A vez de Marina Sena

“De Primeira” pinta influências que vão do Samba ao Dancehall com verniz pop dos mais sedutores; a artista mineira fala sobre os desafios do disco de estreia, o desejo de se tornar uma “diva” e o que significa entrar ou não nos moldes da indústria

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Fotos: Fernando Tomaz

Após transitar simultaneamente pelo flerte tropicalista da Outra Banda da Lua e o pop colorido do Rosa Neon, Marina Sena, enfim, celebra sua própria autonomia musical com o primeiro disco solo: “Sempre tive total condição [de me bancar sozinha] e eu desacreditei. Mas agora eu acredito”. Lançado no último dia 19 de agosto, De Primeira evidencia a figura majestosa da mineira de 24 anos, que percorre diferentes referências da música brasileira e quer conquistar a música Pop.

Para concretizar esse processo, contudo, a artista precisou se despedir da trupe de Montes Claros, na qual foi protagonista durante cinco anos, e dos vocais agudos do Indie Pop, o que possibilitou não apenas explorar outras camadas sonoras, mas encarnar a persona de diva pop – distante do aspecto, como ela define, “tilelê”. “Era muito fácil as pessoas escutarem a música e me colocarem em um saião florido no mato”, pontua em entrevista ao Monkeybuzz.

Autodidata desde a infância, quando aprendeu a cantar sozinha ouvindo Cássia Eller, Adriana Calcanhoto e Gal Costa, Marina é confortavelmente espontânea, autentica e sensual. À frente de mosaico que combina MPB, Funk, Pop, Samba, Dancehall e Reggae, a artista, acompanhada do talentoso produtor Iuri Rio Branco, entregou uma coleção de 10 faixas com sabor de noite apaixonante de verão. Lançado há duas semanas, De Primeira já soma mais de 5,5 milhões de reproduções no Spotify, sendo 2,6 milhões de plays apenas no carro-chefe do disco, “Me Toca”. Nascida em Taiobeiras, cidade do norte mineiro, Marina já é mais do que uma aposta ou uma revelação do ano.

Abaixo, a dona de um dos grandes discos nacionais de 2021 fala sobre criatividade, amor-próprio, relacionamentos, espiritualidade e, como não poderia deixar de ser, música Pop:

 

Como foi o processo de construir a sua identidade musical nesse primeiro disco?

As minhas músicas já tinham a própria identidade, porque eu já tinha elas há um tempo. A maioria, na verdade, outras são recentes. Então, as selecionei para o disco porque todas tinham a mesma cara, falavam sobre amor. E eu amo falar de amor. Fui selecionando músicas de várias épocas minhas para colocar no disco, porque acho que elas têm uma conversa parecida. Eu, inclusive, mostrava essas músicas, mas não queria que elas entrassem nem para o Rosa, nem para a Outra Banda da Lua. Eu mostrava, mas era tipo assim: ‘Essa aqui é minha’, [risos]. Sempre compus para todas as minhas bandas, coloquei as músicas na roda, mas essas não, porque essas são para mim. Todas elas eu já tinha gravada na voz e violão.

Mas aí depois vem a cara da produção musical. Já tinha muito tempo que eu procurava um produtor para o disco, porque eu não consigo fazer isso. Eu poderia até fazer, mas não ia ficar bom, de jeito nenhum. Precisava de alguém a quem eu pudesse confiar as minhas músicas, alguém que eu pudesse falar: ‘beleza, vou colocar essa música na sua mão e você não vai fazer bost* [risos]. As músicas já eram antigas e eu tenho muito carinho por elas. Todo mundo que convivia comigo e já tinha ouvido morria de medo de quem eu ia colocar essas músicas na mão. Me falavam: ‘E se você colocar na mão de um produtor que vai estragar suas músicas?’. Queria alguém que potencializasse elas, que fizesse com que elas ficassem melhores do que elas já são.

E aí foi quando eu conheci o Iuri Rio Branco, a primeira pessoa que olhei e falei: ‘É ele que vai produzir as minhas músicas’, porque eu não queria entrar nesse lugar da MPB comum, fazer aquele som, ser aquela cantora da MPB, estar naquele lugar-comum, que já está até meio ultrapassado. Eu queria mesmo fazer um som moderno, ser pop. Sempre tive vontade de ser uma diva do pop e espero que eu consiga. Estou trabalhando para isso. Mas eu tinha muito medo. Só que ele pegou as músicas e fez do jeito que eu queria e eu nem precisei falar nada. Ele fez do jeito que ele acredita e que, coincidentemente, é o jeito que eu queria. Coincidentemente não, porque eu escolhi ele por isso [risos]. Mas ele fez exatamente o que eu queria e levou as músicas para exatamente onde eu queria que elas fossem.

Você consegue escrever melhor quando seus sentimentos estão latentes, quando as coisas estão acontecendo ou você sente que precisa de um afastamento das situações para processar e depois recorre à escrita?

Eu tenho que estar no olho do furacão para eu compor uma música. O trem tem que estar assim [buzina de trem], [risos].

“Eu queria mesmo fazer um som moderno, ser Pop. Sempre tive vontade de ser uma diva do Pop e espero que eu consiga. Estou trabalhando para isso”

Você é uma artista muito visual e com uma estética que parece bem definida. Você sempre enxergou a música com esse anexo?

Sim, com certeza. Não consigo nem desassociar isso. Para mim, é a mesma coisa. No meu caso, moro com o Vito Soares, diretor de todos os meus clipes desde o Rosa Neon e a Outra Banda da Lua, então a gente sempre está junto. Quando eu faço uma música, na voz e violão, já mostro para ele e na hora a gente cria um clipe e pensa em um roteiro. Todas as músicas têm roteiro antes de estarem produzidas [risos]. Também penso em todas as que foram chegando no projeto, o Leandro Porto, o Marcelo Jaz, diretor criativo do projeto do disco. Não precisei nem falar nada com ele também, porque ele fez do jeito que ele queria fazer e esse jeito era o que eu queria também [risos].

O Leandro também me ajudou muito nessa questão visual. Ele me veste do jeito que quer, que naturalmente é o jeito que eu sempre sonhei em me vestir e não sabia. Todas as pessoas que trabalham comigo, têm uma capacidade de leitura muito grande de conseguir traduzir as coisas para a arte de uma forma muito cabulosa.

Rolou direto uma sintonia criativa entre vocês, né. E como aconteceu esse encontro?

O Leandro eu já fragrava [prestava atenção], porque ele faz o styling da Duda Beat e eu sempre amei. Sempre achei ele muito autêntico e diferente do que estava acontecendo, sabe? Ele realmente leva ela para lugares muito massas. Então eu já acompanhava o trabalho dele, seguia nas redes sociais até que um dia ele me mandou uma mensagem dizendo: ‘queria trabalhar com você’ e eu fiquei super empolgada, e perguntei: ‘você quer trabalhar comigo? Porque o meu sonho e trabalhar com você’ [risos]. E eu já estava na busca de alguém que me vestisse de um jeito que eu realmente falasse: ‘sempre sonhei em vestir isso’ ou ‘esse é o meu estilo’ e ele tem a manha de fazer isso, de transformar as pessoas em divas.

E quanto ao resultado do disco? Saiu tudo exatamente como combinado ou teve um processo de deixar coisas para trás?

Eu nunca tive um pensamento assim muito estático do que eu queria, sabe? Eu queria uma coisa que parecesse grande e que não fosse nada parecido com o que já estava rolando. Queria algo que trouxesse impacto esteticamente, que me tirasse do lugar cantora de MPB, ti lelê, de saia florida. Porque também tem isso, era muito fácil as pessoas escutarem a música e me colocarem em um saião florido no mato. Se eu fosse fazer sozinha, se pá eu faria isso, porque ia ser fácil de fazer. Mas eu queria parecer uma coisa maior, icônica, porque eu acho que eu tenho isso na minha personalidade, e eu queria que isso se transpusesse para o styling, para arte, para os clipes, para tudo. E essas pessoas que vão chegando no projeto é exatamente isso que elas fazem. Elas me tiram do lugar que normalmente as pessoas me colocariam, me colocam em outro lugar, o lugar que eu quero estar.

E na hora de finalizar as faixas? Como foi essa dinâmica de produção?

Mandei 10 guias de música para Iuri ouvir em voz e violão, e nos próximos dias seguintes ele me mandou todas [risos]. Depois a gente tirou quatro e acrescentou quatro, que acabaram surgindo no meio do processo, mas não dei muito pitaco não. Eu mandava as vozes e o violão no tempo certinho, ele me mandava produzida e perguntava se eu gostei ou não. Se não, ele demorava 5 minutos e voltava com outra versão. “Santo” foi a única que ele mandou que eu fiquei: ‘ai, não sei se é por aí’. Deu 15 minutos ele me mandou outra versão, que é a que está no disco. Para ele já está muito claro, é muito fácil fazer música, como para mim também é. Abro mão se música não deu certo, se tem uma palavra que não encaixa. Não deu, vou lá e faço outra porque é fácil fazer música, é nossa profissão, né [risos].

“Queria algo que trouxesse impacto esteticamente, que me tirasse do lugar cantora de MPB, tilelê, de saia florida. Era muito fácil as pessoas escutarem a música e me colocarem em um saião florido no mato. Se eu fosse fazer sozinha, se pá eu faria isso, porque ia ser fácil de fazer. Mas queria parecer uma coisa maior, icônica, porque eu acho que tenho isso na minha personalidade, e queria que isso se transpusesse para o styling, para arte, para os clipes, para tudo. E essas pessoas que vão chegando no projeto é exatamente isso que elas fazem. Elas me tiram do lugar que normalmente as pessoas me colocariam, me colocam em outro lugar, o lugar que eu quero estar”

Aproveitando que você falou de “Santo”, vi você brincar bastante falando que rezava para o disco dar certo ou para que sua equipe entendesse o que você queria e eu fiquei curiosa para saber qual era a sua relação com a espiritualidade. Você acha que de algum jeito ela conversa com a sua música?

Olha, eu sou uma pessoa crente. Eu não sou evangélica e não tem religião. Mas eu sou muito fervorosa na espiritualidade. Tudo eu rezo, tudo eu converso, tudo eu peço sinais. Eu acredito que a espiritualidade me manda a mensagens o tempo inteiro. Acho até que essa facilidade em fazer música tem a ver com espiritualidade, com eu saber ler a mensagem que Deus está me mandando. Porque acho que para você falar de Deus, você não precisa necessariamente falar de Deus. Penso que um dos assuntos que eu estou passando para o mundo é um dos que Deus quer que esteja no ar, ele quer falar de amor, quer fazer as pessoas se sentirem confortáveis para se apaixonar. Tipo, se apaixonar é divino, se amar é divino, amar o seu corpo é divino, você sentir liberdade, se sentir livre, isso é divino. Eu acredito que eu estou passando a mensagem de Deus. Sempre falo: ‘ó, Deus, me usa. Eu quero passar a mensagem’, o que cabe a mim, passar, claro. Penso muito sobre qual é a mensagem que na minha presença, na minha existência Deus quer que eu fale? Pretendo nunca bloquear sempre manter o canal aberto com Deus, porque isso é grande demais.

Você falou que ‘se amar é divino’ e em uma das faixas do disco, “Voltei Pra Mim”, você fala um pouco sobre isso, né?

É que em relacionamentos em geral, mesmo quando não é hétero, pode ser com a mãe, com o pai, relacionamento com pessoas, às vezes você tende a entrar num círculo vicioso de querer muito ser o que é, porque a pessoa te ama e você quer honrar esse amor. Aí você faz as coisas se baseando nos conceitos dessa pessoa sobre a vida, porque você sempre vai tentar caber naquela relação. Só que às vezes o que você vê na sua vida não tem a ver com os conceitos daquela pessoa, entende? Você tem que viver outras coisas tem que olhar outras coisas, tem que ver o mundo de outro jeito para você potencializar você mesmo.

E aí é nessa hora que você percebe: ‘realmente, estou vivendo baseado no mundo de outra pessoa’. Só que o meu mundo é muito maior, é outra coisa. Não é que é maior ou melhor, né, mas é diferente. A gente entende que precisa correr atrás disso, eu preciso ver o que tem que para ver. Eu já passei por várias situações de relacionamentos abusivos, ainda mais eu que sou namoradeira, mas consegui sair, olhar e falar: ‘isso aqui não é para mim’. Até quando não era tóxico, abusivo, eu pensava: ‘não dá para estar com essa pessoa agora, porque essa pessoa pensa assim e se eu ficar com ela, eu vou começar a pensar assim’.

De certa forma, você acha que isso se relaciona com o seu disco e o seu processo de se encontrar como Marina, entender você sem as influências de outras pessoas?

Nossa, demais, completamente. Porque em todas as bandas que eu participei, A Outra Banda da Lua, Rosa Neon, sempre tive um papel de protagonismo. As músicas mais tocadas eram músicas que eu compus ou era com a minha voz. Então eu tinha esse papel de protagonismo nas bandas, mas eu não entendia. Eu desacreditava em mim, achava que só conseguiria se eu tivesse atrelando a minha imagem a imagem de outras pessoas, eu não acreditava que ia dar conta de bancar sozinha. Eu queria bancar sozinha, queria muito. Mas eu tinha medo. E aí agora descobri que eu tenho total condição, eu penso: ‘eu sempre tive total condição e eu desacreditei’. Mas agora eu acredito.

O que você acredita ter sido a coisa mais importante que você aprendeu sobre música até hoje?

Se você tem que explicar a música, se a pessoa não consegue se sentir tocada apenas pela música, você está errado. Mesmo que a pessoa não entenda o que você falou, se ela se sentiu tocada pelo sentimento da música, pela energia é isso que importa. A energia da música diz mais do que a letra da música. A letra da música fica completamente em segundo plano. A energia da música a primeira coisa que pega, se você precisa explicar, você fez errado.

Dicas de ouro.

[risos], é. Por exemplo, em “Pelejei” tem uma parte que eu falo “tô tão distante desse om”, o om da meditação. Ninguém entende isso, mas estão lá cantando. Quando eu falei no Twitter: ‘gente, on é on de meditação, viu’, não sei se alguém já percebeu, e aí todo mundo: ‘meu deus!’, ‘chocada’. [risos]

Aproveitando para falar das fonéticas, o disco tem várias que são muito gostosas. Você tem alguma palavra preferida da língua portuguesa?

Pelejei. Falei isso anos atrás em uma entrevista muito antiga, e eu fui lá e fiz a música. É a minha palavra favorita, é boa demais de falar [risos].

E quando o assunto é Pop? O que é Pop para Marina Sena?

Pop é aquilo que tem apelo popular. Para mim, é a coisa que pega. Tem hora que umas pessoas falam do meu disco: “Não entrou nos moldes do pop” e aí eu fico: que molde, gente? Porque assim, pop no Brasil, qual é o molde? Para mim, o maior artista pop do Brasil é Djavan. Você chega em qualquer boteco do interior de qualquer lugar, o povo está cantando Djavan. E as letras todas esquisitas, ninguém sabe o que ele está falando na letra ou dos duendes no edredom. E o povo está cantando e com emoção. É o que eu estava falando, música não precisa explicar. Para mim, ele é o maior hitmaker do Brasil, o maior artista pop. E aí eu fico: ‘lógico que eu não tô entrando no molde, porque não preciso entrar no molde’. Às vezes a galera tenta fazer Pop, aí pega uma fórmulazinha e não populariza. Fez no molde e não virou. Então não é pop. Não adianta. Para mim, Pop é aquilo que tem apelo, o que é capaz de ser avassalador. Então, eu quero que a minha música seja isso, não quero ter que me envolver em nenhum molde que não tem a ver comigo. Todos os moldes em que eu me envolver são moldes que eu quero. Mas o que eu quiser sair também, eu saio. Todas as minhas músicas são pop, se falar que é samba, é, mas é pop, porque é uma música que tem um refrão, com apelo, que as pessoas aprendem e cantam.

De Primeira em uma frase?

Um amor de verão à noite.

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ARTISTA: Marina Sena