A Valsa da Felicidade de Josh Rouse

Décimo primeiro álbum do músico, “The Happiness Waltz” coroa seus 15 anos de carreira entre Estados Unidos e Espanha

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Meu primeiro contato com a obra de Josh Rouse foi por volta de 2000/01. Eu escrevia para a Revista Rock Press e um kit de lançamentos da gravadora Trama acabava de chegar à redação. Eram álbuns lançados pela Rykodisc e que a Trama, na atitude saudável, mas inviável comercialmente, decidira jogar no mercado nacional. Vinham nomes como Bruce Cockburn, Alvin Youngblood, Kelly Joe Phelps, Jeb Loy Nichols e o segundo disco de Rouse, Home. Tive a missão de ouvir as bolachas e resenhá-las para o próximo mês e não lembro por qual delas comecei. Sei que o disco de Bruce Cockburn, Breakfast In New Orleans, Dinner In Timbuktu fez bonito. O pop-reggae-soul de Jeb Loy Nichols em seu Just What Time It Is também não fez feio. A estrela, no entanto, era mesmo Rouse, cujo álbum não trazia uma única canção ruim. Além disso, a segunda faixa já vinha com o título alvissareiro de Marvin Gaye, algo que não pode ser ignorado. Além dela, uma balada dilacerante chamada 100m Backstroke, com arranjos de cordas, outra canções, mais animadas, chamadas Directions e Hey Porcupine, mostravam que Josh Rouse havia escutado bandas inglesas dos anos 80, principalmente Smiths e Echo And The Bunnymen. Eram boas credenciais e davam ensejo a uma investigação sobre o que aquele sujeito havia feito antes.

Logo cheguei em sua estréia, Dressed Up Like Nebraska, de 1998. Capa em preto e branco, com um anúncio antigo de refrigerante. Logo pensei em outra capa com a palavra “Nebraska” estampada, a do álbum homônimo de Bruce Springsteen, de 1982, com o mesmo preto e branco. Os primeiros acordes da canção-título me fizeram logo esquecer qualquer comparação com aquele momento mais introspectivo do Boss. O que Josh fizera em sua estréia era uma versão personalíssima do que se entendia por Alt-Country, mas com um twist de compositor e esclarecimento de influências que davam ânimo. Também ouvi Chester, o EP que Rouse gravara com o cérebro por trás do Lambchop, Kurt Wagner. Era mais uma prova de que aquele sujeito era uma boa aposta para o futuro.

Vieram então Under The Cold Blue Stars em 2002, 1972 em 2003 e Nashville em 2005. Àquela altura do campeonato, ficara evidente que Josh era um grande compositor Pop, capaz de flertar com influências vintage do Pop dourado setentista e, ao mesmo tempo, soar incrivelmente leve, arejado, mesmo nas baladas mais sinceras.

Nashville, de 2005, é o disco que marca uma linha divisória em sua carreira. Toda sua herança de menino filho de militares, que viveu em várias cidades, ouviu muita gente, sofreu e cantou essa dor e, que, por fim, trouxe a separação, encerra-se neste que é, até hoje, seu mais belo trabalho. Canções como Street Lights, Winter In The Hamptons, entre outras, mostram a fina fronteira entre a dor e a redenção, a contemplação e a capacidade de reinventar-se. Não havia, por mais méritos musicais presentes, nada que indicasse que a capacidade de reinvenção de Josh Rouse traria uma nova mudança de ares. Dessa vez, algo mais radical. Em 2006, Josh foi morar na cidade de Villa de Santa Maria, próxima a Valencia, no sul da Espanha. Mudou-se definitivamente, deixando tudo para trás em busca de uma nova vida após o fim de seu casamento. Aí inicia-se a segunda fase de sua carreira, conhecida popularmente como “a fase feliz”. Os discos que vieram a partir daí, ainda que guardem totalmente o espírito e as habilidades de composição de Josh, mostram um sujeito em paz. Sem trocadilhos, uma vez que Josh casou-se e vive com a artista espanhola Paz Suay. Ante disso, em 2006, Josh gravou seu primeiro disco em terras hispânicas: Subtitulo. Mantém-se o mesmo som, a mesma habilidade melódica e o mesmo senso de composição. Entram canções mais leves, como Quiet Town, Summertime, a bela canção chuta-baldes que é Givin’ It Up e a exceção: uma balada autobiográfica, The Man Who Doesn’t Know How To Smile, que já traz os vocais de apoio de Paz. Logo em seguida, Josh e Paz voltariam com o EP She’s Spanish, I’m American, dando como oficial a união artística do casal.

Os trabalhos seguintes, Country Mouse, City House (2007), El Turista (2010) e The Long Vacations (2011), foram incorporando elementos melódicos espanhóis na música de Rouse, algo simpático a princípio, mas que esbarrava em canções no idioma nativo, algo que Josh não conseguia dominar e terminava por conferir algum traço caricato a canções como Bienvenido ou Las Voces. O disco de 2011, gravado como se fosse um conjunto, Josh Rouse And The Long Vacations, esbarrava na proposta (intencional) de transmitir uma idéia de total relaxamento, ainda que o conceito do álbum apontasse para inspiração nas canções ensolaradas da California do início dos anos 70 – que Josh já havia visitado em 1972, seu quarto disco. Ficou no meio do caminho.

The Happiness Waltz já desponta como um disco clássico de Josh. É a tão aguardada mescla entre os momentos pungentes do início da carreira com a ensolarada vista do Mediterrâneo. É a tristeza por algo ou alguém que se foi e a certeza do sol queimando a plaza da cidade quieta. The Happiness Waltz é o 11º disco de uma carreira que já vai para quinze anos. E não faz feio. Novamente, Josh se sente com pique suficiente para falar de sua América natal. E não faz feio.

Faixa a Faixa:

1 – Julie (Come Out Of The Rain): é uma beleza dolente de vozes e guitarras com timbres solares. 2 – Simple Pleasure: como o nome já diz, é simples e feliz, com um velho andamento à la Smiths, mas sem qualquer sombra de melancolia 3 – It’s Good To Have You: um refrão e um andamento que poderiam ter sido compostos em 1974, solo de guitarra acústica e o luxuoso/simples vocal de Josh cantando para a família “como é bom ter vocês”. 4 – City People, City Things: mais acenos à década de 1970, canção alegrinha com profusão de guitarras e violões, desembocando num refrão quebrado. 5 – This Movie’s Way To Long: mais uma canção familiar sobre a vida em casa, as pequenas diversões que podemos ter nas menores coisas da vida. Guitarras brincam aqui e ali. 6 – Our Love: a melhor do disco, em ritmo de valsa, clima de banda de soft rock do início dos anos 70. Tudo aqui é belo, dos vocais ao arranjo, como se fosse uma tarde de sol ao lado da pessoa amada. 7 – A Lot Like Magic – mais acenos ao pop britânico dos anos 80, casando-o com as melodias americanas dos anos 70, com direito com refrão decalcado de canções pop-soul da Motown e metais. 8 – Start A Family – aqui Josh se permite uma visita aos climas hispânicos, sobretudo na levada, chegando a lembrar algo de Paul Simon nos anos 70. 9 – Western Islands – com linha de baixo proeminente, levada rápida de bateria, mais “dejá ouvi”, dessa vez lembrando uma outra canção de Josh, safra 2005: “Winter In The Hamptons”. 10 – Purple And Beige – “turn on the radio, what’s on the radio…I’m not sure” são os versos que Josh usa para lembrar de tempos distantes, nessa belíssima canção que traz oscilações de climas e belo arranjo de cordas. 11 – The Ocean – para um sujeito nascido no Meio-Oeste americano, morar de cara para o Mediterrâneo deve ser uma grande mudança. Essa canção fala sobre todos os aspectos disso. 12 – The Happiness Waltz – a faixa-título, que encerra o disco, é esparsa, mescla gaita, pianos, violões e vocais doces. Fecho perfeito para um disco excepcional.

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ARTISTA: Josh Rouse
MARCADORES: CEL

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.