Rostam Batmanglij, tecladista, guitarrista e também cabeça da banda falou em entrevista sobre a preocupação em fazer hits. Batmanglij fez questão de ressaltar o quanto se importam com a opinião dos fãs, não no sentido de que eles dirão o que querem ouvir, impedindo a criatividade de rolar livremente e sim por se preocuparem se realmente os fãs irão gostar do que vão ouvir. O músico acrescentou que uma de suas maiores angústias é fazer um show em que o público ouve as faixas novas sem muita atenção, apenas esperando os clássicos.

É por esse motivo que a banda vem lançando cautelosamente suas faixas, tendo liberado antecipadamente Unbelievers, em seguida Step e Diane Young e com Yah Hey já sendo amplamente divulgada em vídeos de celulares gravados nos shows da banda. Dessa forma é possível perceber a recepção do público e trabalhar a familiaridade deste com as faixas. É muito mais fácil digerir uma ou duas novas faixas por mês para um show, do que um disco todo de uma só vez. Isso resulta em shows cantados do começo ao fim pelos fãs e não fãs da banda, já que todas as canções são amplamente conhecidas, tocadas em festas, trilhas de filmes, séries e comerciais.

Outra característica de Modern Vampires para finalizar a trilogia é o uso mais maduro de todas as experimentações feitas nos discos anteriores, pelo menos ao analisarmos as ótimas faixas disponíveis até o momento. Por enquanto, já foram liberadas uma balada, uma faixa Pop com clima Rockabilly, outra mais parecida com o restante do trabalho e outra cujo refrão parece um hino ou uma reza indígena. Pois é, tem de tudo no novo disco e aparentemente cada vez menos batidas africanas, apesar de Ezra dizer que em alguns momentos esse é um dos discos em que essa influência está mais forte.

A banda pode não ter a mais profunda das ambições em sua obra, pode não ter os melhores instrumentistas e a voz de Ezra pode não ser considerada tradicionalmente afinada, mas uma coisa é certa: ela bebe de uma fonte muito rica musicalmente, composta por grandes artistas como Paul Simon, Talking Heads, Radiohead ou bandas mais recentes como Dirty Projectors ou Animal Collective, o que para quem é fã desses nomes, é um prato cheio. Além de tudo, a banda tem conseguido criar discos para serem ouvidos do começo ao fim, resgatando uma sensação rara de conhecer tudo aquilo de cor e não enjoando após repetidas audições em qualquer ocasião. No final de tudo, não é por isso que amamos música?

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MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.